Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

Um entrevistado não é um guichê (actualizado)

Daniel Oliveira, 29.01.09



Por causa da recusa do presidente da ERC em ser entrevistado por um jornalista específico (jornalista do "Expresso" que, devo esclarecer, conheço há 20 anos e sobre o qual tenho a melhor opinião profissional possível, não sendo este texto sobre o caso especifico), começou um debate indignado sobre o direito dos entrevistados "vetarem" os entrevistadores.

Confesso que nem consigo perceber onde está o debate. Ninguém pode impedir um jornalista de ter acesso a acontecimentos públicos, a conferências de imprensa, a comícios, a reuniões abertas e, sobretudo, a documentos públicos. A liberdade de imprensa não selecciona jornalistas e órgãos de comunicação social. Mas há outro tipo de relação e essa tem escolha. É por isso que uns jornalistas têm fontes e outros não, que uns jornalistas conseguem grandes entrevistas e outros não, que uns jornalistas conseguem exclusivos e outros não. Qualquer entrevistado pode escolher a quem dá ou não dá uma entrevista. Claro que, se os jornalistas preferirem, o convidado a uma entrevista pode dar outras desculpas e mentir nas motivações da recusa. Mas, no fim, vai dar ao mesmo.

É mesmo o único poder que um potencial entrevistado tem: não responder a uma pergunta ou responder nos exactos termos em que o entende fazer, não dar entrevistas a ninguém ou não dar uma entrevista a um órgão de comunicação social específico ou a jornalista específico. E isto está sempre a acontecer. Claro que, ao fazê-lo, pode estar a alimentar um conflito com um jornal. Assim como um jornal, ao atacar em termos violentos uma determinada pessoa, está a alimentar um conflito com essa pessoa. E o jornalismo e o poder sempre viveram deste equilíbrio dificil que não se resolve nunca. Vai-se gerindo. Quanto melhores forem os jornalistas, mais exigentes forem os leitores e mais respeito os políticos tiverem pela comunicação social mais fáceis serão os conflitos de resolver.

No "Público", pergunta-se: "Teria sentido o inverso, o jornalista só entrevistar alguém em quem confiasse? Será jornalismo, isto?" O "Público" está a brincar com as palavras.O jornalista escolhe, o seu critério é que não é o mesmo porque é diferente o seu papel. Um jornalista só entrevista quem acha que tem relevância. A confiança, aqui, tem um papel secundário (mas existe: não entrevista quem vai desmentir tudo o que disse no dia seguinte, um mitómano compulsivo, etc). O do entrevistado, que não controla (nem deve controlar) o resultado final, só pode ser mesmo o da confiança. Um e outro escolhem.

Da mesma maneira que os jornais e os jornalistas estabelecem uma relação de confiança com os leitores e com as suas fontes, também têm de a estabelecer uma relação de confiança com os objectos das suas notícias. O jornalismo vive e sempre viveu dessa capacidade informal de negociação e equilíbrio. Não escolher, para fazer uma entrevista, um entrevistador que tenha conflitos com o entrevistado (não sei, sinceramente, se era o caso) é um acto de bom senso. E cabe ao jornal ter esse cuidado. Até porque um entrevistado pode aceitar a entrevista e boicota-la. Basta dar respostas redondas e neutras a tudo. Uma entrevista é como uma dança, precisa de dois.

O debate a ter é outro: quais são, para Azeredo Lopes, presidente da Entidade Reguladora de Comunicação, os critérios de confiança. Ao que parece, não confia em quem o critica. E isso sim, por o que revela da falta de espirito democrático, é que é perturbante. Já o direito de cada entrevistado aceitar ou não uma determinada entrevista é, pelo menos para mim, assunto pacífico. Misturar os assuntos é perigoso. Não tanto pelo caso em apreço, mas pela absurda doutrina que pode nascer daqui.

Este texto estava desnecessariamente enorme e mal estrurado. Não está muito melhor, mas ficou um pouco cortado para ser menos redundante. As minhas desculpas.

Aqui fica o esclarecimento que Azeredo Lopes deixou na caixa de comentários:

"Caro Daniel Oliveira,

Lança uma dúvida (que contém, implicitamente, um repto) a propósito da minha decisão de não mais conceder entrevistas a um determinado jornalista do Expresso:

“O debate a ter é outro: quais são, para Azeredo Lopes, presidente da Entidade Reguladora de Comunicação, os critérios de confiança. Ao que parece, não confia em quem o critica. E isso sim, por o que revela da falta de espirito democrático, é que é perturbante”.

Não creio que possa dizer-se que o meu “critério de confiança”, para empregar a sua expressão, seja o de não falar com quem me critica.
De facto, se há algo que me deixa tranquilo é a circunstância de muitos outros, para além do jornalista em causa, me terem criticado (pessoalmente) ou na qualidade de Presidente da ERC - no espaço público como alhures. Fosse assim, aliás, e não falaria com muita gente - e creio que, sob esta abordagem, concordará com a minha proposição.
Trata-se, efectivamente, de um critério bem mais apertado, que, como tive ocasião de declarar publicamente, apenas apliquei, desde que exerço funções, relativamente a UM jornalista.
E, para esclarecimento, o meu critério não é, de todo, o da crítica, por virulenta que seja, mas uma conjugação de outros, que apresento de forma sintética:

1) Deverá tratar-se de um comportamento padrão, isto é, reiterado, de omissões, descontextualizações ou, pura e simplesmente, falsidades;
2) Essas falsidades (ou inverdades, para empregar um termo talvez mais aceitável) devem poder ser comprovadas de forma objectiva, e não assentar numa mera sensibilidade de carácter subjectivo;
3) A recusa em falar com um jornalista apenas poderá incidir sobre a possibilidade de por ele ser entrevistado;
4) O órgão de comunicação social tem todo o direito de, não aceitando eu ser entrevistado por aquele jornalista, recusar alocar outro jornalista para esse efeito;
5) O jornalista conserva todo o direito de presença e de colocação de questões em outras situações (p.e., conferências de imprensa), tendo eu o dever - ético - de lhe responder.

Quanto ao seu post e à “doutrina” que nele expende, subscrevo-os na íntegra.
Melhores cumprimentos,
Azeredo Lopes"

11 comentários

Comentar post

Pág. 1/2