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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Tempos Interessantes

Miguel Cardina, 02.04.11

Vivemos tempos conturbados. Ontem estávamos imersos numa crise financeira que abalava os alicerces do sistema económico e punha a nu a irracionalidade especulativa que lhe preside. Hoje o discurso centra-se nos défices dos Estados e nas dívidas públicas, fortalecendo uma nova lógica de acumulação que tem como alvos preferenciais os direitos de quem trabalha e as prestações sociais. Observámos como nos meios de comunicação o discurso austeritário se foi impondo, com pouco contraditório e muito apelo ao inevitável. Isso mesmo levou à redacção de uma Petição pelo Pluralismo de Opinião no Debate Político e Económico, que recebeu esta semana uma resposta da ERC, considerada insuficiente pelos promotores. Que por isso ripostaram.

 

Agora, apesar do período eleitoral que se avizinha e que dará espaço aos partidos para apresentarem as suas propostas, é muito provável que se aproxime um novo ciclo de condicionamento ideológico. É preciso "honrar os nossos compromissos", "ouvir os credores", apascentar a nervoseira dos mercados, “eliminar a gordura do Estado”, falar de "ajuda" e "resgate". É também preciso esquecer os caminhos que se trilharam e as opções de fundo subjacentes. Se as eleições são momentos em que os cidadãos são chamados a escolher, convém que saibam que a sua voz pode ser parte de uma alternativa. É isso que se propõe fazer o Portugal Uncut, um movimento inspirado no UK Uncut, e que promete contestar na rua e nas redes sociais a lógica injusta dos “cortes”: aquela que ataca os serviços públicos e penaliza a grande maioria da população ao mesmo tempo que iliba da carga os bancos, as grandes empresas e as classes mais altas. Em linha semelhante foi a acção do movimento «E o Povo, pá?» em sedes no BPN no passado dia 28. Esta é a hora de colocar em xeque o extremismo do centro.

Uma síntese possível

Bruno Sena Martins, 01.04.11

Da fraude...

João Rodrigues, 01.04.11

 

Que Campos e Cunha, um dos que gosta de brincar com vida dos outros, esteja toldado pela ideologia liberal ainda se compreende, mas que uma jornalista económica séria como Helena Garrido decida também mencionar as medidas “keynesianas” expansionistas de combate à crise, a propósito do aumento do défice em 2009, é que já é muito mais difícil de explicar. Como nos indica o Nuno Teles, as tais medidas expansionistas deliberadas ascenderam a 0,5% do PIB, num défice que aumentou 6,5%, graças sobretudo à quebra das receitas. Já que estamos a falar de receitas e como Campos e Cunha é uma daquelas pessoas que nunca fala das causas da crise financeira ou das disfunções do euro e que também acha, no seu artigo no Público, que a carga fiscal é “insuportável”, remeto-o para alguns factos, que os jornais destacaram esta semana, sobre o chamado Estado fiscal de classe, o Estado que perpetua a desigualdade.

 

De facto, ficámos a saber que a crise mantém o engenho empresarial: em 2009, apenas 30% das empresas pagaram IRC, mas a surpresa das surpresas estava reservada para o jardim das empresas: “das quase três mil empresas instaladas na Zona Franca da Madeira, apenas 51 pagaram IRC em 2009”. Esta fuga ao fisco, institucionalmente facilitada, deteriora a actividade empresarial, prejudicando as empresas que cumprem as suas obrigações. A tendência para a redução da taxa de IRC não parece ter aumentado a predisposição empresarial para pagar impostos.

 

Indicando que o Público é capaz de Campos e Cunha e do melhor, João Ramos de Almeida assinala: “Os rendimentos dos profissionais liberais pagaram 1,3 por cento da receita global do IRS de 2009. Os empresários apenas 0,6 por cento. Os rendimentos prediais pouco mais de 0,5% (…) Uma realidade que retrata uma evasão fiscal impune em décadas”. A narrativa liberal da promoção da virtude através do relaxamento fiscal é parte da chamada fraude inocente que economistas como Campos e Cunha têm por função reproduzir.

INE lava mais branco

Andrea Peniche, 01.04.11

Primeiro, foram os falsos recibos verdes; depois, os sem-abrigo; e, agora, a população reclusa. O branqueamento do retrato do País parece não ter limites e os Censos estão mesmo a ser usados para esse fim.

 

As ocupações desempenhadas pela população reclusa nos estabelecimentos prisionais (limpeza das instalações, lavandaria, cozinhas, jardins e actividades nas diversas oficinas - carpintaria, serralharia mecânica...) estão a ser consideradas trabalho efectivo, para efeitos censitários.

 

Apetece perguntar: se estas actividades são consideradas emprego, depois do cumprimento da pena (que passará a equivaler a um despedimento sem justa causa), a estas pessoas será atribuído o subsídio de desemprego? Mais, se a população reclusa aufere 2 euros por dia pelo desempenho destas actividades, é necessário denunciar a entidade empregadora: o salário pago viola a lei, uma vez que está abaixo dos 485 euros (a não ser que estas pessoas sejam consideradas trabalhadores independentes e passem o respectivo recibo verde).

Cabrita, Coelho e suas caniches

Daniel Oliveira, 01.04.11

 

Foi lançada a biografia de Pedro Passos Coelho. Sobre a autora, Felícia Cabrita, dispensam-se muitos comentários. Sabendo-se o papel que teve nos últimos anos podia pelo menos disfarçar um pouco. Mário Crespo apresentou o livro e, faça-se justiça, assumiu que este seu gesto era "eminentemente político". Nada contra jornalistas que assumem as posições. Desde que não o façam na hora de expediente. E que não confundam, como a justiceira e biógrafa oficial de Passos, campanha eleitoral com aquilo a que, no jornalismo, se dá o nome de "investigação".

A biografia merece ser lida. A história de "um homem invulgar" é de uma penosa vulgaridade. Para ser primeiro-ministro ou líder partidário não é necessário ter a biografia de um Mário Soares, de um Álvaro Cunhal ou até de um Sá Carneiro. São homens da fundação da nossa democracia. Carregavam a história consigo. Era um tempo em que o parlamento não estava povoado por gnomos políticos, em que representar o povo não era motivo de suspeita geral e em que governar era um pouco mais do que gerir decisões alheias.  Mas não vale a pena inventar personagens que não batem certo com os atores.

 

Não se trata de uma hagiografia, avisa a hagiógrafa depois de distinguir o presidente PSD de uma classe política que exerce o poder "como se fosse um bando de bandidos" e de dizer que espera, "no mínimo, que ele consiga manter o capital que conseguiu até hoje". Sabemos que teremos a liderar o País, se os desejos de Cabrita e Crespo se realizarem, um homem que vive num apartamento de Massamá, sem luxos, e que trata das obrigações domésticas antes da esposa chegar a casa. Que espalha pela mesa da sala de jantar os livros e os papéis que utiliza como objectos de meditação para a "volta a dar ao país se o vier a governar".

 

Temos assim garantido um olhar distanciado e sereno de uma jornalista de mão cheia. Promete que ao lermos o seu trabalho teremos direito a um momento "a que não estamos habituados em Portugal": "conhecer em quem é que votamos". De facto, não fosse Felícia Cabrita e nunca se lançaria uma biografia simpática sobre um político em véspera de eleições. Desde o "menino de ouro", de outra jornalista sobre outro político, que não se via tanta ousadia.

 

Para encher 184 páginas com uma vida que se conta relativamente depressa, Felícia Cabrita não deixou nada de fora. Com a elegância literária que lhe é reconhecida, oferece-nos pormenores sobre a relação, na adolescência, do possível futuro primeiro-ministro com a sua genitália. Podíamos lá nós viver sem este "escrutínio público".

 

No "estilo voyeurista da crónica social" (palavras de Mário Crespo), o livro oferece-nos pérolas que ficarão para a história do sempre tão desprezado género biográfico. O momento mais belo  é aquele que retrata a intensa relação intelectual que Passos Coelho mantém  com os seus caninos seguidores. Não, não me refiro a Miguel Relvas. "As caniches, companheiras de muitos anos, aconchegam-se-lhe mal se senta em frente à lareira ainda sem brasas e escutam-no como se nenhuma das suas palavras fosse desperdício". Hoje somos duas, amanhã seremos milhões, já rezava, mais coisa menos coisa, o velho slogan do PPD.

 

Publicado no Expresso Online

Que é lá isso? Querem avaliar o avaliador?

Daniel Oliveira, 01.04.11
As agências de notação financeira advertiram a Comissão Europeia de que poderão deixar de atribuir notações aos países de risco se Bruxelas prosseguir com a ideia de os responsabilizar juridicamente por erros de avaliação.</div> O clima de tensão entre o Executivo europeu e as três principais agências de “rating” – Moody’s, Standard & Poor’s e Fitch - está assim a intensificar-se, segundo fontes do sector, citadas pela Reuters. Este agravamento deu-se depois de a S&P ter cortado as classificações de Portugal e da Grécia, tendo a notação portuguesa ficado a apenas um nível do chamado “lixo” e a grega abaixo do “rating” do Egipto – país que está a atravessar um momento político delicado depois da revolta social que levou ao derrube do regime de Hosni Mubarak. As agências estão preocupadas com estas propostas de Bruxelas, receando ficar expostas a pedidos de reembolso de crédito por parte de milhares de detentores de obrigações soberanas, realça a Reuters.</div> </div>

Venha Abril

Ana Mafalda Nunes, 01.04.11

 

A ideia de não ter, este ano, de assistir à infame representação de hipocrisia politica, que é a habitual celebração do 25 de Abril na Assembleia da Republica,  remete-me para este tema do filósofo-cantor José Barata Moura.

Ainda assim, sorte infeliz a nossa, que não nos livrará do chorrilho de palavras vazias, ao estilo de eloquência António Silva em "O Pátio das Cantigas",  que o Sr. Aníbal terá de proferir para cumprir a agenda presidencial.

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