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Arrastão: Os suspeitos do costume.

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Daniel Oliveira, 29.04.08

Durante o mês de Maio o Arrastão recorda o Maio de 68. Hoje, para começar, fica o documentário. Para ver com tempo.

Recordar a Eurovisão [1]

Daniel Oliveira, 28.04.08
Entre 20 e 24 de Maio, Belgrado recebe a 53ª edição do Festival Eurovisão da Canção. O Festival da Canção já conheceu melhores dias na Europa e em Portugal. Durante a minha infância e adolescência o País parava para ver os seus ilustres representantes serem humilhados. E gostava. Continuamos a ser humilhados mas já nem damos por ela. O que é uma pena. Este ano a nossa representante é Vânia Fernandes. Quem é esta serigaita ao pé de um António Calvário, Carlos Mendes, Simone de Oliveira, as Doce, José Cid, Armando Gama ou Maria Guinot? Que falta de respeito pela memória de Shegundo Galarza e Thilo Krassman.

Aqui, diariamente, recordarei o que de melhor na cultura portuguesa se produziu. Excertos da melhor poesia. Sempre a mesma história de amor. Ele só pensa nela a toda a hora, sonha com ela p'la noite fora, chora por ela se ela não vem. E assim continua de ano para ano. O vento muda e ela não volta, ele sabe que ela mentiu, para sempre fugiu. Anda fugida nas asas do sonho. Acha ela que é bom andar sem Norte, não precisar visto, nem usar passaporte. E ele perdido como o fumo subindo no aaaaaaa-aaaaaa-aaaaaaar, como balão que sobe sobe, como o papagaio que voa, dai li, dai li, dai li, dai li dou, anda pelas ruas indiferente, caminhando sem mais notar a gente que por ele vê passaaaaaaa-aaaaaa-aaaaaaar. Anda assim ele no meio de tanta gente recordando esse amor sem grade, fronteira, barreira, muro em Berlim. Um sonho, um livro, uma aventura sem igual. Recorda aquelas noites que duravam até às seis e meia de loucura, em que ela vinha em flor e ele a desfolhava. E a desfolhada era com amor amor amor amor amor presente. No meio da loucura ela implorava «Não sejas mau p'ra mim, oh oh...». E ele dizia: «Bem bom!». Ái, que foram vidas tão cheias, foram oceanos de amor!

Desde António Calvário simulando uma reza às escandalosas Doce, passando por Pedro Osório de cravo ao peito, o Festival da Canção era um excelente retrato do país. Mas chegou uma altura em que a coisa descarrilou. Tornou-se, por assim dizer, demasiado estrangeirado - apesar de, no início dos 80, o «Addio, adieu, aufwiedersehen, goodbye, amore, amour, meine liebe, love of my life» de José Cid e o "Play Back" de Paião ter começado esse processo. Por isso irei apenas até 1989. E mesmo este é um ano de excepção, com os Da Vici a devolverem alguma dignidade coreográfica, poética e musical ao acontecimento. Antes disso, páro em em 1986, com o memorável "Não Sejas Mau para Mim", da inesquecível Dora. De 1964 ao final dos anos 80, aqui ficam, diariamente, até dia 20, os ilustres representantes do nacional-cançonetismo. Ái que saudades!

Excepcionalmente, começo esta autêntica cronologia da história musical portuguesa por um derrotado entre os derrotados. Um vulto da nossa cultura que em 1967 foi injustamente excluído em favor de Eduardo Nascimento. Já então o politicamente correcto fazia as suas vítimas. Senhoras e senhores telespectadores, a canção número 3: "Sou tão Feliz»:

Já formiga tem catarro

Daniel Oliveira, 28.04.08

A entrevista de António Cunha Vaz ao "Público" é surreal. O homem responde como se tivesse liderado o PSD. Tirando os erros, claro. Esses são de outros. A vaidade do senhor explica o que foram os últimos meses no PSD. Um partido que julga que pode ser liderado por "publicitários" sem qualquer experiência política acaba no estado em que está o PSD. Que sirva de lição.

Na entrevista, Cunha Vaz diz que talvez o Estado não o contrate por «ser pequenino». É uma explicação. Se Cunha Vaz não estiver a falar da sua estatura física, irrelevante para o caso. Basta ler a entrevista. Quer na estratégia, quer na táctica, uma miséria confrangedora. Faz Menezes parecer um gigante político. Mas vale a pena ler para perceber como alguns partidos são dirigidos em Portugal. A política e as convicções são irrelevantes, o que não é novidade. O mais estranho é serem substituidas pelo tacticismo de aprendizes.

E para perceber como há gente que não se enxerga, vale a pena ler o fim da entrevista:
Vai tornar-se político?Agora não posso abandonar a agência. Mas estou farto dos comentadores, de alguns jornalistas e de alguns clientes.
Na política, teria de os aturar todos.Não, porque não queria ser o número 2 ou o número 3. Só vou para a política, se for para mandar.

Esclarecedor

Daniel Oliveira, 28.04.08
Público: Mas para que serve estar perto do poder? Para atrair clientes, para ter influência?
António Cunha Vaz: Eu nunca disse a um cliente meu: "Olhe que sou muito amigo do dr. Menezes, e, quando ele estiver no governo, faço isto e aquilo."
Público: Não disse, mas eles podem pensar isso.
António Cunha Vaz: Já agora! Não os posso impedir de pensar, ou posso?
Público: O interesse de trabalhar com políticos tem a ver com isso.
António Cunha Vaz: Também tem a ver com isso. O importante é a percepção que se cria nas pessoas. O mercado vai atrás de quem? Das empresas ganhadoras. Mas é claro que dá alguma sensação poder dizer: "Ó Sócrates, recebes-me aí o Manuel Joaquim amanhã?"
Público: Mas para além desse prazer pessoal, isso pode trazer benefícios aos seus clientes.
António Cunha Vaz: Eles não me pagam mais por isso. Mas abre portas.

Assim não há condições

Daniel Oliveira, 28.04.08
António Cunha Vaz: No livro, ele diz que você se ofereceu para trabalhar com ele, garantindo que conseguia dirigir a opinião pública em qualquer direcção e que "tudo se compra". Isso é completamente mentira. O dr. Carrilho acha que eu fiz uma OPA sobre os comentadores. Vou explicar-lhe uma coisa: eu chego ao pé da direcção do Correio da Manhã, ou do Diário Económico, e peço: "Importas-te de pôr aí o Patinha Antão a escrever uma peça, ou o Ângelo Correia?" A seguir, quem trabalha com o PS faz o mesmo: "Põe o Jorge Coelho, o António Vitorino a escrever um artigo." O que é que estes colunistas fazem? A partir do momento em que têm o seu palco, começam a andar à volta, a andar à volta, e esquecem-se de defender a estratégia do dr. Menezes, ou seja de quem for. Quando se apanham com aquele glamour... Ficam em roda-livre.
Público: Sim? Porque fazem eles isso?
António Cunha Vaz: Porque há um deslumbramento.
Público: Mas eles são livres de escrever o que quiserem.
António Cunha Vaz: Sim. Mas eu não posso trabalhar, quando não há seriedade na praça.

O candidato-cabide

Daniel Oliveira, 28.04.08

Como era previsível, Pedro Passos Coelho vai contar com o apoio dos "menezistas" (estranha coisa para se ser) que não perdoam a Santana a sombra que fez ao líder demissionário. E com o apoio daqueles que, não querendo Ferreira Leite, ainda têm alguma noção do país onde vivem e sabem que um regresso de Santana será motivo de chacota nacional. É provável que Passos Coelho precise do apoio de gente como Marco António para ganhar parte do partido e colocar-se em boa posição para, a prazo, vir a substituir ou Santana ou Ferreira Leite depois da derrota do PSD nas próximas eleições. Mas estar associado a figuras como estas terá sempre o seu preço.

Como personagem política, Pedro Passos Coelho tem muito pouco interesse. A sua notoriedade fez-se na liderança de uma "jota", a sua imagem está colada à de um homem de aparelho sem currículo, o seu discurso é redondo e baço. Mas parece ter a inteligência de perceber que ou o PSD encontra um espaço ideológico claro ou está condenado a viver de crise em crise. Ele escolheu uma espécie de liberalismo mitigado. Não sei se resulta, mas é um caminho. Ter um passado político pouco marcante, ser facilmente moldável, ser relativamente jovem e parecer ter poucos anti-corpos fora e dentro do PSD joga a seu favor num partido que parece perdido e ansioso por começar do zero. A sua imagem não está assim tão distante da de Sócrates, quando se candidatou à liderança do PS. É um cabide onde se pode pendurar uma nova roupagem.

E uma coisa parece provável: dividindo votos, vai dar a vitória a Ferreira Leite e afastar Santana do regresso à liderança. Talvez o PSD ainda não o perceba, mas ficará a dever esta a Passos Coelho.