Sexta-feira, 7 de Maio de 2010
por Daniel Oliveira

Steve Bell, Guardian

A mais velha democracia do mundo foi a votos. Como muitos esperavam, os conservadores venceram. No entanto, apesar da crise e da impopularidade de Gordon Brown, foi uma vitória de Pirro. Pela primeira vez desde meados 1974 não há uma maioria no parlamento. Pode dizer-se que Brown perdeu, mas Cameron não convenceu. E quando escrevo ainda não se sabe quem realmente governará o país.

Os liberais democratas ficarem aquém do que se esperava. Mais uma vez, o sistema eleitoral tramou-os (com menos quatrou ou cinco por cento do que tem o Labour têm cerca de um quarto dos deputados) . Mas não foi apenas isso: na hora da verdade, e como o os círculos uninominais forçam a bipolarização, o eleitorado trabalhista que não fugiu para os conservadores preferiu continuar no Labor na esperança de travar Cameron. Ainda assim, é nas mãos dos liberais democratas que está a solução para o novo governo.

O sistema está de tal forma preparado para maiorias absolutas que o país anda às aranhas para saber quem governará. Constitucionalmente, sem que nenhum partido tenha maioria absoluta, Gordon Brown tem a prerrogativa de procurar uma solução de governo. Mas os conservadores não aceitam ser o partido mais votado e não governar. E como o Labour só poderia governar aliado aos liberais democratas. Seria, em tempo de crise, uma coligação de derrotados.

A outra possibilidade em cima da mesa é uma aliança de governo (ou apenas parlamentar) entre Cameron e Cregg. Mas a moeda de troca que os liberais democratas teriam de exigir difilmente será aceite pelos conservadores: um sistema eleitoral proporcional e realmente democrático.

Vale a pena falar dos pequenos partidos, até porque no momento em que escrevo ainda não é certo se não poderão vir a ter algum papel nesta embrulhada. Três boas notícias: a eleição, pela primeira vez, de uma deputada dos verdes; a derrota do líder dos unionistas da Irlanda do Norte (um importante aliado dos conservadores) para o candidato de um partido inter-religioso (próximo dos liberais democratas) e a confirmação da não eleição do líder do BNP, de extrema-direita.

Enquanto se esperava pelos resultados, uma notícia dominou os noticiários: o facto de milhares de pessoas não terem consigo votar. O conservadorismo dos ingleses leva-os a manter as eleições num dia de semana. Como a afluência às mesas de voto foi superior ao habitual, muita gente acabou por não conseguir votar antes das 22 horas. Jornalistas e políticos exigiram responsabilidades. Se recordarmos as eleições americanas que deram a vitória a George Bush e este episódio, que causou indignação geral entre eleitores, jornalistas e políticos, podemos acalmar a nossa habitual autoflagelação. Com apenas 36 anos de democracia continuamos a ter eleições sem casos ou irregularidades. Menos mau.

A noite passada foi das mais longas que a vida política britânica conheceu. Aquilo que é banal na maioria dos países europeus - vitórias sem maiorias absolutas e governos de coligação - é incrivelmente estranho para os ingleses. Ainda mais em tempo de crise. Talvez seja altura de perceberem que o seu sistema eleitoral já não corresponde ao país onde vigora.

Texto no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Quinta-feira, 6 de Maio de 2010
por Bruno Sena Martins
Boaventura Sousa Santos: O Fascismo Financeiro, Publicado na Visão em 6 Maio de 2010.
"Há doze anos publiquei, a convite do Dr. Mário Soares, um pequeno texto (Reinventar a Democracia) que, pela sua extrema actualidade, não resisto à tentação de evocar aqui. Nele considero eu que um dos sinais da crise da democracia é a emergência do fascismo social. Não se trata do regresso ao fascismo do século passado. Não se trata de um regime político mas antes de um regime social. Em vez de sacrificar a democracia às exigências do capitalismo, promove uma versão empobrecida de democracia que torna desnecessário e mesmo inconveniente o sacrifício. Trata-se, pois, de um fascismo pluralista e, por isso, de uma forma de fascismo que nunca existiu. Identificava então cinco formas de sociabilidade fascista, uma das quais era o fascismo financeiro. E sobre este dizia o seguinte."



O fascismo financeiro é talvez o mais virulento. Comanda os mercados financeiros de valores e de moedas, a especulação financeira global, um conjunto hoje designado por economia de casino. Esta forma de fascismo social é a mais pluralista na medida em que os movimentos financeiros são o produto de decisões de investidores individuais ou institucionais espalhados por todo o mundo e, aliás, sem nada em comum senão o desejo de rentabilizar os seus valores. Por ser o fascismo mais pluralista é também o mais agressivo porque o seu espaço-tempo é o mais refractário a qualquer intervenção democrática. Significativa, a este respeito, é a resposta do corrector da bolsa de valores quando lhe perguntavam o que era para ele o longo prazo: “longo prazo para mim são os próximos dez minutos”. Este espaço-tempo virtualmente instantâneo e global, combinado com a lógica de lucro especulativa que o sustenta, confere um imenso poder discricionário ao capital financeiro, praticamente incontrolável apesar de suficientemente poderoso para abalar, em segundos, a economia real ou a estabilidade política de qualquer país.

A virulência do fascismo financeiro reside em que ele, sendo de todos o mais internacional, está a servir de modelo a instituições de regulação global crescentemente importantes apesar de pouco conhecidas do público. Entre elas, as empresas de rating, as empresas internacionalmente acreditadas para avaliar a situação financeira dos Estados e os consequentes riscos e oportunidades que eles oferecem aos investidores internacionais. As notas atribuídas – que vão de AAA a D – são determinantes para as condições em que um país ou uma empresa de um país pode aceder ao crédito internacional. Quanto mais alta a nota, melhores as condições. Estas empresas têm um poder extraordinário. Segundo o colunista do New York Times, Thomas Friedman, «o mundo do pós-guerra fria tem duas superpotências, os EUA e a agência Moody’s». Moody’s é – uma dessas agências de rating, ao lado da Standard and Poor’sFitch Investors Services. Friedman justifica a sua afirmação acrescentando que «se é verdade que os EUA podem aniquilar um inimigo utilizando o seu arsenal militar, a agência de qualificação financeira Moody’s tem poder para estrangular financeiramente um país, atribuindo-lhe uma má nota».

Num momento em que os devedores públicos e privados entram numa batalha mundial para atrair capitais, uma má nota pode significar o colapso financeiro do país. Os critérios adoptados pelas empresas de rating são em grande medida arbitrários, reforçam as desigualdades no sistema mundial e dão origem a efeitos perversos: o simples rumor de uma próxima desqualificação pode provocar enorme convulsão no mercado de valores de um país. O poder discricionário destas empresas é tanto maior quanto lhes assiste a prerrogativa de atribuírem qualificações não solicitadas pelos países ou devedores visados. A virulência do fascismo financeiro reside no seu potencial de destruição, na sua capacidade para lançar no abismo da exclusão países pobres inteiros.

Escrevia isto a pensar nos países do chamado Terceiro Mundo. Não podia imaginar que o fosse recuperar a pensar em países da União Europeia.

por Bruno Sena Martins
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por Bruno Sena Martins
[caption id="" align="alignnone" width="618" caption="Dona Dolores e Ronaldo: inseparáveis"][/caption]

Não haverá muitos filhos, como o Ronaldo, que jamais se envergonham de levar a mãe para todo o lado.

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira
"Ricardo Rodrigues eleito para Conselho Superior de Segurança Interna"

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
...desde que o país viu um deputado cometer um crime e ele ainda não se demitiu.
Ler artigo sobre o assunto no Expresso Online.

por Daniel Oliveira
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por Pedro Vieira

© rabiscos vieira


por Pedro Vieira
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Quarta-feira, 5 de Maio de 2010
por Pedro Sales
Para justificar o injustificável, Ricardo Rodrigues afirmou que, para preservar o seu bom nome, exerceu acção directa e, irreflectidamente, tomou posse de dois equipamentos de gravação digital. Além da inacreditável história que dá azo a esta declaração, o que é que não faz sentido aqui? Usar na mesma frase “acção directa” e “irreflectidamente”, sobretudo quando o irreflectidamente qualifica a acção directa. Confuso? Vejamos o artigo 336º do Código Civil:

“1. É lícito o recurso à força com o fim de realizar ou assegurar o próprio direito, quando a acção directa for indispensável, pela impossibilidade de recorrer em tempo útil aos meios coercivos normais, para evitar a inutilização prática desse direito, contanto que o agente não exceda o que for necessário para evitar o prejuízo.
2. A acção directa pode consistir na apropriação, destruição ou deterioração de uma coisa, na eliminação da resistência irregularmente oposta ao exercício do direito, ou noutro acto análogo.
3. A acção directa não é lícita, quando sacrifique interesses superiores aos que o agente visa realizar ou assegurar.”

Ora, se quem exerce acção directa tem que ponderar se aquela acção é ou não necessária e se não tem qualquer outra forma de se defender, digamos que tamanha ponderação e calculismo ainda parece requerer alguma reflexão...mesmo para este prolixo deputado do PS. </span>

Diz que Ricardo Rodrigues é jurista.

por Pedro Sales
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por Bruno Sena Martins
A propósito do pequeno post que escrevi sobre o clássico do passado Domingo, o Zé Neves critica a direcção que dou às bolas de golfe metafóricas que intui encherem-me os bolsos  (porquê criticar o tratamento jornalístico do jogo em vez de falar do jogo ou em vez de recusar - veementemente, diz ele - a violência que o envolveu?). Depois, o Zé Neves alerta para o perigo no uso de expressões como "jornalistas de Lisboa", expressões que, no seu entender, sulcam um regionalismo perigoso e uma relação norte-sul para cujas conotações racistas e  essencialistas eu deveria estar mais alerta. De caminho, critica o que entende ser o fanatismo dos intelectuais que, procurando imitar o adepto comum, exageram redundando em caricaturas mais fanáticas que os originais. (Penso que este resumo não desmerece o post, mas nada como tirarem a prova).

Caro Zé Neves, poderia, claro, falar do jogo, como poderia ter feito uma declaração abjurando os actos de violência perpetrados por adeptos do Porto (no entanto, creio que a necessidade de tal gesto tomaria por prévia uma identidade comum mais densa do que aquela que é definida pelo facto de eu desejar, veementemente, o sucesso desportivo do Porto. Ou seja, não sinto particular necessidade de me demarcar das alarvidades dos adeptos violentos do Porto conquanto não tenho nada em comum com os adeptos violentos do Porto além de torcer pelo clube que lhes serve de pretexto. É claro que posso reprovar a violência no desporto e no futebol português cada vez que ela acontece, mas sinto-me tão obrigado a isso como o Zé Neves quando acaso as claques de uma ou outra equipa coloca as lições de guerrilha urbana em dia - já aconteceu esta época com todas as claques dos grandes e não me recordo que o Zé Neves tenha reprovado veementemente tais factos.



Não foi um jogo normal, certo, mas infelizmente este tipo de excepção é recorrente  - não só no Porto, sublinhe-se. Mas, dizia, podia ter falado do jogo e da violência, sim senhor, e nem escondo que apesar do ténue vínculo identitário, acabo por sentir  uma certa vergonha com os comportamentos de alguns adeptos do Porto.  Mas aconteceu que depois de algumas horas a consumir televisão e rádio já estava um tanto cansado de ouvir falar do jogo e da violência - nos termos que me iam sendo oferecidos pela comunicação social. No fundo, precisei de espairecer. A  comunicação social que critico ia falando do jogo ora com  a azia que resultava da frustração pessoal de cada jornalista digerindo o seu melão em público, ora com a elaboração discursiva afeita a reduzir o jogo aos desmandos anti-Benfica de Olegário Benquerança.  Parecendo que não, ao fim de um tempo eu tinha perdido a motivação para falar do jogo. A comunicação social que critiquei também falou da violência, mais, ao longo da semana não falou de outra coisa e até era capaz de jurar que percebi um medo cuja magnitude tive dificuldade em distinguir de entusiasmo editorial.

Já agora, se queremos condenar veementemente a violência seria importante sermos capazes de condenar uma comunicação social que rentabiliza e promove a rivalidade entre os clubes sem olhar aos ódios que incendeia ou às batalhas que prefigura (veja-se a "linha editorial" de programas como "Dia Seguinte", "Trio de Ataque", "Prolongamento", basicamente um misto de programa sobre arbitragem e guerrilha entre pessoas demasiado reputadas para andarem ao tabefe - estou certo que o Gobern e o Bruno Prata vão acabar por se matar mas estimo que seja por uma questão estritamente pessoal). Um exemplo: não sei se o Zé Neves já se apercebeu do facciosismo dos comentadores sempre que um jogo do Porto passa na TVI ou na SIC (honra feita à isenção dos jornalistas de Lisboa da RTP), aconselho, experimentem um Jorge Baptista ou um Valdemar Duarte.  Não julgará o Zé Neves que esse tratamento acintoso da parte de jornalistas com audiências nacionais  deveria ser veementemente condenado enquanto parte tácita do fanatismo que envolve o futebol? Não achará o Zé Neves que seria importante existir um jornalismo menos investido em potenciar ao absurdo os árbitros os casos do jogo? (bem sei que os árbitros se esforçam).

Portanto, mais do que querer falar do jogo ou da violência apeteceu-me falar do modo como outros o estavam a fazer: mais do que metacomentário, uma reacção (nada de intelectualismo, só fanstismo). Mais acuso: é minha convicção que a linha informativa seguida por muitos órgãos de comunicação durante a semana foi de molde a alargar possibilidades informativas em torno do jogo - a violência surge nessa geografia mais ampla.

Quanto à expressão "jornalistas de Lisboa", será necessariamente redutora, concedo, mas o Zé Neves fará o favor de a distinguir de qualquer regionalismo com conotações raciais - a este respeito, não posso deixar de indagar até que ponto o resultado do jogo terá sido a testemunha próxima de uma deriva retórica na pena do Zé Neves. E nem digo isso por ser um africano de Coimbra - da margem norte, atenção -, mas porque, de facto, há uma correlação entre a concentração dos meios de comunicação social em Lisboa e o viés reconhecível em muitos dos jornalistas de desporto com audiência nacional. That simple.  Falar do jogo e da violência é também falar daqueles que, dentro da indústria mediática do futebol,  têm o monopólio da violência legítima.

por Bruno Sena Martins
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por Pedro Sales


Ricardo Rodrigues, questionado pelos jornalistas da Sábado sobre a sua ligação a um gang internacional,  de que o Arrastão aqui deu conta, interrompeu a entrevista, que decorria na biblioteca da Assembleia da República, e roubou os dois gravadores digitais aos jornalistas. Agora, que a revista colocou a história e o vídeo no seu site, diz que foi vítima de uma "violência psicológica insuportável" "construída sobre premissas falsas".

Vale a pena lembrar, então, o que diz o acórdão do Tribunal da Relação para ver o original entendimento que o deputado Ricardo Rodrigues faz de uma premissa falsa:

Nesta conformidade, necessário será concluir, como na decisão recorrida, que a imputação feita ao assistente pelo artigo incriminado de se encontrar “envolvido com um gang internacional” é obviamente insultuosa e indelicada, mas não deixa de estar justificada em factos, que a prova carreada nos autos permite dar, no essencial, como demonstrados.

actualização:
nada justifica o comportamento de Ricardo Rodrigues, que teria muitas outras formas de expressar a sua indignação, mas vale a pena acrescentar que a pergunta sobre a pedofilia, ainda por cima da forma encoberta como é efectuada, é inqualificável e não existe critério jornalístico algum que a possa justificar.

por Pedro Sales
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
No próximo dia 10 os ex-ministros com responsabilidades no estado em que estamos vão a Belém, na primeira acção de campanha eleitoral do Presidente da República, explicar qual a sua receita para sairmos da crise.

por Daniel Oliveira
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por Bruno Sena Martins
O escritor e comentador Miguel Sousa Tavares (MST) disse há cerca de três anos: "Quando entra em cena Armando Vara, fico logo desconfiado."

Com a vantagem do tempo e com algum conhecimento dos rudimentos do caso Face Oculta, o comum cidadão, quando confrontado com a citação acima, ficará tentado a invejar o apurado faro de Miguel Sousa Tavares. A citação em causa, no entanto, longe de constituir um memorando, um reconhecimento de que Sousa Tavares cedo identificou o mordomo de que hoje se fala, surge numa notícia sobre o julgamento em que Armando Vara reclama a Sousa Tavares uma indemnização de 250 mil euros por danos não patrimoniais. Deliciosa ironia, mas vou-me calar antes que Armando Vara descortine neste textículo mais uma oportunidade de negócio.

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira


O governo tem negociado tudo com a sua direita. Pela primeira vez, no caso do TGV, só pode contar com os partidos à sua esquerda para travar o chumbo proposto pelo CDS. E neste momento Bloco de Esquerda e PCP deveriam fazer exigências para viabilizar as intenções de José Sócrates. Não para se porem em bicos de pés, mas para garantirem que a aprovação deste investimento não é um cheque em branco que em vez de ajudar a economia terá o efeito oposto. Aqui ficam quatro exigências que me parecem fazer sentido:

1 - Que o investimento em Alta Velocidade não implique um ainda maior desinvestimento na restante rede ferroviárias nacional. Ou seja, que haja um reforço no investimento nas linhas em funcionamento e nas muitas que foram desactivadas desde Cavaco Silva até hoje. O investimento na rede ferroviária garante o desenvolvimento do interior e reduz a nossa dependência energética. É um investimento que nos fará poupar dinheiro.

2 - Que a exploração das linhas ferroviárias tradicionais continuará a ser pública e que o "filet mignon" não será, como de costume, entregue aos privados enquanto o Estado trata do que é deficitário.

3 - Que se tentará garantir que o investimento no TGV não resultará num aumento do desequilíbrio da nossa balança comercial. Se toda a tecnologia for importada a construção do TGV não terá qualquer efeito a curto prazo na nossa economia. Está chegada a hora de deixarmos de ser os anjinhos da Europa.

4 - Que apenas será feita a linha até Madrid, suspendendo sem prazo o resto da rede de alta velocidade. O objectivo do TGV é ligar-nos à rede europeia e não criar uma rede nacional de alta velocidade, que é desnecessária desnecessária. O que seria gasto na linha para norte deve ser investido na finalização da modernização da linha Lisboa/Porto para que o pendular seja aproveitado em todas as suas potencialidades. É um absurdo gastar uma fortuna para ganhar uns minutos de viagem.

O Bloco de Esquerda e o PCP têm a oportunidade de determinar políticas no que é realmente relevante para o País. Era bom que o fizessem.

Publicado no Expresso Online.

por Daniel Oliveira
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Terça-feira, 4 de Maio de 2010
por Daniel Oliveira


Sobre o FMI, do José Mário Branco, que alguns comentadores criticaram por usar aqui (coisa que já tinha acontecido quando postei os mesmos vídeos em 2008), o José Mário Branco mandou-me o seguinte mail, com autorização de publicação:

"Caro Daniel,
No meio das correrias da época, alguém me chamou a atenção para o teu post e para a discussão que ele provocou.
Permite que eu reaja com quatro pontos, que podes publicar se o entenderes:

(1) A "autorização". Era o que faltava. Sou filosoficamente contra o próprio conceito de direito de autor em qualquer arte. Aceito receber direitos de autor porque é a única forma possível, embora desviada, de a comunidade me permitir usar o meu tempo a inventar mais canções. Mas, salvo em casos de utilizações comerciais, ou para fins lucrativos privados, nunca me servi dos direitos de autor para autorizar ou deixar de autorizar. As minhas canções saem de casa como os filhos, e vão à sua vida. Usem-nas como quiserem, as acções ficam para quem as pratica, a comunidade que assuma a crítica. (E sou absolutamente contra o direito de autor póstumo, salvo pontual e limitadamente no caso de alguém ficar pendurado com a morte do artista). Quem sou eu, mais do que Camões, Mozart ou Rimbaud? Quem pede autorização a estes?

(2) O texto. O "FMI" é um texto não-textual. O Allen Ginsberg, falecido em 1997, uma vez pediu para o traduzir para inglês US, outros pediram para traduzir em castelhano para a Argentina, e eu disse-lhes "não façam isso, não é um texto, é uma catarse cénica". Mas, uma vez que não posso nem quero evitar que seja transcrito, já agora posso ajudar a evitar erros de transcrição. Mando-te o texto em anexo, revisto por mim.

(3) O som. Parece-me que a codificação utilizada acelerou ligeiramente o som. Será? Soa-me tudo ligeiramente a ratinhos de Gata Borralheira (ou a formiguinhas do Zeca).

(4) A "actualidade". Tens razão, há algo de premonitório na apresentação inicial. Desde 1982 (saída do disco), sempre alguém das sucessivas gerações foi pegando nisto para o seu tempo e o seu espaço. E houve quem decorasse tudo (eu nunca decorei) e o apresentasse, à sua maneira, entre amigos ou nos sítios da noite jovem, em Coimbra, Évora, etc.

Abraço, JMB."

Com o agradecimento pela mensagem, fica no link em baixo o texto revisto por José Mário Branco (que depois da publicação deste post ainda me enviou mais algumas alterações). Será sempre úti, já que esta passa a ser a única transcrição que corresponde exactamente ao som do disco, feita de propósito pelo autor. É aproveitar que este trabalhinho não nos chega às mãos todos os dias.



FMI - José Mário Branco

Vou, vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos...
É o internacionalismo monetário!

FMI

Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attaché-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico harakiri
FMI Panegírico pró lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si, palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, celulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Um encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretem-te filho, entretem-te,
não desfolhes em vão este malmequer que
bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalte-quer-messe gigantesca,
vem-te bem, bem te vim,
vim na cozinha, vim na casa-de-banho,
vim-me no Politeama, vim-me no Águia D’ouro, vim-me em toda a parte,
vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão,
olha os pombinhos pneumáticos como te arrulham por esses cartazes fora,
olha a música no coração da Indira Gandhi,
olha o Moshe Dayan que te traz debaixo d'olho,
o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho?
nós somos um povo de respeitinho muito lindo,
saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho?

Consolida filho, consolida,
enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde.

Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo,
o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos,
com'ò Astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é?
Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar,
para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta desestabilização filha-da-puta, não é filho?
Pois claro!

E estás aí a olhar para mim, estás aí a ver-me dar 33 voltinhas por minuto,
pagaste o teu bilhete,
pagaste o teu imposto de transacção
e estás a pensar lá com os teus zodíacos: "Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é?" né filho?

Pois não é verdade que tu és um herói desde que nasceste?
A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote!
Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho?
Onde está o teu Extremo Oriente, filho?
Aniki-bé-bé, aniki-bó-bó, tu és Sepúlveda, tu és Adamastor,
pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida!

Entretem-te filho, entretem-te!
Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho,
trabalhinho, porreirinho da Silva,
e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de sanzala em ritmo de pop-chula, não é filho?

A-one, a-two, a-one-two-three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Camòniú sanòvabiche! Camóne beibi a ver se me comes!
Camóne Luís Vaz, amanda-lhe co'os decassílabos que eles já vão saber o que é meterem-se com uma nação de poetas!
E zás! enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares,
zás! enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal,
zás! enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro,
zás! enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros,
zás! enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer
e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen,
ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu,
um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho?
Pois, irreversível, pois claro, irreversívelzinho,
pluralismo a dar com um pau,
nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho?
Olha que porra, deixa lá correr o marfil, homem, andas numa alta, pá,
é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é?

Preocupações, crises políticas pá?
A culpa é dos partidos pá!
Esta merda dos partidos é que divide a malta pá,
pois pá, é só paleio pá, o pessoal não quer é trabalhar pá!
Razão tem o Jaime Neves pá!
(Olha deixaste cair as chaves do carro!)
Pois pá!
(Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?)
É pá, deixa-te disso, não desestabilizes pá!
Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata.
Uma porra pá, um autêntico desastre o 25 de Abril,
esta confusão pá,
a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa...
Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carago,
mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah?
Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah?
Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah?
Meia dúzia de líricos, pá,
meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá,
isto é tudo a mesma carneirada!

Oh sr. guarda venha cá - á,
venha ver o que isto é - é,
o barulho que vai aqui - i,
o neto a bater na avó - ó,
deu-lhe um pontapé no cu, né filho?

Tu vais conversando, conversando,
que ao menos agora pode-se falar...
...ou já não se pode?
Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah?
Estás desiludido com as promessas de Abril, né?
As conquistas de Abril!
Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho?
E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, "não é nada comigo, não é nada comigo", né?
E os da frente que se lixem...
E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada,
precisas de paz de consciência,
não andas aqui a brincar, né filho?
Precisas de ter razão,
precisas de atirar as culpas para cima de alguém
e atiras as culpas para os da frente,
para os do 25 de Abril,
para os do 28 de Setembro,
para os do 11 de Março,
para os do 25 de Novembro, para os do...
... que dia é hoje, hã?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho?
"Todos temos culpas no cartório", foi isso que te ensinaram, não é verdade?
Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande. Tenho dito.
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade?
Quer-se dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular!
Somos todos muita bons no fundo, né?
Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?
Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-fascistas,
estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá,
as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole
e o Zé é que se lixa,
cá o pintas é sempre mexilhão...

Eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto,
viva o Porto, viva o Benfica,
Lourosa! Lourosa!
Marrazes! Marrazes!
Fora o arbitro! gatuno! Qual gatuno, qual caralho!

Razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho?
Entretem-te, filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs
que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores,
entretem-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais,
entretem-te, filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho,
entretem-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar,
entretem-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes,
entretém-te, filho,
e vai para a cama descansado
que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante,
enquanto tu adormeces a não pensar em nada,
milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos
com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!
Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar da tua vida com o Jimmy Carter,
o Brejnev está a tratar de ti com o João Paulo II,
tudo corre bem,
a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas.
A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias,
ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Muel
que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou!

Vão-te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, estás tu a ver? Que tens tu a ver com isso, não é filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é?
Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer:
- votas à esquerda moderada nas sindicais,
- votas no centro moderado nas deputais,
- e votas na direita moderada nas presidenciais!
Que mais querem eles? que lhes ofereças a Europa no natal?!
Era o que faltava!

É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes?
toma, para safado, safado e meio, né filho? nem para a frente nem para trás!
e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né?
Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega.

Entretem-te meu anjinho, entretem-te,
que eles são inteligentes,
eles ajudam,
eles emprestam,
eles decidem por ti,
decidem tudo por ti:
- se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia,
- se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão,
descansa que eles tratam disso,
- se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou se hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!

Descansa, não penses em mais nada,
que até neste país de pelintras se acha normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar!

Descontrai baby, come on descontrai,
afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o horoscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa
e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas!

Piramiza filho, piramiza,
antes que os chatos fujam todos para o Egipto,
que assim é que tu te fazes um homenzinho
e até já pagas multa se não fores ao recenseamento.
Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá!

Dá-lhe no Travolta,
dá-lhe no discossáunde,
dá-lhe no pop-chula,
pop-chula pop-chula,
yeah yeah, jo-ta-pi-men-ta-for-e-ver!

Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti!
Não te chega para o bife? - antes no talho do que na farmácia!
Não te chega para a farmácia? - antes na farmácia do que no tribunal!
Não te chega para o tribunal? - antes a multa do que a morte!
Não te chega para o cangalheiro? - antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir,
cabrões de vindouros!

Hã? Sempre a merda do futuro! E eu que me quilhe!
Pois, pá!
Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu hã?
Que é que eu ando aqui a fazer?
Digam lá! e eu? José Mário Branco, 37 anos,
isto é que é uma porra!
anda aqui um gajo cheio de boas intenções,
a pregar aos peixinhos,
a arriscar o pêlo,
e depois?
É só porrada e mal-viver, é?
"O menino é mal criado", "o menino é pequeno-burguês", "o menino pertence a uma classe sem futuro histórico"...

Eu sou parvo ou quê?
Quero ser feliz, porra,
quero ser feliz agora,
que se foda o futuro,
que se foda o progresso,
mais vale só do que mal acompanhado!

Vá: mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos!

Deixem-me em paz, porra,
deixem-me em paz e sossego,
não me emprenhem mais pelos ouvidos, caralho,
não há paciência, não há paciência,
deixem-me em paz caralho,
saiam daqui,
deixem-me sozinho só um minuto,
vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta!

Deixem-me sozinho, filhos da puta,
deixem só um bocadinho,
deixem-me só para sempre,
tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega,
sossego porra, silêncio porra,
deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só,
deixem-me morrer descansado.

Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado,
eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto,
eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa,
deixem-me só porra!
rua!
larguem-me!
desòpila o fígado,
arreda!
t’arrenego Satanás!
filhos da puta!

Eu quero morrer sozinho ouviram?
Eu quero morrer,
eu quero que se foda o FMI,
eu quero lá saber do FMI,
eu quero que o FMI se foda,
eu quero lá saber que o FMI me foda a mim,
eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI,
o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões,
o FMI não existe,
o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma,
o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio,
rua!
desandem daqui para fora!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!
a culpa é vossa!

oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

(...)
Mãe, eu quero ficar sozinho...
Mãe, não quero pensar mais...
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer,
ir-me embora, sem sequer ter de me ir embora.
Mãe, por favor!
Tudo menos a casa em vez de mim,
útero maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e me encontrar fugindo...
de quê mãe?

Diz, são coisas que se me perguntem?

Não pode haver razão para tanto sofrimento.

E se inventássemos o mar de volta?
E se inventássemos partir, para regressar?
Partir, e aí, nessa viajem, ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar,
partida de acordar, abrir os olhos,
numa ânsia colectiva de tudo fecundar,
terra, mar, mãe...

Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto,
lembrar - nota a nota - o canto das sereias,
lembrar o "depois do adeus",
e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal,
lembrar cada lágrima,
cada abraço,
cada morte,
cada traição,
partir aqui,
com a ciência toda do passado,
partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo,
como entrevi um dia,
a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila,
o azul dos operários da Lisnave a desfilar,
gritando ódio apenas ao vazio,
exército de amor e capacetes.

Assim mesmo, na Praça de Londres, o soldado lhes falou:
- Olá camaradas, somos trabalhadores, e eles não conseguiram fazer-nos esquecer; aqui está a minha arma para vos servir.

Assim mesmo,
por trás das colinas onde o verde está à espera,
se levantam antiquíssimos rumores,
as festas e os suores,
os bombos de Lavacolhos,
assim mesmo senti um dia,
a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila,
o bater inexorável dos corações produtores, os tambores.
- De quem é o carvalhal?
- É nosso!

Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso.
Neste cais está arrimado o barco-sonho em que voltei.
Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena.

Diz lá: valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe.
No fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco.
Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos,
o meu canto e a palavra.
O meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram.
A minha arte é estar aqui convosco
e ser-vos alimento e companhia
na viagem para estar aqui
de vez.

Sou português,
pequeno-burguês de origem,
filho de professores primários,
artista de variedades,
compositor popular,
aprendiz de feiticeiro.
Faltam-me dentes.

Sou o Zé Mário Branco,
37 anos, do Porto,
muito mais vivo que morto.

Contai com isto de mim
para cantar e para o resto.

Nota: FMI foi editado originalmente em 1982 no maxi Som 5051106, e reeditado em 1996 em 'Ser Solidário' (EMI-Valentim de Carvalho).

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira


Um dos bons investimentos públicos para animar a economia foi a ideia de renovar o parque escolar. Não se tratando de criar elefantes brancos e tendo uma utilidade evidente para o nosso desenvolvimento a medida permitia pôr centenas de empresas a trabalhar por esse país fora. Criando emprego de forma transversal - do mais ao menos qualificado - e estando espalhado por todo o País, contrariando assim a concentração dos grandes investimentos no litoral, este é o tipo de investimento público com efeitos reprodutivos imediatos. Um excelente exemplo para outras experiências.

Ao visitar novas escolas percebemos que, independentemente de algumas falhas de construção e planeamento, o salto nas condições de trabalho para estudantes e professores é abissal. É dinheiro bem empregue que ajuda a vencer a crise melhorando consistentemente a qualidade de vida dos cidadãos. Mas se a recuperação das escolas parece estar a correr bem, os seus efeitos económicos adivinham-se pouco relevantes.

Infelizmente, os casos de compadrio na contratação de vários serviços por parte da empresa Parque Escolar têm sido mais do que muitos e têm surgido com frequência na comunicação social. Mesmo o que não corresponde a qualquer suspeita de ilegalidade passou pelo ajuste directo garantindo que o dinheiro vai para os ateliers e construtoras do costume. Como sempre, o País vive entre a burocratização absurda e desnecessária e o atalho do ajuste directo que afecta a transparência do Estado.

Com este exemplo percebemos onde falha o País. Uma boa medida política para a recuperação económica perde grande parte da sua eficácia quando chega ao terreno. Porque das elites políticas (as de topo e as intermédias) às elites económicas e culturais, quase todos parecem viver de uma boa agenda de contactos no Estado, apropriando-se assim dos parcos recursos financeiros públicos. No fim, o dinheiro que se perdeu no caminho, as perversões à concorrência que se reforçaram e os vícios que se confirmam na relação entre os privados e o Estado tornam inúteis todas as boas intenções.

O debate sobre a corrupção, o compadrio ou a simples falta de transparência na utilização dos dinheiros públicos presta-se a todos os populismos. Mas ele é o nó górdio de muitos dos problemas estruturais deste País.

Tudo isto terá origens culturais, mas isso não é o mais relevante. A verdade é que todas as sociedades desiguais têm Estados pouco transparentes. Porque se a desigualdade também se mede no acesso aos recursos públicos, é natural que sejam os mesmos de sempre a garantir para si o que devia ser de nós todos para assim perpetuarem a desigualdade de que se alimentam.

Combater o nosso atraso passa por impor a transparência nos procedimentos. O que tem de ser simples deve ser simples. O que tem de ter regras apertadas deve ser fiscalizado. Em Portugal é ao contrário: qualquer pequeno gesto de um cidadão ou de uma empresa, por mais irrelevante que seja, tem de passar por um labirinto infernal de burocracia. Já os bons negócios com o Estado seguem por atalhos sem controlo de ninguém.

Sem mudar isto, excelentes ideias como a recuperação do parque escolar acabarão sempre por ficar muito longe do que podiam ser. Foi assim com os dinheiros europeus para formação profissional, com os milhões gastos em obras públicas ou com os apoios comunitários à agricultura. E o problema é que se começam a esgotar as oportunidades para quebrar este ciclo vicioso.

Pubicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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Segunda-feira, 3 de Maio de 2010
por Daniel Oliveira
Quando foi preciso mostrar um cordeiro para o sacrifício os escolhidos foram os desempregados. Os mercados querem ver sangue, dizem os entendidos nestas coisas de talhantes. E nada melhor do que os que perderam o emprego para a função.

Na última sexta-feira, no Parlamento, quando lhe foi perguntado quanto pouparia com os cortes do subsídios de desemprego que tão orgulhoso decidiu antecipar, Sócrates embatucou. E depois lá disse: não há estudo nenhum. Assim, sem qualquer ideia do impacto que a coisa terá, degrada-se ainda mais a vida de quem já a tem desfeita.

Depois de confessar a ligeireza José Sócrates tinha de dizer alguma coisa. Saiu-lhe uma frase que faria corar de vergonha o senhor Paulo Portas: “há pessoas no desemprego que precisam de ter o incentivo certo para trabalhar”. Ou seja, quem está desempregado tem nestes cortes um incentivo para sair da boa vida que leva. Os empregos estão aí e há 700 mil portugueses (acreditando nos sempre optimistas números oficiais) que só não trabalham porque não querem. Vale a pena ver alguns dos trabalhos e respectivas remunerações que o governo publicita nos seus sites para perceber como há quem se aproveite da desgraça alheia.

É quando perde o guião que José Sócrates diz o que realmente pensa. E o que pensa podia ser dito por um qualquer oportunista que nunca perdeu um segundo a pensar nas razões que o levaram a militar num partido que se chama “socialista”. Podia dizer que o seu raciocínio é de direita e que o facto de ter, na mesma intervenção, falado da “esquerda moderna”, só demonstra até onde pode ir o cinismo. Mas não é isso. Na verdade, Sócrates não faz a mais pálida ideia do que seja ser de direita ou a de esquerda. É um homem sem valores políticos e sem raízes ideológicas. Um autoritário que por ser autoritário aparenta ter convicções. Não tem nenhuma.

Mas o mais grave não é a vazio ideológico em que vive. É a insensibilidade e a ignorância. Um primeiro-ministro que diz, num país onde todos os dias mais gente se vê na total incerteza em relação ao seu futuro, uma frase destas não merece perdão. Ao pé do que isto revela pequenos e grandes casos que envolveram o seu nome são irrelevantes. E é a ignorância (naquilo que ela tem de mais profundo) de quem está convencido que a maioria das pessoas não tem brio e não se importa de se socorrer de esquemas para se safar na vida. Compreende-se que assim pense. Todos temos uma certa tendência para avaliar a vida dos outros pela vida que tivemos.

Publicado no Expresso Online

por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos


O terceiro single do novo álbum dos Cypress Hill. Uma bela malha da guitarra de Tom Morello. E o regresso à normalidade.

por Sérgio Lavos
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Domingo, 2 de Maio de 2010
por Pedro Vieira

por Pedro Vieira
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por Bruno Sena Martins
Os habituais jornalistas de Lisboa estão inconsoláveis, desgraçadamente  disfarçar o melão nunca fez parte das suas competências. Quanto ao Porto, que  sejam assim todos os anos péssimos.

por Bruno Sena Martins
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por Sérgio Lavos


Parabéns à Naval e a Inácio pelo excelente resultado este fim-de-semana.

por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira
...fazer tantas reservas e depois não aparecer.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

Letra, no link em baixo



Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o Mortimore do Meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI Não há graça que não faça o FMI
FMI O bombástico de plástico para si
FMI Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI Não há truque que não lucre ao FMI
FMI O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais, célulazinhas cinzentas
Sempre atentas
E levas pela tromba se não te pões a pau
Num encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te, não desfolhes em vão este malmequer que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalt'e-quer, messe gigantesca, vem-te vindo, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama, vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho, vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão, olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora, olha a Música no Coração da Indira Gandi, olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho, o respeitinho é muito lindo e nós somos um povo de respeito, né filho? Nós somos um povo de respeitinho muito lindo, saímos à rua de cravo na mão sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas, né filho? Consolida filho, consolida, enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde. Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo, o teu trabalhinho é muito lindo, é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho? O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras, tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é? Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar, para ver se a gente consegue num grande esforço nacional estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho? Pois claro! Estás aí a olhar para mim, estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto, pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação e estás a pensar lá com os teus botões: Este tipo está-me a gozar, este gajo quem é que julga que é? Né filho? Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente? A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote! Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho? Onde está o teu Extremo Oriente, filho? Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó, tu és 'Sepuldra' tu és Adamastor, pois claro, tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas com passaporte de coelho, não é filho? Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida! Entretém-te filho, entretém-te! Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho, trabalhinho, porreirinho da Silva, e salve-se quem puder que a vida é curta e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch! Come on baby a ver se me comes! Come on Luís Vaz, 'amanda'-lhe com os decassílabos que os senhores já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas! E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares, zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal, zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros, zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro, zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer e acabamos todos numa sardinhada ao integralismo Lusitano, a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen, ok boss, tudo ok, estamos numa porreira meu, um tripe fenomenal, proibido voltar atrás, viva a liberdade, né filho? Pois, o irreversível, pois claro, o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau, nada será como dantes, agora todos se chateiam de outra maneira, né filho? Ora que porra, deixa lá correr uma fila ao menos, malta pá, é assim mesmo, cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é? Preocupações, crises políticas pá? A culpa é dos partidos pá! Esta merda dos partidos é que divide a malta pá, pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá! Razão tem o Jaime Neves pá! (Olha deixaste cair as chaves do carro!) Pois pá! (Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?) É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá! Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata. Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril, esta confusão pá, a malta estava sossegadinha, a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa... Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo, mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah? Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah? Quem é que não se calava, quem é que arriscava coiro e cabelo, assim mesmo, o que se chama arriscar, ah? Meia dúzia de líricos, pá, meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá, isto é tudo a mesma carneirada! Oh sr. guarda venha cá, á, venha ver o que isto é, é, o barulho que vai aqui, i, o neto a bater na avó, ó, deu-lhe um pontapé no cu, né filho? Tu vais conversando, conversando, que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode? Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah? Estás desiludido com as promessas de Abril, né? As conquistas de Abril! Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar e tu ficaste quietinho, né filho? E tu fizeste como o avestruz, enfiaste a cabeça na areia, não é nada comigo, não é nada comigo, né? E os da frente que se lixem... E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver, é não querer entender nada, precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho? Precisas de ter razão, precisas de atirar as culpas para cima de alguém e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril, para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março, para os do 25 de Novembro, para os do... que dia é hoje, ah?

FMI Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho? Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade? Esta merda não anda porque a malta, pá, a malta não quer que esta merda ande, tenho dito. A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade? Quer isto dizer, há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular! Somos todos muita bons no fundo, né? Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né? Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas, estas coisas até já nem querem dizer nada, ismos para aqui, ismos para acolá, as palavras é só bolinhas de sabão, parole parole parole e o Zé é que se lixa, cá o pintas azeite mexilhão, eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol, pronto, viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marraças, Marraças, fora o arbitro, gatuno, bora tudo p'ro caralho, razão tinha o Tonico de Bastos para se entreter, né filho? Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores, entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais, entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho, entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar, entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes, entretém-te filho e vai para a cama descansado que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante, enquanto tu adormeces a não pensar em nada, milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores, redes de policia secreta, telefones, carros de assalto, exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá! Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II, tudo corre bem, a ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas. A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua se o teu salário perde valor todos os dias, ou de te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra é como o rio de S. Pedro de Moel que se some nas areias em plena praia, ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar de maneira que se possa dizer: porra, finalmente o rio desaguou! Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma, tens tu a ver, tens tu a ver com isso, não é filho? Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é? Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer, votas à esquerda moderada nas sindicais, votas no centro moderado nas deputais, e votas na direita moderada nas presidenciais! Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?! Era o que faltava! É assim mesmo, julgam que te levam de mercedes, ora toma, para safado, safado e meio, né filho? Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto, os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro! Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega. Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ofeneologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas! Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah? Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah? Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu? José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra, anda aqui um gajo cheio de boas intenções, a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois? É só porrada e mal viver é? O menino é mal criado, o menino é 'pequeno burguês', o menino pertence a uma classe sem futuro histórico... Eu sou parvo ou quê? Quero ser feliz porra, quero ser feliz agora, que se foda o futuro, que se foda o progresso, mais vale só do que mal acompanhado, vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa, filhos da puta de progressistas do caralho da revolução que vos foda a todos! Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego, não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho, não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho, saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto, vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais para o raio que vos parta! Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho, deixem-me só para sempre, tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega, sossego porra, silêncio porra, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só, deixem-me morrer descansado. Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado, eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto, eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa, deixem-me só porra, rua, larguem-me, zórpila o fígado, arreda, 'terneio' Satanás, filhos da puta. Eu quero morrer sozinho ouviram? Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI, eu quero lá saber do FMI, eu quero que o FMI se foda, eu quero lá saber que o FMI me foda a mim, eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se eu tornar a ir para o hospital, pronto, bardamerda o FMI, o FMI é só um pretexto vosso seus cabrões, o FMI não existe, o FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma, o FMI é uma finta vossa para virem para aqui com esse paleio, rua, desandem daqui para fora, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe...

Mãe, eu quero ficar sozinho... Mãe, não quero pensar mais... Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o azul dos operários da Lisnave a desfilar, gritando ódio apenas ao vazio, exército de amor e capacetes, assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou: Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer, aqui está a minha arma para vos servir. Assim mesmo, por detrás das colinas onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores, as festas e os suores, os bombos de lava-colhos, assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria, de esperança precoce e intranquila, o bater inexorável dos corações produtores, os tambores. De quem é o carvalhal? É nosso! Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso. Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei. Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena. Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram. A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez. Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me dentes. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
Benfica ou Porto? Passos Coelho ou José Sócrates? Peste ou cólera?

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira



E este será o único papel social que ficará para o Estado.

por Daniel Oliveira
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Sábado, 1 de Maio de 2010
por Bruno Sena Martins
Ideias políticas à parte, Pedro Passos Coelho reúne excelentes condições para ser primeiro-ministro.

por Bruno Sena Martins
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por Daniel Oliveira


"Que força é essa amigo", de Sérgio Godinho. Interpretação de Sérgio Godinho e José Mário Branco.

por Daniel Oliveira
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por Sérgio Lavos
Quando

por Sérgio Lavos
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por Sérgio Lavos
O entendimento a que terão chegado José Sócrates e Pedro Passos Coelho esta semana no sentido da execução do PEC teve como efeito imediato o mesmo de sempre: o sacrifício das classes mais desfavorecidas. Cortar nas prestações sociais parece ser o caminho mais fácil para resolver a crise, e daqui para a frente não se espere outra coisa. Tudo se muda de maneira a que tudo fique na mesma, e os privilégios de alguns continuem - e, quem sabe, sejam até alargados. A

por Sérgio Lavos
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por Daniel Oliveira

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira

Filme amadr super 8mm: 1º de Maio de 1974, Lisboa.

por Daniel Oliveira
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por Daniel Oliveira
...cheira-me que acabou o jogo do "agarrem-me, senão eu caio".

por Daniel Oliveira
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