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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Jornada 17 - Hulk, um Penalty do Renascimento

Bruno Sena Martins, 28.01.11

Publicado na Liga Aleixo

 

O penalty que deu a vitória ao Porto em Aveiro deu escusado brado. Na minha opinião, tamanha salganhada de equívocos, e que outro nome dar a Rui Gomes senão Equívoco Logo Existe, só pode acontecer porque a alma contemporânea se encontra alheada da contemplação dos clássicos. Um autor publica um livro e em vez de se tentar encostar às verdades universais que amanhou numas quantas tiradas de génio, logo se precipita em fazer um contrato com o editor a fim de uma sequela que lhe possa render mais mulherio e, em podendo, dinheiro e gajos.

 

Há jogadores que pensam o futebol jogado com tais requintes de materialismo que não param para apreciar uma finta. Tomemos como exemplo o túnel, epítome do gesto técnico que se basta. Quando fazemos um túnel ao adversário os níveis de altivez estética estão alcançados ainda que fôssemos a jogar em contra-mão na direcção da nossa própria baliza. A ineptidão dos realizadores de futebol para gravar os pequenos momentos de fantasia, e com eles de toda máquina dos resumos com Nuno Luz à cabeça, implica que só fiquem registados para a posterioridade as estéticas do golo. Toda a gente apupa o jogador que se dá ao desfrute de ficar a contemplar a própria finta, uns milissegundos que seja, apenas porque essa contemplação o poderá afastar da compulsão hodierna pelo golo (aquilo que noutro lugar, umas linhas acima, na verdade, gostaria de ter chamado, a hegemonia candente da estética do golo).

 

A passagem de Ronaldo de extremo fantasista a goleador, por exemplo, cavou um fosso para Messi nas cogitações sobre o exercício da arte. Por outro lado, a assombrosa capacidade de Ronaldo para afunilar as suas virtudes em favor da obtenção do golo (desde 2007-2008) tem-lhe garantido um lugar na luta pelo sublime, lugar que não merece enquanto virtuoso, mas que merece enquanto ser capaz de abdicar - abdica de momentos técnicos em favor de comparência semanal no resumo como o golinho da praxe, no fundo, largou a finta para se especializar no remate. Naquele lance ocorrido em Aveiro, Hulk, que anda pouco maçado por aparecer nos resumos só a fazer golos, quis gozar no ar uns instantes antes de retomar o contacto com a bola.

 

Ali estava ele no ar a contemplar a perdição de André Marques, quando é ceifado pelo pé de coice: penalty. Repetida a imagem mil vezes sabemos que é penalty, mas percebemos que algo está errado no momento que Hulk fica suspenso no ar. Nenhuma simulação, mas se me permitem, eu explico a disjunção cognitiva: não estamos habituados a ver um homem gozar uma finta enquanto objecto final do prazer, e ninguém percebe que isso leve um tempo. Foram-se os clássicos, e ninguém está cá para contemplações. Conta comigo, Hulk.

Sopinha

Andrea Peniche, 28.01.11

 

 

Sou suspeita de falar nestas coisas: fui criança no período revolucionário e frequentei sempre a escola pública. Talvez por isso não me repugnem nem os piolhos nem os lampiões no nariz e ache até ao interclassismo uma certa graça. Deve ser por essa razão que quando vejo as mãezinhas e os paizinhos empenhados na defesa do privilégio das suas crianças fico aborrecida.

 

Como um grupo de jornalistas se dedicou a fazer jornalismo, hoje podemos afirmar que é falso o argumento de que não há alternativa pública à maioria das escolas privadas: Só 18 escolas privadas, das 94 com contrato de associação com o Estado, ficam a mais de 15 quilómetros de uma pública com o mesmo grau de ensino. (...) Cerca de 20 estabelecimentos privados ficam até a menos de um quilómetro dos seus equivalentes no público.

 

Nada tenho contra as escolhas privadas pelo ensino privado. Cada um come do que gosta, mas há um prato, a sopinha, que tem de fazer parte de todas as refeições equilibradas. E a responsabilidade pelo provimento da sopinha é do Estado. Assim, se os papás e as mamãs não gostam da sopinha pública podem escolher a sopinha privada, não podem é pedir legumes subsidiados quando há sopinha pública à espera da sua prole.

 

O problema da sopinha é que ela não chega para todos os meninos e meninas. Sócrates prometeu uma rede pré-escolar com capacidade para acolher todas as crianças com 5 anos. Acontece que as criancinhas, pasme-se, precisam de sopinha desde que nascem. E creches e infantários públicos é coisa que, na esmagadora maioria das localidades, ou não existe ou não abunda. A pouca resposta pública que há não chega para a cova de um dente. Por isso, era bom acabar com a subsidiodependência das escolas privadas e investir a sério em creches e infantários. Acho que a isso se chama igualdade de oportunidades.

Quem cala consente

Daniel Oliveira, 28.01.11

Em quase todas as eleições os jornalistas chamam à atenção para a abstenção. Pedem comentários aos comentadores e os comentadores comentam: isto demonstra o descrédito da democracia. Pedem frases bonitas aos políticos e os políticos tentam não desagradar: esta abstenção deve servir de aviso para uma profunda reflexão. Pedem ciência aos politólogos e os politólogos debitam frases feitas: há um desinteresse geral por este ato eleitoral.

 

E isto, a mim, enerva-me. Que metade do País que se deu ao trabalho de ir votar gaste tanto tempo a falar da metade do País que se esteve nas tintas. Que fritemos a cabeça a tentar descortinar as motivações da inação de quem preferiu ficar em casa. Que os cidadãos que levam a sério essa sua condição e querem ter autoridade para criticar os eleitos se sintam na obrigação de fazer o papel de ama-seca de quem não quer saber.

 

Posso dicordar do voto de muitas pessoas. De quem vota em candidatos absurdos para protestar. De quem vota em branco ou nulo porque acha que quem se candidata é sempre oportunista ou idiota. De quem vota em autarcas corruptos ou políticos incompetentes. De quem decide o seu voto em frente ao boletim, como se estivesse a jogar no totobola. Mas sairam de casa, foram à mesa de voto, e cumpriram a sua obrigação de cidadão. Merecem-me respeito. Como opinador, reflito sempre sobre a sua decisão. Como democrata, aceito sempre a sua escolha soberana. Para os abstencionistas estou-me nas tintas. Porque eles, ao não participarem no mais básico e simples dos atos desta nossa democracia, se estão nas tintas para mim. E amor com amor se paga.

 

Se se abstêm porque têm mais que fazer eu abstenho-me de lhes dar atenção. Se se abstêm porque não acreditam em nada e em ninguém, eu abstenho-me de acreditar no seu empenho neste País. Se se abstêm porque não acreditam na democracia, eu abstenho-me de incluir o seu gesto (ou a sua ausência de gesto) no debate democrático.

 

Sou contra o voto obrigatório. Exatamente porque não gosto da ideia de que quem não quer decidir seja determinante nas nossas grandes escolhas. Acho que a abstenção, num país livre, é um direito. Mas, por favor, não peçam a quem se preocupa, pensa e escolhe para perder tanto tempo com quem não o faz.

 

Se podem votar têm mais de 18 anos. Se têm mais de 18 anos são maiores e vacinados. Preferem ficar em casa? Problema deles. Nós, os cidadãos que o querem ser, tratamos de escolher.

 

Dar, em cada ato eleitoral, tanto tempo de antena à abstenção é um insulto a quem se levantou do sofá e participou na vida coletiva deste País. Metade dos portugueses foi votar no último domingo. É pena, mas é a metade com a qual podemos contar. Só a escolha deles me interessa. Querem um número que merece reflexão? 277.835 cidadãos saíram de casa, foram à mesa de voto e votaram branco ou nulo. Esses sim, quiseram dizer alguma coisa. Os outros ficaram calados. E quem cala consente.

 

Publicado no Expresso Online

White noise

Miguel Cardina, 27.01.11

 

O protesto de pais e directores dos colégios privados, contra o corte no valor do subsídio estatal que usufruem, tem sido capaz de camuflar a questão que verdadeiramente importa discutir: a lógica dos contratos de associação e a sua reavaliação, caso a caso. Podíamos começar por aí, não?

Salaviza

Daniel Oliveira, 27.01.11
Sou insuspeito, porque Jorge Salaviza está bem longe da minha área política. Mas, porque conheci bem o seu trabalho no São Luiz, sei, como o consenso à volta dele prova, da sua competência. Demitiu-se agora da Opart, o organismo público que gere os teatros nacionais e a Companhia Nacional de Bailado. Como sempre fez, não revela as razões da sua demissão, mas tudo indica que têm a ver com a situação calamitosa em que se encontram os organismos culturais públicos neste País. Conhecendo Salaviza e a sua dedicação, não dou crédito à acusação de que o seu problema é a impossibilidade de acumular a reforma com o salário, até porque ele garante que ela é anterior a essa justa decisão. Sei uma coisa: a demissão de Salaviza é mais um prego no caixão da cultura portuguesa. A manutenção desta ministra no lugar é outro.

O nosso ditador

Daniel Oliveira, 27.01.11

 

 

E de repente o regime tunisino deixa de ser apresentado como moderado. Uma ditadura sanguinária, descobriu-se. E de repente a União Europeia e os EUA estão solidárias com o povo tunisino. Onde estiveram nos últimos 23 anos, enquanto apoiavam Ben Ali, cujo partido tem assento na Internacional Socialista, e davam cobertura aos seus desmandos e roubos? Viviam naquela irresponsável ilusão de que as ditaduras árabes laicas são o mal menor. Engano: foram e são o melhor argumento para os fundamentalistas convencerem os árabes que o islamismo é libertador. Dizia o secretário de Estado americano Cordell Hull, sobre Trujillo, ditador da República Dominicana: "He may be a son of a bitch, but he is our son of a bitch". Caiu mais um. Sonsos, festejamos. "But he was our son of a bitch".

 

Publicado na edição do Expresso de 21 de janeiro de 2011

Bibi e as paixões populares

Daniel Oliveira, 27.01.11

Carlos Silvino diz que mentiu em tribunal. A reação geral é a óbvia: não tem credibilidade. E eu concordo. Pela sua história, pelo seu comportamento, pelas suas evidentes limitações, pela sua vulnerabilidade que o torna facilmente manipulável e, já agora, pelo seu interesse no processo, todas as suas declarações devem ser ouvidas com enormes reservas. Dizer, como disse o advogado das vítimas, que ele as traiu, é no mínimo bizarro. Bibi é, segundo os próprios, um violador de menores. Essa foi a primeira e mais brutal traição. Ser tratado como um aliado natural das suas próprias vítimas só pode resultar de uma enorme confusão.

O que me deixa perplexo é que o mesmo homem que serviu para tantas certezas, quando apontava o dedo a vários arguidos, seja apenas agora visto pela generalidade das pessoas como pouco credível. E este comportamento coletivo, independentemente deste processo, só confirma os perigos da justiça popular. Falta a todos os que não estão obrigados à frieza dos factos e das provas - e eu incluo-me - o distanciamento e a objetividade a que a justiça está obrigada.

Na televisão e nos tablóides tudo é simples, a preto e branco. Há, como nos filmes, os vilões e os heróis. A indignação coletiva vive mal com a dúvida e quase sempre julga antes de qualquer prova.

Enquanto Carlos Silvino confirmava uma história simples, era credível. Quando a desmente com argumentos estranhos passa a ser o violador que se tenta safar. Não sei se o que dizia antes tem mais credibilidade do que o que diz agora. Sei, e isso não está em debate, que o que disse antes tem valor processual e o que diz agora não o tem. Mas também sei outra coisa: que o mais humano dos impulsos mais é o de querer ver confirmadas as certezas que já se têm. E que essa é a razão porque a justiça tem de ser insensível às paixões da rua.

A justiça deve ser clara nas decisões que toma. Deve ser transparente e rigorosa na forma como chega a elas. Deve ser pedagógica quando as explica. Nunca deve esquecer que cada sentença cumpre um papel social e por isso não pode viver numa torre de marfim. Mas, na hora de decidir, deve ser gelada perante o calor da revolta. Até porque, como se vê pelos vários papeis que Carlos Silvino já desempenhou neste processo aos olhos da opinião pública, o calor da indignação popular é a mais volúvel de todas as paixões.

 

Publicado no Expresso Online

Sobre a moralidade do capitalismo financiado pelo Estado

Sérgio Lavos, 26.01.11

Ler com muita atenção este post no Aventar. De notar também este post sobre o tratamento jornalístico que o Público está a fazer dos protestos das escolas privadas e da sua comovente demanda em busca de financiamento público. E claro, é obrigatório ler os dois posts do maradona sobre o tema. Também acaba por ser extraordinária a repercussão mediática desta demanda. Já agora, custará assim tanto alguém investigar em que casos é que as associações privadas de ensino cumprem o papel que deveria caber ao Estado? Sabemos quem são. Há maneiras de conhecer a localização das escolas públicas. Parece-me demasiado fácil, mas estranhamente não vi esse trabalho em qualquer das notícias que li sobre o tema. Mas, tudo bem, deve ser mais fácil escrever coisas como "todos são financiados para oferecer educação gratuita aos alunos de determinada região, onde não existe oferta pública", como fez Bárbara Wong no Público de ontem. Principalmente quando tal frase pura e simplesmente não é verdadeira. Imprensa suave ou imprensa interessada e interesseira?