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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Jornada 21 - James Rodriguez, o 10

Bruno Sena Martins, 01.03.11

Publicado na Liga Aleixo

 

 

Raramente me debruço nos meandros da táctica fundado na ingénua noção de que a socialização do futebol implica um diálogo com realidades que lhe são exteriores: a poesia, o bailado, os dirigentes do Sporting. Mas a verdade é que dou por mim demasiadas vezes a assistir interressado aos movimentos auto-referenciais de um idioma que me é desconhecido – no caso um canal de jardinagem búlgaro da Tvcabo –, tanto que tenho dificuldade em compreender que as pessoas dotadas de corpos se recusem imergir no mundo intrincado das basculações tangentes à circulação do médio interior. Sejamos francos, como dizem estes, ou como dizia o bom do Merleau-Ponty, o facto de vivermos através de corpos, querendo ou não, estabelece uma comunalidade no modo como encaramos o fenómeno da vida: todos ficamos esventrados ao assistir à lesão do Emídio Rafael, consternados com o penteado do Fábio Coentrão, deliciados a ver o James Rodriguez a jogar a 10, divertidos com a a candidatura de Dias Ferreira. O facto, meus caros, é que o Porto tem um problema. Chama-se James Rodriguez e até ao passado sábado era apenas um puto de 19 anos que actuava na ala com a maturidade e com a apetência para repentismos de um Figo aos 37 anos.


 Se no caso do Figo o maduro estava na inteligência para esconder que os arranques o começaram abandonar quando abandonou a Catalunha, já no caso de James cruzam-se dois factos que nada devem à extrema sabedoria do anti-herói da selecção portuguesa – o jogador que muitos sportinguistas viam (gargalhada) a acabar a carreira no Sporting por amor ao clube (não há pequenos almoços grátis e assim). Mas voltemos ao James. Primeiro facto: o homem é precoce nas artes de não errar e dentro daquela serenidade toda – aquilo que em cima chamámos maturidade - existe o bem escondido pânico de perder uma bola. É como uma pessoa tímida que cumprimenta pro-activamente toda a gente quando chega ao café para ter completo domínio sobre um quadro de interacções cuja vida própria a ameaça.

 

Assim, deslocado para uma ala James não é um extremo desequilibrador clássico, longe de primar pelas perfídias do 1 para 1, James desequilibra pelo modo como mantém a circulação de bola em zonas do campo tradicionalmente associadas ao labor especialista do drible para a linha. Em segundo lugar, em inteira articulação com o imperativo de ajudar a equipa a ter mais de 60% de posse bola, vem aquilo que constatámos no sábado com a mudança táctica operada por Villas-Boas: James é um número 10 e toda a sua experiência junto à linha é uma tematização coreografada da experiência do exílio. Qual judeu ortodoxo de longas barbas a passear-se pelo Marais entre esplanadas pejadas de gays musculados, James comporta-se a extremo com os rituais originais de um distribuidor de jogo. Sendo com 19 anos melhor extremo do que muitos virtuosos da finta, o jogo de James vai exigir a prazo uma equipa que lhe dê o vértice avançado do losango.

 

Jesualdo abdicou temporariamente do 4-3-3 por Anderson, Villas-Boas já percebeu que a definição táctica do futuro do Porto passa assunção de James a 10. Mais do que um 10 fora do sítio, James é um 10 porque que aprendeu a comunicar com o mundo num corpo deslocado do seu espaço de conforto.

As palavras são importantes

Daniel Oliveira, 01.03.11

"Quando eu vejo que há aí palhaços que falam, falam, falam, falam, falam e eu não os vejo a fazer nada, fico chateado, com certeza que fico chateado". A frase dos Gato Fedorento - inspirada num desabafo de um concorrente do Big Brother - foi usada vezes sem conta. Quase sempre para acusar outros de falarem muito e não fazerem nada. Não perceberam os plagiadores que, pelo contrário, Ricardo Araújo Pereira fazia uma caricatura dos que desprezam a palavra. Desprezam-na duas vezes. Ao usarem-na sem dizerem nada e ao tratarem-na como um mero adereço da ação. Aqueles que não percebem que, como gritava Nanni Moretti, em "Palombella Rossa", "as palavras são importantes". São mais do que sons. São, elas próprias, ação. Constroem realidade. Quem fala, dizendo alguma coisa, está a fazer alguma coisa.

 

O filme estrela dos oscares deste ano foi "O discurso do Rei". Um homem que não esperava sentar-se no trono, mas que recebeu a batata quente nas mãos quando o seu irmão abdicou por se querer casar com uma mulher divorciada, acabou por ter um papel central na II Guerra Mundial. Como monarca, não podia aprovar leis, criar impostos ou declarar guerras. A única coisa que tinha a dar ao seu povo era a palavra. E as suas palavras contavam no preciso momento em que o Reino Unido se preparava para enfrentar a Alemanha nazi. Os ingleses precisavam dela para suportar os tempos difíceis que aí vinham. Só que Jorge VI era gago. Era ponderado e corajoso. Tinha tudo para ser um líder. Faltava-lhe a palavra.

 

A capacidade para mobilizar os americanos através das palavras não chega para Obama ser o presidente que prometeu. E não foi a trágica relação de Bush com a sua própria que língua que fez dele o pior presidente da história dos Estados Unidos. Sócrates é um bom orador, mas isso não faz dele um primeiro-ministro competente. Cavaco não tem qualquer respeito pelas palavras, mas não é apenas isso que faz dele um líder medíocre - apesar de, no lugar simbólico que tem o Presidente, não se tratar de um pormenor. Um político que não domina a palavra é um líder incompleto. Grande parte dos homens e mulheres que recordamos como grandes líderes usaram a palavra para conquistar o nosso respeito.

 

Portugal passa um por um período difícil. E o que aí vem será ainda pior. Palavras certas não resolveriam a nossa dívida externa ou a encruzilhada em que a Europa se encontra. Mas, por só elas poderem expressar ideias, apontar caminhos e dar esperança a um povo desesperado, fazem imensa falta.

 

Nenhum dos nossos políticos é gago. Mas é como se fossem. Incapazes de mobilizar os que deveriam liderar, não dão sentido a nenhum dos sacrifícios que nos pedem. Não é apenas falta de talento. Talvez eles próprios não saibam o sentido que estes sacrifícios têm.

 

Quando faltam palavras a um líder temos boas razões para pensar que são as suas ações que gaguejam. Porque as palavras constroem realidade e explicam o sentido do que se faz, são tão importantes como qualquer decisão. Quando eu vejo que há aí palhaços que fazem, fazem, fazem, fazem, fazem e eu não os ouço dizer nada que se perceba, fico chateado, com certeza que fico chateado. Porque desconfio que não fazem ideia do que andam a fazer.

 

Publicado no Expresso Online

Economia para Todos

João Rodrigues, 01.03.11

Chama-se Economia para Todos e é um curso de Economia que terá lugar todas as terças-feiras de Março, às 19h30m, na Fábrica Braço de Prata, em Lisboa. José Reis abre hoje e eu fecho no fim do mês. O programa e outros detalhes estão no blogue desta iniciativa.

O estado das coisas não pode ser estático

Sérgio Lavos, 01.03.11

 

Se houve algo que ficou provado com mais uma edição do programa da Fátima, foi a total inutilidade do mesmo. O suposto grande magazine de debate, visando a esclarecer o povaréu sobre as coisas que precisam de ser esclarecidas, não passa de um programa de variedades que não anda muito longe de um Jerry Springer contido - pelo menos, quando a dona Fátima decide calar as opiniões e as reacções do público que não lhe interessam. O programa de hoje, sobre a manifestação, marcada para o dia de 12 de Março, da "juventude em revolta" da geração Facebook, foi um repisar de técnicas e um exponenciar de defeitos, um fartote. Nas mesas, os "tipos sociais" do costume: o professor de economia de direita, o gestor de sucesso, a privilegiada vagamente histérica, o intelectual de esquerda preocupado com as questões da cultura e o sociólogo que apenas vai falar de "factos", "números" e "preocupações da sociedade". Na plateia, um belo leque de convidados que mostra o pior de uma geração - é assim mesmo -, não se percebendo quem seleccionou as pessoas que lá estavam. Os intervenientes da plateia dividiam-se em dois tipos de pessoas; o empreendedor de sucesso que conta a sua história pessoal, como chegou onde chegou, com muito sacrifício e tal, aceitando o que esta geração tem de recusar - trabalho não remunerado e precariedade; e o estudante universitário, trajado a rigor como convém, debitando banalidades sem sentido e provocando os "adultos" que estavam sentados nas mesas. Um espectáculo lamentável. Lamentável porque não estavam na plateia os verdadeiros atingidos pelas políticas de precariedade seguidas pelo país nos últimos vinte anos: os estudantes à procura do primeiro emprego, os trabalhadores a falsos recibos verdes, os estagiários não remunerados (e seria tão fácil encontrá-los nas redacções dos jornais ou até na própria RTP), os licenciados desempregados e os os que trabalham em empregos muito abaixo das qualificações, em supermercados ou call-centers. Não estavam lá, porque não interessava que estivessem. Como certamente não interessaria que estivessem lá jovens politizados, que pudessem responder à altura às provocações indignadas de Isabel Stillwell ou às ideias liberais do professor de economia. É sintomático que os promotores da manifestação tenham recusado a presença no programa, alegando que não se consideram líderes do movimento, apelando inclusive à absoluta desierarquização do movimento (o texto de recusa é admirável), e que as pessoas que foram falando fossem líderes de movimentos juvenis, de associações académicas, de empresas, cumulando na risível presença dos escuteiros (sem desprimor para o movimento escuta, refira-se). Tudo muito bem encenado, fingindo a preocupação necessária, pungente e quase dramática, mas sem uma única ideia nova, nada que não tivesse sido já discutido em blogues, no Twitter ou no Facebook (com a piada final da sra. Stilwell a queixar-se dos ataques à honra por parte dos "anónimos" das redes sociais, ou lá o que foi, depois de ter escrito um artigozeco no jornal gratuito que dirige revelando os três pecados essenciais do "articulista": ignorância, arrogância e falta de sentido de humor). Estas cortinas de fumo são oportunas, são distrações que o sistema arranja para ver se ficamos quietos no nosso canto, sem fazer nada para mudar o que está errado. Conhecemos a técnica e sabemos como o novo mundo das redes sociais pode ajudar a que as coisas de facto acontecam. E nada me pode dar mais gozo do que ver o pânico que transpareceu, por momentos, na cara do professor de economia, enquanto recriminava alguém da plateia por ter falado das manifestações que estão a derrubar ditaduras no Norte de África a propósito da organização do protesto. Quando o sistema começa a espernear, reafirmando a sua legitimidade democrática, é sinal de que alguma coisa está a ser bem feita. Dia 12 veremos.

 

*O cartaz, já devem ter reconhecido, é de Gui Castro Felga, sempre certeira.

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