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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O que vocês querem sei eu, pá

Pedro Sales, 05.01.10
O pessoal que passa a vida a dizer que a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo é um assunto irrelevante que afasta o país do combate à crise, apresenta hoje as assinaturas para tentar forçar um referendo e uma campanha de 15 dias sobre o tema que dizem ser insignificante.

Hoje somos muitos, esta semana seremos sete

Arrastão, 04.01.10



Até ao final desta semana, o Arrastão terá nova cara e algumas outras novidades. Algumas dificuldades com a secreta arte do html impedem-nos de começar já hoje. Mas sabe-se como é. O pessoal começa a defender o investimento público e o papel do Estado na economia e acaba por lhe ganhar os tiques, deixando para amanhã o que pode estar pronto hoje.

As novidades ficam para depois. Agora damos as boas vindas aos novos donos do Arrastão.

Esta semana o blogue passará a ter quatro novos postadores. Para além do Daniel Oliveira, Pedro Sales e Pedro Vieira, são estes os novos donos do Arrastão:

Bruno Sena Martins. Apesar de jovem, é um decano da blogosfera. Antrópologo e investigador, vive em Coimbra e é provável que já o tenham lido (e gostado) no Cinco Dias (onde o fomos buscar) e no Avatares de um Desejo.

João Rodrigues. Também vive em Coimbra (e em Lisboa e em Manchester). É economista e desfaz num sopro os liberais de sebenta. Escreve no Ladrões de Bicicletas e no jornal "i". Começa já a escrever mas, por razões doutorais, promete ser mais assíduo a partir de Março.

Rui Bebiano. Passa a ser o blogger mais velho do Arrastão. Também é um doutor de Coimbra, por amor de Deus!, e podem lê-lo no Terceira Noite, um blogue tão fino como a sua escrita. Colabora com a revista "Ler".

Sérgio Lavos. É o tal gajo de Alhandra. No Auto-Retrato escreve maravilhosamente sobre livros, cinema e coisas mais interessantes do que política. Esperemos que também o faça aqui. Porque a ideia é que o Arrastão seja um blogue mais variado nos temas. É livreiro, como o Vieira.

Voltando às 60 horas por semana

Pedro Sales, 03.01.10

O ordenado oscila entre o salário mínimo e os 605 euros. Os horários são flexíveis, um eufemismo para designar os “períodos especiais” em que vigoram as jornadas de trabalho de 14 horas e as semanas com mais de 50, mas onde raramente alguém vê as folgas que, supostamente, deveriam compensar esse esforço extra. Os horários são fixos, mas esse é outro eufemismo. Na realidade, podem ser alterados de véspera, tornando a vida dos milhares de funcionários das grandes superfícies um inferno maior do que o dos seus clientes na véspera de Natal.

Explorados, mal pagos e tratados como potenciais criminosos no seu próprio local de trabalho, onde até os seus cacifos privados são abertos e revistados, é este o retrato das condições laborais que o Público foi encontrar nas grandes superfícies.
Percebe-se a dificuldade em fazer greve em condições onde prevalece a precariedade laboral, mas é sempre diferente quando é alguém que o explica na primeira pessoa: "Se houver greve, eu não faço. Já me avisaram que as chefias vão ter de comunicar à gerência quem foram as trabalhadoras que faltaram. E depois, quando for para renovar o contrato..."
Talvez assim, quem saiba, o Tomás Vasques deixe de mandar bocas como as que mandou a propósito da forma como foi desconvocada a greve contra a tentativa – gorada – de imposição de semanas de 60 horas nas grandes superfícies: ”Os sindicatos só se dão bem com professores e funcionários públicos. Quando toca ao sector privado roem sempre a corda”.
Mas acaso estava o Tomás Vasques à espera que o Estado usasse os mesmos expedientes referidos na peça do Pùblico ou submetesse os seus funcionários à mesma chantagem do ou-aceitas-as-condições-que-te-oferecemos-ou-estão-vais-te-embora-que-lá-fora-estão-uns-milhares-a-contar-com-o teu posto de trabalho?

Este post do Tomás Vasques é apenas um exemplo, entre tantos, da forma como se tornou banal ler e ouvir os apoiantes mais empenhados na defesa do governo Sócrates a destratar o movimento sindical, as suas lutas e reivindicações. Os exemplos abundam. Aqui há uns meses foi o João Galamba, num programa na RTP N, a dizer que não se pode negociar nada com a CGTP porque não há forma de entendimento com a maior central sindical portuguesa. A ministra do trabalho, questionada no Parlamento por Louçã sobre a semana de 60 horas nas grandes superfícies, diz que essa decisão não tem nada a ver com o Governo e que, se tivesse ido adiante, não seria ilegal. A permanentemente satisfeita bancada do PS aplaudiu a “resposta”.

Claro que não é ilegal. É exactamente esse o problema. Existir uma norma, num Código do Trabalho aprovado por um governo que se diz socialista, que entende que existem pessoas que devem viver para trabalhar. De resto, num país onde a ineficiência dos modelos de gestão e a baixíssima mais valia introduzida nos mecanismos de produção tem levado os patrões a manter  as suas taxas de lucro à custa de salários miseráveis, não deixa de ser espantoso constatar a crescente violência contra os direitos dos trabalhadores que marca hoje quase toda a opinião publicada na imprensa.

A desvalorização do valor do trabalho, e da dureza das condições em que o mesmo tem lugar em tantos lugares e pontos do país, arrisca-se mesmo a tornar-se numa das mais duradouras marcas desta esquerda que se diz moderna e democrática. Uma esquerda que parece tão deslumbrada com uma serôdia visão da tecnologia e progresso que, pelo caminho, se parece ter esquecido das condições de vida de milhares e milhares de portugueses.

Coppi. Fausto

Pedro Sales, 03.01.10



Fez ontem cinquenta anos que morreu Fausto Coppi. Elegante em cima da bicicleta como poucos, ou melhor, com a elegância permitida a quem subia os maiores cumes do ciclismo em más estradas e com bicicletas que pesavam quase o dobro das actuais, Coppi ganhou  tudo o que havia para ganhar da única forma que conhecia: à bruta. Menos de 15 ou 20 minutos de atraso era um bom dia para a competição.


Coppi não foi apenas Coppi. Foi também a sua rivalidade com Bartali, uma das mais intensas da história do desporto mundial, quando o ciclismo era o verdadeiro desporto do povo. Em quase quinze anos de competição, esta fotografia é o único momento de visível solidariedade entre estes dois representantes da profunda divisão entre uma Itália conservadora (Bartali) e moderna (Coppi). Mesmo assim, foi sol de pouca dura. Confrontados pela imprensa, os dois homens que já tinham sido suspensos pela federação do seu país por correrem um contra o outro nos mundiais e não para trazerem a camisola arco-íris para Itália, nunca se entenderam sobre quem é que passou a garrafa a quem.


No dia da sua morte, o editor da Gazzetta delo Sport disse que rezava a Deus para que a Itália voltasse a conhecer outro ciclista como Coppi. Ainda estão à espera.


Adenda: ainda sobre Coppi e Gino Bartali, vale a pena recordar a história de que fala o Pedro Adão e Silva neste post. Depois do assassinato do secretário geral do PCI, Palmiro Togliatti, e com a Itália à beira da guerra civil, conta-se que foi a vitória de Bartali no Tour de 48 que ajudou a eliminar as tensões políticas e a reunir os italianos. Os detalhes dessa história podem ser encontrados aqui.

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