Segunda-feira, 31 de Maio de 2010
por Daniel Oliveira


Os médicos do Reino Unido querem proibir de fumar nos carros que transportem crianças. É evidente que não se deve fumar com uma criança num carro. É uma questão de bom senso. Mas o bom senso não pode passar a ser lei. Sei que isto é, nos dias que correm, difícil de explicar, mas nem tudo o está errado deve ser proibido. E nem tudo o que manda o bom senso deve ser obrigatório.

Porque se, em defesa da saúde de terceiros, proibimos adultos de fumar nos seus carros, o passo seguinte - e ele virá - será proibir os cidadãos de fumar em casa. Porque não?

E o tabaco está longe de ser a única coisa que faz mal a uma criança. A alimentação, todos sabemos, é decisiva para o seu desenvolvimento. Fará sentido a lei impor uma determinada dieta que os pais estariam obrigados a dar aos seus filhos? Quem sabe, publicada semanalmente em "Diário da República".

O combate ao tabagismo tem servido como excelente desculpa para um retrocesso civilizacional que dá ao Estado poderes que até há uns anos seriam inimagináveis numa democracia. Defendo leis moderadas, que dêem aos não fumadores o direito de não o serem. Mas há leis que, mesmo parecendo acertadas nos resultados práticos que delas se esperam, abrem portas muito perigosas.

A ideia de que devemos defender os menores dos erros dos adultos é correcta. Mas tem como limite não regulamentarmos a vida das pessoas para além do estritamente necessário. E acreditarmos que, em algumas matérias, a mudança de mentalidades pode fazer o mesmo que uma lei com muito menos riscos para a nossa liberdade. Nunca devemos esquecer que hoje são os fumadores, amanhã...

Para quem julgue que se trata apenas de defender os menores, Luís Rebelo, Presidente da Confederação Portuguesa de Prevenção do Tabagismo, diz, entusiasmado, que não se trata de uma medida isolada. "Faz parte de um plano concertado de ataque ao tabagismo no Reino Unido". O objectivo será diminuir em cerca de 40 ou 50 por cento da taxa de fumadores nos próximos quatro ou cinco anos . Ou seja, mais do que proteger terceiros, quer-se, através de proibições, obrigar as pessoas deixem de fumar.

O mais curioso é notar que à medida que o Estado se demite de funções sociais (incluindo na saúde) mais regulamenta o modo de vida dos cidadãos. Parece contraditório mas é coerente. Quanto menos quer gastar mais precisa de proibir.

Publicado no Expresso Online.

por Daniel Oliveira
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40 comentários:
Carlos Marques
Inteiramente de acordo.
O mal do Estado é estar ao serviço da caça ao voto, isto é, mais preocupado com a imagem que transmite do que com o bom senso e a liberdade das pessoas. Culpa da TV? Talvez. As pessoas desde que começaram a ver parece que deixaram de dar importância ao que lhes é dito. Parece que conta mais o fatinho, a altura física e o ar determinado do que o discurso e a prática, sobretudo em países com populações menos preparadas para pensar e escolher.

Falta por aí um Churchill com os seus charutos e excessos. Não é de um homem providencial que se precisa, mas de um homem, ou mulher, com tomates para enfrentar mesmo o destino mais perigoso - até loucos de bigodinho e gestos abichanados.

Faltam Churchills que não queiram ser os paizinhos e dispor de empregos a direito e a torto, mas que velem sobretudo pela decência, incluindo cuidados de saúde para todos, mas bem geridos, educação a sério, no duro, para a realidade "lá fora" e não para as estatísticas, e uma justiça que não sirva antes de mais para manter com os seus privilégios uma carrada de suas excelências, mas para fazer justiça, que se perceba e em tempo útil.

deixado a 31/5/10 às 11:27
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[...] This post was mentioned on Twitter by Arrastão, Ricardo Vitorino. Ricardo Vitorino said: A ditadura higienista: http://is.gd/cwMCI (texto de @danieloliva) [...]

deixado a 31/5/10 às 12:24
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lingrinhas
Caro daniel o estritamente necessario é a proibição porque senão não vai lá e você sabe isso muito bem e acho graça voce falar em mudança de mentalidade .

deixado a 31/5/10 às 12:31
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É verdade, o Estado não é nosso pai. Devemos ser livres até de sermos estúpidos.

deixado a 31/5/10 às 12:41
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Alex
Se os pais não são responsáveis, o Estado deverá ser por eles. Da mesma forma que as crianças (e adultos) devem usar o cinto de segurança. Da mesma forma que não devem conduzir e falar ao telemóvel. E não é apenas em Inglaterra que estão a pensar nessas medidas! Não sou contra os fumadores. Cada um faz o que entender desde que não prejudique quem ao seu lado estiver.

deixado a 31/5/10 às 12:46
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bico de lacre
"E nem tudo o que manda o bom senso deve ser obrigatório."
O "bom senso" é um pouco como o "bom gosto", tem muito a ver com cada um de nós.
Concordando eu com o geral do que diz e também receando em parte o excesso de proibicionismo, reconheço que não é fácil definir onde estão os limites.
Por exemplo, discordando o Daniel desta regra que pretende proibir de fumar num carro que transporte crianças, o que tem a dizer da obrigatoriedade de se usar cinto de segurança quando se circula num automóvel. Repare que a primeira situação expõe crianças à inalação de fumo de tabaco, substância reconhecidamente nociva, na segunda, e apenas em caso de acidente, o desrespeito pela lei apenas terá consequências agravadas para o prevaricador, nunca para terceiros.

deixado a 31/5/10 às 13:55
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Ana
Et voilá, mais uma medida que me faz lembrar o Orwell, 1984 não está assim tão longe... Sou mãe de 2 filhos, fumadora, já cometi a idiotice de fumar com eles no carro, enquanto os levava a um passeio à praia... longe dos centros comerciais, o mais rapidamente possível longe dos fumos tão ou mais nocivos dos tubos de escape, com saudável merendinha na bagagem, sem nunca parar num McDonald's (comerão essas porcarias longe de mim, com os amigos, com os avós, eu não os levo). Os loucos pais que fumam com os filhos no carro podem ser os ajuizadinhos que pensam e tomam outras atitudes acertadas.
E, já agora, qual é mesmo o imposto pago pela indústria tabaqueira ao Estado? É lucrativo, não é, tabaqueira nacional?!...

deixado a 31/5/10 às 13:55
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Alex, a obrigatoriedade do cinto é o maior exemplo de como o Estado quer ser nosso pai.
Em que é que não usar o cinto afecta os outros?
E não venha com a conversa de que se uma pessoa morrer, afecta a família. Ou que se tiver que ter tratamentos hospitalares, todos pagamos impostos para isso.
Isso são argumentos que servem para proibir quase tudo.

deixado a 31/5/10 às 13:58
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Antonio Cunha
Isto do Estado mãezinha é do mais estúpido que pode existir.

deixado a 31/5/10 às 14:33
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ana
Não estou a ver onde está a poupança ao proibir as pessoas de fumarem. Suspeito que se não forem os fumadores os sistemas de pensões vão dar o berro ainda mais cedo.

deixado a 31/5/10 às 14:36
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