Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

O negócio dos abutres que nos "ajudam"

Daniel Oliveira, 24.04.11

O FMI teve lucros em quatro dos últimos seis anos fiscais - entre 2005 e 2010 - e já reviu em alta de 63 por cento as previsões de resultados operacionais para este ano, graças aos empréstimos aos países europeus em dificuldades. As previsões de 328 milhões de SDR (524,8 milhões de dólares, ao câmbio de hoje) comparam com projeções iniciais de 202 milhões de SDR, feitas em abril de 2010, e refletem os reflexos positivos -- para as contas do fundo -- dos empréstimos à Grécia e à Irlanda, sem contar ainda com o empréstimo a Portugal, cujo valor ainda não foi fixado. Os novos empréstimos, aprovados depois de abril de 2010, incluindo os 30 mil milhões de euros à Grécia e os 22,5 mil milhões à Irlanda, "fizeram aumentar as previsões de resultados de crédito em cerca de 102 milhões de SDR [163,2 milhões de dólares], incluindo 74 milhões de SDR em taxas de serviço e 28 milhões nas margens da taxa de juro cobrada", refere um recente relatório financeiro do FMI. Aqui

Moving/Supergrass

Sérgio Lavos, 22.04.11

 

 

 Uma das bandas resistentes da britpop anos 90 é também uma das mais subvalorizadas desta e de todas as décadas. Os Supergrass começaram por ser um conjunto de adolescentes com mais acne do que originalidade musical, mas sempre tiveram um jeito especial para melodias que fazem lembrar o melhor do rock clássico, dos Rolling Stones aos Beatles, passando pelo mais britânico Paul Weller e todos os projectos por onde este passou. Música para ouvir descontraidamente, sem pretensões mas com bastante ritmo, melhores do que os Oasis sem fazerem nada por isso, um swing fabuloso. Moving é um excelente exemplo de tudo isto. 

Um manifesto contra a resignação

Miguel Cardina, 22.04.11

Aqui fica, na íntegra, o manifesto dos 74 nascidos depois do 25 de Abril. Afirmam não se resignar com a erosão do património material e simbólico decorrente dessa ruptura democrática e consideram que nos dias de hoje se configura uma séria ofensiva que exige uma mobilização cidadã equivalente. Vale a pena ler:

 

O inevitável é inviável: Manifesto dos 74 nascidos depois de 74

 

Somos cidadãos e cidadãs nascidos depois do 25 de Abril de 1974. Crescemos com a consciência de que as conquistas democráticas e os mais básicos direitos de cidadania são filhos directos desse momento histórico. Soubemos resistir ao derrotismo cínico, mesmo quando os factos pareciam querer lutar contra nós: quando o então primeiro-ministro Cavaco Silva recusava uma pensão ao capitão de Abril, Salgueiro Maia, e a concedia a torturadores da PIDE/DGS; quando um governo decidia comemorar Abril como uma «evolução», colocando o «R» no caixote de lixo da História; quando víamos figuras políticas e militares tomar a revolução do 25 de Abril como um património seu. Soubemos permanecer alinhados com a sabedoria da esperança, porque sem ela a democracia não tem alma nem futuro.

 

O momento crítico que o país atravessa tem vindo a ser aproveitado para promover uma erosão preocupante da herança material e simbólica construída em torno do 25 de Abril. Não o afirmamos por saudosismo bacoco ou por populismo de circunstância. Se não é de agora o ataque a algumas conquistas que fizeram de nós um país mais justo, mais livre e menos desigual, a ofensiva que se prepara – com a cobertura do Fundo Monetário Internacional e a acção diligente do «grande centro» ideológico – pode significar um retrocesso sério, inédito e porventura irreversível. Entendemos, por isso, que é altura de erguermos a nossa voz. Amanhã pode ser tarde.

 

O primeiro eixo dessa ofensiva ocorre no campo do trabalho. A regressão dos direitos laborais tem caminhado a par com uma crescente precarização que invade todos os planos da vida: o emprego e o rendimento são incertos, tal como incerto se torna o local onde se reside, a possibilidade de constituir família, o futuro profissional. Como o sabem todos aqueles e aquelas que experienciam esta situação, a precariedade não rima com liberdade. Esta só existe se estiverem garantidas perspectivas mínimas de segurança laboral, um rendimento adequado, habitação condigna e a possibilidade de se acederem a dispositivos culturais e educativos. O desemprego, os falsos recibos verdes, o uso continuado e abusivo de contratos a prazo e as empresas de trabalho temporário são hoje as faces deste tempo em que o trabalho sem direitos se tornou a norma. Recentes declarações de agentes políticos e económicos já mostraram que a redução dos direitos e a retracção salarial é a rota pretendida. Em sentido inverso, estamos dispostos a lutar por um novo pacto social que trave este regresso a vínculos laborais típicos do século XIX.

 

O segundo eixo dessa ofensiva centra-se no enfraquecimento e desmantelamento do Estado social. A saúde e a educação são as duas grandes fatias do bolo público que o apetite privado busca capturar. Infelizmente, algum caminho já foi trilhado, ainda que na penumbra. Sabemos que não há igualdade de oportunidades sem uma rede pública estruturada e acessível de saúde e educação. Estamos convencidos de que não há democracia sem igualdade de oportunidades. Preocupa-nos, por isso, o desinvestimento no SNS, a inexistência de uma rede de creches acessível, os problemas que enfrenta a escola pública e as desistências de frequência do ensino superior por motivos económicos. Num país com fortes bolsas de pobreza e com endémicas desigualdades, corroer direitos sociais constitucionalmente consagrados é perverter a nossa coluna vertebral democrática, e o caldo perfeito para o populismo xenófobo. Com isso, não podemos pactuar. No nosso ponto de vista, esta é a linha de fronteira que separa uma sociedade preocupada com o equilíbrio e a justiça e uma sociedade baseada numa diferença substantiva entre as elites e a restante população.

 

Por fim, o terceiro e mais inquietante eixo desta ofensiva anti-Abril assenta na imposição de uma ideia de inevitabilidade que transforma a política mais numa ratificação de escolhas já feitas do que numa disputa real em torno de projectos diferenciados. Este discurso ganhou terreno nos últimos tempos, acentuou-se bastante nas últimas semanas e tenderá a piorar com a transformação do país num protectorado do FMI. Um novo vocabulário instala-se, transformando em «credores» aqueles que lucram com a dívida, em «resgate financeiro» a imposição ainda mais acentuada de políticas de austeridade e em «consenso alargado» a vontade de ditar a priori as soluções governativas. Esta maquilhagem da língua ocupa de tal forma o terreno mediático que a própria capacidade de pensar e enunciar alternativas se encontra ofuscada. Por isso dizemos: queremos contribuir para melhorar o país, mas recusamos ser parte de uma engrenagem de destruição de direitos e de erosão da esperança. Se nos roubarem Abril, dar-vos-emos Maio!

 

Alexandre de Sousa Carvalho – Relações Internacionais, investigador; Alexandre Isaac – antropólogo, dirigente associativo; Alfredo Campos – sociólogo, bolseiro de investigação; Ana Fernandes Ngom – animadora sociocultural; André Avelãs – artista; André Rosado Janeco – bolseiro de doutoramento; António Cambreiro – estudante; Artur Moniz Carreiro – desempregado; Bruno Cabral – realizador; Bruno Rocha – administrativo; Bruno Sena Martins – antropólogo; Carla Silva – médica, sindicalista; Catarina F. Rocha – estudante; Catarina Fernandes – animadora sociocultural, estagiária; Catarina Guerreiro – estudante; Catarina Lobo – estudante; Celina da Piedade – música; Chullage - sociólogo, músico; Cláudia Diogo – livreira; Cláudia Fernandes – desempregada; Cristina Andrade – psicóloga; Daniel Sousa – guitarrista, professor; Duarte Nuno - analista de sistemas; Ester Cortegano – tradutora; Fernando Ramalho – músico; Francisca Bagulho – produtora cultural; Francisco Costa – linguista; Gui Castro Felga – arquitecta; Helena Romão – música, musicóloga; Joana Albuquerque – estudante; Joana Ferreira – lojista; João Labrincha – Relações Internacionais, desempregado; Joana Manuel – actriz; João Pacheco – jornalista; João Ricardo Vasconcelos – politólogo, gestor de projectos; João Rodrigues – economista; José Luís Peixoto – escritor; José Neves – historiador, professor universitário; José Reis Santos – historiador; Lídia Fernandes – desempregada; Lúcia Marques – curadora, crítica de arte; Luís Bernardo – estudante de doutoramento; Maria Veloso – técnica administrativa; Mariana Avelãs – tradutora; Mariana Canotilho – assistente universitária; Mariana Vieira – estudante de doutoramento; Marta Lança – jornalista, editora; Marta Rebelo – jurista, assistente universitária; Miguel Cardina – historiador; Miguel Simplício David – engenheiro civil; Nuno Duarte (Jel) – artista; Nuno Leal – estudante; Nuno Teles – economista; Paula Carvalho – aprendiz de costureira; Paula Gil – Relações Internacionais, estagiária; Pedro Miguel Santos – jornalista; Ricardo Araújo Pereira – humorista; Ricardo Lopes Lindim Ramos – engenheiro civil; Ricardo Noronha – historiador; Ricardo Sequeiros Coelho – bolseiro de investigação; Rita Correia – artesã; Rita Silva – animadora; Salomé Coelho – investigadora em Estudos Feministas, dirigente associativa; Sara Figueiredo Costa – jornalista; Sara Vidal – música; Sérgio Castro – engenheiro informático; Sérgio Pereira – militar; Tiago Augusto Baptista – médico, sindicalista; Tiago Brandão Rodrigues – bioquímico; Tiago Gillot – engenheiro agrónomo, encarregado de armazém; Tiago Ivo Cruz – programador cultural; Tiago Mota Saraiva – arquitecto; Tiago Ribeiro – sociólogo; Úrsula Martins – estudante

A psicose nacional

Sérgio Lavos, 21.04.11

 

O cerco aperta. O desespero cresce. A esperança diminui. Parece não haver um fundo para o poço. Estaremos perdidos em breve.

 

A psicose milenarista cavalga as vagas da crise nacional. Claro que sabemos como tudo começou, e no fundo desconfiamos de uma ou outra solução mais justa e, sobretudo, realista, para sairmos do buraco onde nos metemos, mas preferimos a angústia de um futuro inexistente a qualquer ideia diferente das que nos são impostas pelos malagridas dos jornais e das TV’s. Basbaques olhando para o ar esgazeado de Medina Carreira, zombies delirando perante as apocalípticas palavras de Vasco Pulido Valente, renovamos a nossa desconfiança diariamente. Merecemos os arautos da desgraça. O conforto da desistência é uma doce almofada onde repousamos a cabeça. Se a solução não passou pelos sucessivos PEC’s, se não passará pela intervenção da UE e do FMI, então que se lixe, cairemos sem honra nem glória. Mas aproveitemos enquanto dura. Gastemos o pouco que nos resta nas parcerias público-privadas da nossa vidinha. Enchamos os hotéis do nosso Allgarve, viajemos, escapemos ao estertor da crise embriagados pela réstia de tédio existencial a que temos direito, consumamos, amemos os produtos que um dia irão escassear.

 

Sempre acreditando no que o sistema tem para nos oferecer, aceitando a santa palavra dos gurus que nos trouxeram aqui. Cada remendo na economia é um bálsamo que sabemos não ir resultar, mas cremos, como cremos. Cremos porque queremos continuar a saber que a desgraça é nossa culpa, e porque no fundo desconfiamos das medidas que nos dizem salvadoras. Como desconfiamos, anuimos. Se a Grécia está no abismo do FMI, é esse o caminho que queremos seguir. Se a Irlanda tem de pagar o preço do salvamento dos bancos, então nós também temos. Tanta auto-indulgência faz bem ao ego estilhaçado do país.

 

E mais um cheiro de desgraça, mais um prego no caixão desta indulgência, este texto. Não é o que escrevo melhor nem pior do que a média nacional (ainda que a média nacional seja no fundo bem superior à média mundial ou mesmo europeia). Habituado que estou à praga catastrofista, embarco de bom grado nela; porque, lá está, não sou melhor do que a média. E produzo? Certamente, mas nunca o suficiente. Talvez mais do que a média, mas poderei eu dizer que aqueles que nos governaram e governam são piores ou mais incompetentes do que a média? Ninguém sabe. Os vícios dos políticos são outros, não tanto a preguiça. Acredito piamente no esforço, na dedicação, no suor dos nossos governantes. Que esse esforço seja quase sempre mal direccionado, muitas vezes mal-intencionado e amiúde certamente criminoso, pormenores da história. A culpa será sempre nossa; a democracia é tão tramada como o regime psicanalítico da moral judaico-cristã. O pecado original do português é não se importar em ser mal governado. Sentimos culpa por termos um pouco mais que os nossos pais, e sabemos que, no fundo, não o merecemos. É bem feito que uns senhores chegados de avião no meio do nevoeiro que cobre o país nos venham tirar o que fomos acumulando. Resgatar-nos do nosso mediano comodismo. É a maldita culpa.

 

Contudo, rejubilemos. No entanto, esperemos – até porque nada mais podemos fazer. Parece que todos os precipícios têm fundo, e certamente que um dia haverá crescimento económico. Se entretanto regredirmos umas décadas em direitos sociais, em conquistas democráticas, é para o nosso bem. A purga é necessária. O caminho é apenas um, sigamos o próximo Messias. Em direcção ao abismo. Nem que seja.

 

(Texto publicado no Delito de Opinião.)