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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Viva a mulher objecto! Viva o homem objecto!

Daniel Oliveira, 27.02.10


O Bruno criticou o anúncio da Super Bock Mini Stout. Como abrimos aqui uma primeira polémica no Arrastão (já vi partidos trotsquistas cindirem-se por muito menos), aqui vai a minha opinião. O anúncio é mau. Apenas porque é básico, não por transformar o corpo de uma mulher num objecto. Sim, transforma. Mas isso não tem mal nenhum. Pelo contrário.

Há um subtexto no discurso conservador (que não é evidentemente o do Bruno, mas a esse já lá vou) contra a exploração do corpo feminino. Não nos enganemos: para os conservadores, o poder da mulher vive da sedução e do sexo (e da família, claro, graças à prole). Este suposto poder feminino acaba por se manifestar na sociedade através da influência que terá, em conjunto com a maternidade, nos homens. Ou seja, a mulher, através das suas artes "demoníacas" e do seu domínio da casa e dos filhos, tem poder sobre o homem. Por isso, o homem pode ficar com o poder da rua, do Estado e do dinheiro, porque no fundo "atrás de um grande homem está sempre uma grande mulher". Mas como é poder, o poder de sedução da mulher deve ficar dentro de casa. Não se deve banalizar. É por isso que nas sociedades muçulmanas que conheço a mesma mulher que se tapa na rua usa roupas em casa que muitas mulheres ocidentais teriam dificuldade em ter sequer no armário. Esse é o poder que lhe é permitido.

O feminismo é um movimento político e social contra uma organização política e social machista e pela defesa da igualdade de direitos. Este feminismo “liberal” em que me incluo (o feminismo não é uma coisa de mulheres) é um pouco diferente do feminismo "radical", que acredita que o poder tal como o conhecemos é essencialmente masculino. Pelo contrário, acredito que as características que muitas vezes associamos aos homens são apenas as características do poder, e não o contrário. Quando as mulheres dividirem realmente com os homens esse poder terão os mesmos defeitos. Não haverá menos guerras, menos força bruta, menos exploração. Haverá igualdade de direitos entre homens e mulheres. Apenas isso. Não há um poder masculino e um poder feminino. Há um género que garante para si o poder público e outro a quem esse poder tem sido negado ao longo da história.



O poder da mulher estará exactamente no mesmo lugar em que está o poder do homem: na possibilidade de controlar pela força bruta, ou pela solidariedade, ou pela subtileza, ou pela sedução, ou de outra qualquer forma a sua vida e a vida dos outros.

A crítica feminista ao uso do corpo da mulher na publicidade, a que o Bruno adere, parte do principio que a objectificação do corpo corresponde a uma manifestação de um poder com características masculinas. Pelo contrário, a minha crítica feminista a este discurso parte do princípio que é a ausência de objectificação do corpo dos homens (que como se vê pelo anúncio em cima começou a ser resolvida há uns tempos) que corresponde a uma desigualdade de poder. É quase a mesma coisa, mas ao mudar o foco muda o que se critica.

A objetificação do corpo da mulher e do homem (aplaudo nos dois casos), em geral, é natural e desejável. Corresponde à procura do prazer sem qualquer outro objectivo. E à conquista por parte da mulher do mesmo direito (e poder) dos homens: o do controlo sobre a sua sexualidade sem constrangimentos morais que são, sempre foram, impostos para vantagem masculina - nós temos o prazer, vocês querem o afecto, nós a auto-estima, vocês a intimidade. O que para além de ser uma treta (as mulheres gostam tanto de sexo sem afecto ou intimidade como os homens), é muito confortável para os homens. Nós ficamos com os dois - o prazer e o afecto, que não são exactamente a mesma coisa - e vocês devem contentar-se com o segundo, na esperança que com ele venha o primeiro.

É por isso que não concordo com o Bruno: tudo pelo uso do corpo da mulher na publicidade, na pornografia, na prostituição, na arte, com bom gosto, com mau gosto, de forma velada, de forma explícita. O que é que elas têm de conquistar? Não é o recato e o respeito pelo seu corpo sagrado. É o uso do corpo do homem na publicidade, na pornografia, , na prostituição, na arte, com bom gosto, com mau gosto, de forma velada, de forma explícita.

Incomodam-me os esterotipos de beleza? Sim, até porque, diga-se em abono da verdade, não me parece que neles eu esteja incluido. Safo-me como posso. Incomoda-me a mercantilização do corpo? Muitas vezes sim. Mas não por se tratar do corpo. É por ser mercantilização. Incomoda-me tanto como a absoluta mercantilização da inteligência, ou do tempo, ou da saúde, ou do conhecimento. Se me ficar pelo corpo, então quer apenas dizer que dou ao corpo (e ao sexo, porque na realidade é disso que estamos a falar) uma espécie de estatuto sagrado que não dou a tudo o resto que define a individualidade de cada ser humano.

Por isso, para mim, só faz sentido ter um discurso crítico em relação à mercantilização do corpo e do sexo se ele for, na realidade, um discurso crítico do capitalismo. Ou pelo menos da sociedade de mercado. Se não, é apenas uma crítica à exposição e exploração dos desejos sexuais humanos. E com essa tenho uma certa dificuldade em alinhar. Seria estranho que pudéssemos apelar, para vender produtos, a todo o tipo de desejos, menos ao primeiro de todos eles.

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