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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O trilema

Daniel Oliveira, 27.05.10
A exposição da banca alemã e francesa às dívidas dos países do sul pode ser bem maior do que se pensava, explicava esta semana o "Financial Times". Ou seja, a senhora Merkel só reagiu à crise porque acordou para o risco da banca alemã sofrer um rude golpe. A Alemanha está, como antes, a tratar de si e dos seus. E tem uma única prioridade: que Portugal, Grécia e Espanha paguem a dívida sem qualquer renegociação, mesmo que isso lhes custe uma longa e penosa recessão.

É difícil explicar a um economista que seja politicamente ignorante - o que o torna estruturalmente incompetente para falar de política económica - que o que se está a tentar fazer na Grécia é impossível. Porque em democracia a frieza dos números tem de se relacionar com o calor da revolta das pessoas. Mas é natural que a agenda liberal aproveite este momento. A inevitabilidade de fazer a vontade aos mercados permite conquistas que o voto nunca lhe daria: a redução drástica do papel social, económico e regulador do Estado.

Num recente artigo, o economista Dani Rodrik resumiu, através de um trilema, as lições a tirar da crise grega: a democracia, a globalização económica e o estado-nação são incompatíveis. Só podemos ter dois destes factores em simultâneo. Se queremos democracia e estado-nação precisamos de proteccionismo. Se queremos democracia e globalização económica precisamos de governo global. Se queremos estado-nação e globalização económica precisamos de governos com mão forte e cidadãos com espírito dócil. É nesta tensão que temos vivido desde o início do século XXI. Como a democracia global é uma miragem, os liberais mais pragmáticos já há muito descartaram a possibilidade dos cidadãos continuarem a deter os instrumentos necessários para resistir a decisões políticas quando a sua vida se torna insustentável. Quanto muito aceitam alguns formalismos eleitorais, onde o sindicalismo ou o confronto social não tenham qualquer espaço de manobra. Desistiram da democracia.

A escala europeia é excelente para testar este trilema. Para defender a democracia, temos de escolher: ou governo económico europeu, onde portugueses e gregos também têm uma palavra a dizer sobre a sua moeda, ou a saída dos países da periferia europeia de uma moeda única que não controlam e que não está pensada para as suas economias. Durante algum tempo pareceu que era o primeiro caminho que estávamos dispostos a trilhar. Ficou claro, com esta crise, que assim não será. E, no entanto, também não está em cima da mesa uma saída de Portugal, Espanha e Grécia do euro.

Olhando para o que se passa na Grécia e ouvindo o discurso sacrificial e socialmente autista que domina o debate político português percebemos que se conta com a ausência do terceiro factor do trilema - a democracia - para ultrapassar a crise. E continuar a discutir apenas a pequena política doméstica, usando sempre o argumento da inevitabilidade, não é inocente. Espera-se que as pessoas acreditem que nada podem fazer. Pedindo-lhes que se abstenham de lutar pelos seus direitos e assistam sentadas à morte do Estado Social. Resta-nos, como cidadãos, recusar esta chantagem, obrigando a Europa e os governos a escolherem um caminho: ou a soberania democrática dos europeus, ou soberania democrática dos cidadãos nacionais. Mas nunca a soberania dos mercados. É isto, e não Sócrates, Passos Coelho ou o TGV, que está em causa.

Texto publicado na edição do Expresso de 22 de Maio de 2010

Arrastão dos comentadores: O tango da tanga

Arrastão, 26.05.10
Texto de Graça Maciel (GMaciel)

Qual ponta de lança da América latina, Portugal despachou numa penada o corridinho e o malhão e adoptou, oficialmente, o tango como expressão da musicalidade lusa. Não viria mal ao mundo – pese embora Portugal não ser o mundo – se não se desse o curioso fenómeno de nos ser imposta uma diminuição acentuada nas vestes originais, já de si generosas no que mais mostram do que escondem. Esta singular opção teve como promotores não dois Alunos de Apolo, mas, ainda mais fantástico, dois primeiros-ministros; um executivo, outro por enquanto suplente.

Assim e depois de acostumados aos seculares bailinhos do pagamento de impostos directos e indirectos, taxas e sobretaxas, contribuindo para os orçamentos das regiões autónomas, autarquias, obras, derrapagens, prémios de gestores e conselhos de administração, institutos, frotas de ministérios e BP, ordenados, viagens e demais mordomias de deputados, assessores, adjuntos, secretários, ao próprio governo e apaniguados, clientes e jotinhas, e o mais que nem ao diabo lembra, temos que nos reinventar, nem que a vaca tussa. Desta feita, por decreto sem remissão, temos de o dançar de tanga. Roam-se de inveja, argentinos!

Para desenjoar das cantigas de duques e carreiras

Daniel Oliveira, 26.05.10

Da entrevista de João Ferreira do Amaral ao "Jornal de Negócios"
"Hoje é relativamente consensual que a entrada na zona euro foi a principal razão da perda de competitividade."
"(…) a baixa da taxa de juro não é necessariamente uma benesse. Tudo depende do que vamos fazer ao crédito. E, com uma taxa de câmbio desajustada, como nós tínhamos, foram criados incentivos para a aposta no sector não transaccionável, o que criou a dívida insustentável que temos agora."
"Mesmo que [uma queda de 20 a 30% dos salários] fosse socialmente exequível, a medida acabaria por ser ineficaz. Repare que o conteúdo de salários das exportações é de 30%. Se, por absurdo, se cortasse 30% nos salários, a nossa competitividade apenas aumentava 9%. Bastava uma oscilação do dólar para essa vantagens desaparecer."
"É melhor pensar em coisas exequíveis, como negociar com a Europa uma forma de alterar as instituições (…). Não tenhamos ilusões: se não conseguirmos uma alteração do enquadramento da Zona Euro, não estaremos muito mais tempo dentro dela."
"A Europa não percebe que quantos mais planos de austeridade fizer mais ataques especulativos ela vai sofrer."
"(…) sou completamente contra a ideia de um orçamento equilibrado. Não há nenhuma justificação política ou económica para que um país não tenha qualquer défice, e por isso também estranho que alguns partidos, mesmo de Esquerda, admitam a hipótese de inscrever na Constituição um limite para o endividamento."

Via Ladrões de Biciletas

Arrastão dos comentadores: O sono é a antecâmara da morte

Arrastão, 26.05.10
Texto de Carlos Correia (cafc)



Esta frase de Shakespeare, serve-me de mote a um tema, mais ou menos, tabú.
Se entendido em toda a sua extensão, é inevitável chegarmos à questão "fracturante", ou seja, a Eutanásia.
Pessoalmente e na generalidade, encaro a morte, segundo alguém já disse, como "mais um dia da minha vida".

Quantas vezes acordei e exclamei, "Bolas, agora que estava a dormir tão bem..."(manifestação primária de desagrado pelo estado dito consciente?).
De outras, poucas felizmente, acordei sobressaltado e a seguir, fiquei contente. Tinha sido, apenas, um pesadelo (manifestação de quê?).
Em qualquer dos casos, não estava "vivo", com todos os sentidos alerta. Estava na tal antecâmara. Acordo, logo vivo. Não acordo...(A Lili não diria melhor).
Bem pior, no entanto, é o pesadelo real em que tantos são obrigados a viver, até já não conseguirem ter um sono, quanto mais sonhos. Por isso, muitas vezes "desistem". Conforme as situações, uns recorrem ao suicídio, outros pedem a eutanásia.

Aqui fica a minha pista para um debate com muita polémica e, preferencialmente, "desanuviado". Também é possível brincar com a morte. Aproveitemos agora, enquanto estamos vivos, porque, depois...

Arrastão dos comentadores: Um post de direita

Arrastão, 26.05.10
Texto de Tonibler

A humanidade chega ao sec. XXI como chega, porque a sociedade da Liberdade é a mais eficiente no combate diário que o ser humano trava para sobreviver ao meio ambiente. Por meios de selecção natural, as sociedades que se foram livrando dos constrangimentos religiosos, raciais e sexuais são as mais ricas e aquelas que conseguiram satisfazer as necessidades de sobrevivência dos seus elementos, integrando-os na construção do bem comum. Naturalmente, estas sociedades foram dominando as outras e, aos poucos, deitando abaixo os constrangimentos que as outras tinham. A sociedade portuguesa tem hoje mais da sociedade inglesa dos anos 60, que da portuguesa dos anos 60 e, por isso, vive muito melhor.

Por isso a liberdade económica é tão importante e é importante que cada um possa ser integrado na construção do bem comum, não da forma como o estado comum o decide, mas da forma como ele o decide, da mesma forma que não faz sentido que o estado imponha a forma como as mulheres ou os muçulmanos o devem fazer. Deve investir em integra-lo, mas não em emprega-lo. O que é que isto tem a ver com esquerda e direita? Pois…isso eu nunca vou
conseguir entender, mas obrigado ao Arrastão e parabéns!

Os comentadores serão bloggers do Arrastão (actualizado)

Arrastão, 26.05.10
Para celebrar o seu 4º aniversário, o Arrastão convidou 15 comentadores regulares para escreverem um post no blogue. O convite seguiu por mail, usando os endereços que são fornecidos e esperando que os mesmos sejam verdadeiros. Alguns já responderam. Brevemente começaremos a publicar os seus posts. Um de cada um. Sobre o assunto que quiserem.

Os posts começam a ser publicados amanhã de manhã.

Aqueles que, não tendo sido convidados (seguramente por lapso), quiserem participar nesta iniciativa, podem enviar um texto. No máximo mil caracteres, com título e imagem, se assim o desejarem. Não podemos garantir publicação, mas tentaremos. O mail dos membros do Arrastão está no fim das biografias de cada um deles, na página "Autores" (com link no cabeçalho).

Matar o convalescente com a cura

Daniel Oliveira, 26.05.10
Sabemos que o défice português está próximo da média europeia e é largamente ultrapassado por vários países que não estão em apuros. A dívida externa privada será até um problema mais grave do que a dívida pública, que está 21 pontos percentuais abaixo da belga e 29 abaixo da italiana. Mas, diziam as agências de rating e muitos especialistas, o nosso principal calcanhar de Aquiles era a mediocridade do crescimento. Isso sim, causaria dúvidas sobre a possibilidade de cumprirmos as responsabilidades com os credores.

Soubemos recentemente que, contra todas as expectativas, o crescimento económico em Portugal foi, no primeiro trimeste deste ano, de um por cento. É, nem mais nem menos, o maior de todos os países ocidentais. Para se ter uma ideia, se a coisa se mantivesse assim estaríamos a falar de 4,06 por cento de crescimento num ano, o maior da última década. E isto em plena crise.

Duas notas sobre este singelo facto, que, num guião que já está escrito por ideólogos vestidos de economistas, não mereceu grande atenção.

Primeiro: apesar deste dado muitíssimo relevante, que era referenciado como o mais importante para os mercados, nada de especial se modificou. O que deve levantar algumas dúvidas sobre a racionalidade de algumas avaliações.

Segundo: é no exacto momento em que contrariamos a nossa maior fragilidade que a Europa nos impõe uma política recessiva que tornará virtualmente impossível a consolidação deste crescimento. Ou seja, para resolver as dificuldade criadas pela falta de crescimento aniquila-se a possibilidade de crescer. A verdade é que o caminho que estamos a seguir não é um remédio, mas uma doença induzida. E isto quando surgiram os primeiros sinais de recuperação.

Publicado no Expresso Online.