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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Os tampões de Américo Amorim

Daniel Oliveira, 30.11.11

Sabíamos que o homem mais rico de Portugal não era rico. Era apenas um trabalhador, nas suas próprias palavras. As Finanças foram ver as contas deste humilde trabalhador - o mesmo que, ainda a crise não tinha a começado, já estava a fazer despedimentos preventivos nas suas empresas - e descobriu umas irregularidades. Quer-lhe cobrar mais 750 mil euros de IRC. E ele, claro, que é apenas um trabalhador, recusa-se a pagar.

 

Parece que os Serviços de Inspeção da Direção de Finanças de Aveiro descobriram centenas de milhões de euros em despesas pessoais na empresa Amorim Holding2. Entre elas, viagens da família a destinos turísticos, massagens, contas de mercearia e tampões higiénicos que, só não sabe quem não passou por isso, são fundamentais para o desempenho profissional de Américo Amorim. Na empresa mãe deste simples trabalhador encontrou 3,1 milhões de despesas indevidas.

 

Quero manifestar aqui a minha solidariedade com Américo Amorim. É escandaloso que, com tanta gente rica a fugir aos impostos, vão atrás da arraia miúda. E nada escapa a este espírito pidesco. É que um homem nem pode passar por dias difíceis? Diz-se que os artigos de higiene feminina que usou para fugir ao fisco são de boa qualidade quando não se sentem e não se veem. É como os impostos do senhor Amorim: ele não os sente e nós não os vemos.

 

Publicado no Expresso Online

 

 

 

O carro de Mota Soares e o efeito boomerang do populismo

Daniel Oliveira, 29.11.11

 

Antes de mais, devo dizer que, em geral, me incomoda o debate político que se centra nas aparências. É preguiçoso. Quem leia os mails irados que por aí circulam fica convencido que os problemas financeiros do Estado e do País resultam de motoristas, gabinetes, secretárias, carros e assessores. Infelizmente, a nossa situação é bem mais complexa do que isso. Nem todo o parque automóvel do Estado chegaria para pagar as parcerias público-privado.Nem todos os assessores ministeriais chegariam para tapar o buraco do BPN. Nem todas as reformas vitalícias pagavam a fatura dos dois submarinos que comprámos e que um dia saberemos exatamente porquê. E nem todas as cruzadas contra o despesismo dos boys laranja e rosa resolveriam o nosso endividamento externo e as razões que a ele levaram.

 

Resumindo: acho importante a moralização do comportamento dos que resolvem entregar-se ao serviço público e estranho sempre a falta de cuidado com que tratam o dinheiro que nos pertence a todos. Deve ser debatido de uma forma séria e alargada. Mas incomoda-me que demasiadas vezes isso sirva para deixar o debate político que interessa de fora dos holofotes.

 

No entanto, este governo tem-se servido de um discurso populista para justificar o seu ataque sem precedentes ao Estado Social. Lança para cá para fora os salários de apresentadores de televisão para privatizar a RTP. Lança para a comunicação social mentiras sobre as férias dos trabalhadores da Carris (dizendo que têm 30 dias de férias e omitindo que na empresa o tempo de trabalho se mede por dias corridos, correspondendo essas férias aos mesmos 22 dias dos restantes trabalhadores) para justificar a sua criminosa política de transportes. Usa o descontentamento das pessoas com o clientelismo que PSD, PS e CDS alimentaram durante décadas para justificar os negócios que anda a preparar com o que é de todos nós.

 

E avança com medidas simbólicas para a moralização do Estado que, quando são escrutinadas, percebe-se que nunca chegaram realmente a acontecer - lembram-se das férias dos deputados? Ou demasiado patéticas para sequer merecerem a nossa atenção - lembram-se do fim das gravatas no ministério da Agricultura? Tudo serve para que os debates essenciais não se façam enquanto as medidas são tomadas.

 

Quando vi Pedro Mota Soares chegar de vespa a um Conselho de Ministros achei graça. Não pelo exemplo de desapego, que me pareceria fazer pouco sentido. Mas pela falta de pompa, que me agrada. Não acho que os ministros tenham de andar de transportes públicos para ser bons ministros. Tenho pouca paciência para esse moralismo. Mas acho que daria jeito que os ministros soubessem o que são os transportes públicos e espanta-me que seja tão difícil encontrar responsáveis políticos em lugares públicos. Assim como me espanta que o estatuto das pessoas seja avaliado, neste País (e não apenas no Estado), pela cilindrada do carro que têm.

 

Acontece que, afinal, a vespa de Pedro Mota Soares era, como quase tudo neste governo, fogo de vista. Ficámos a saber que, no seu trabalho, usa um carro de 86 mil euros. Alugado por quatro anos. Não esperaria que o ministro da Solidariedade se deslocasse pelo País, com uma agenda que seguramente é carregada, numa scooter. Não me incomodaria que ele se fizesse transportar num carro confortável onde pudesse ir trabalhando enquanto viaja. Mas é indispensável que o faça num carro tão caro? Quando o seu sensível Ministério levou um corte brutal, quando se tiram prestações sociais a tanta gente que passa dificuldades inimagináveis, não seria de bom tom manter alguma parcimónia nos seus próprios gastos?

 

Podia fazer as contas de quantas prestações sociais se poderiam ter poupado com este carro. Não o faço porque não acho que seja o debate que interessa. Não o faço porque, mais uma vez, o ataque ao papel social do Estado e a sua transformação em caridade para miseráveis não se evitaria com a devolução do carro de Pedro Mota Soares. Apenas me fico por isto: quer este governo continuar a fazer populismo com os direitos dos outros, passando a ideia de que se tratam de preguiçosos a viver pendurados no Estado? Se quer, cada um dos seus ministros, secretários de Estado e assessores acabará por ser apanhado numa qualquer despesa injustificada. Porque se é nesse patamar que colocam o debate político é nesse patamar que o terão.

 

Sim, um carro de 86 mil euros para um ministro que dedica grande parte do seu tempo a tirar aos que mais necessitam apoios sociais incomoda-me. Mas se Pedro Mota Soares andasse num carro bem mais barato, de autocarro ou a pé a minha opinião sobre as medidas que está a tomar não seria diferente. E isso é que conta.

 

Publicado no Expresso Online

O futebol deve ser apenas para quem dele gosta

Sérgio Lavos, 28.11.11

 

Quem gosta verdadeiramente de futebol gosta pouco ou nada de tudo o que é lateral ao jogo. Este fim-de-semana, houve um Benfica-Sporting bem disputado, futebol aberto, com bastantes oportunidades de golo. Um jogo emocionante. Para variar, até a equipa da arbitragem esteve à altura. Dois dias depois, do que é que se fala? Dos actos de um grupo reduzido de adeptos que decide pegar fogo às cadeiras do Estádio da Luz; da caixa de segurança - relembre-se, uma estrutura usada em vários estádios na Europa, aprovada pela Liga de Clubes e pelo próprio Sporting numa visita feita em meados de Novembro; das declarações dos dirigentes. Mais uma vez, lamentável. Quem costuma ir aos estádios sabe que, em jogos grandes, há dois tipos de adeptos: os normais, que convivem nas bancadas amistosamente com adeptos de clubes rivais, e os anormais, os que vão para os topos entoar cânticos de insulto a adversários e até a clubes que não estão em campo, os que deixam um rasto de destruição a caminho do estádio, os que destroem propriedade privada quando a frustração canina da derrota lhes tolda os poucos neurónios que ainda flutuam no enorme vazio que está no lugar do cérebro, os que agridem bombeiros que se preparam para fazer o seu trabalho, colocando em risco a sua própria vida e a dos inocentes que os rodeiam

 

Há quem diga que as claques são necessárias, que trazem animação ao estádio. Não nego. Mas também é verdade que são sempre elas que provocam distúrbios antes, durante e depois das partidas. E tem de se fazer alguma coisa em relação a isto. Em Inglaterra, a solução foi simples: tratar os hooligans como indivíduos e não como parte de uma massa de pessoas. A violência nos estádios praticamente desapareceu neste país porque os adeptos violentos identificados pela polícia e pelos clubes passaram a ser proibidos de assistir a partidas de futebol. E se a violência está intrinsecamente ligada a uma claque, ao seu conjunto - como é o caso do colectivo Sporting 1143, agremiação de skinheads que se dizem fãs de futebol - ela deverá ser simplesmente erradicada dos estádios de futebol.

 

Mas há quem não entenda algo tão fácil de perceber: que a violência não faz parte do jogo, que o ódio deve ficar à porta do estádio. Os dirigentes, que deveriam dar o exemplo, também entram demasiadas vezes neste esquema, incitando directa ou indirectamente à violência. Aconteceu este fim-de-semana com o vice-presidente do Sporting, Paulo Pereira Cristovão, que mal acabou a partida veio acicatar ódios e desviar as atenções da derrota que o seu clube acabava de sofrer. Ontem, também voltou a suceder o inconcebível: um jornalista da TVI foi insultado por Pinto da Costa e agredido por elementos da empresa de segurança do Estádio do Dragão. Não é a primeira vez que um dirigente - e em particular, que Pinto da Costa - anda metido nestas brincadeiras perigosas. Haverá consequências, no plano desportivo, disciplinar ou legal? Infelizmente, sabemos que não. A impunidade é a regra no mundo do futebol. Enquanto não existir uma estrutura que seja independente dos clubes mais poderosos para julgar estes casos e leis mais penalizadoras para os autores deste tipo de actos, as coisas continuarão na mesma. 

 

Há quinze anos, um adepto sportinguista morreu num estádio de futebol atingido por um very light. O autor do disparo, um membro de uma claque benfiquista, foi julgado e condenado. Mas este tipo de objectos continua a entrar nos recintos desportivos. Os clubes não querem controlar quem vai à bola com outra intenção que não seja ver o "belo jogo". Fecham os olhos à violência fora do estádio e vão atiçando os ânimos ao longo da semana. Acontecer outra morte para que alguma coisa mude não pode ser uma opção. O futebol, o jogo jogado, tem de deixar de ser considerado apenas um pormenor no grande esquema das coisas. Se assim não for, quem perderá seremos nós, verdadeiros adeptos do que se passa ao longo de noventa minutos dentro das quatro linhas.

A brutalidade policial na greve

Miguel Cardina, 28.11.11

A actuação da polícia na última greve geral merece repúdio veemente. Assobiarmos para o ar significa ignorarmos a lei e deixarmos todo o espaço à brutalidade policial. Há indícios muito fortes da presença de polícias à paisana procurando criar tumultos junto à escadaria da Assembleia. Com particular destaque para este agente encapuçado, agridiram violentamente um indíviduo com um bastão extensível. Uma das testemunhas do facto é a deputada Ana Drago, que aqui o refere. Apesar de afirmarem que um inquérito se encontra aberto, a polícia e o governo, através do MAI, têm ajudado mais a confundir do que a clarificar o que se passou. Vale a pena, por isso, ler as perguntas que a Shyznogud faz.

A política de transportes deste Governo, a agenda de privatizações e a ignorância do ministro

Sérgio Lavos, 28.11.11

 

Elucidativo, este vídeo que não passou nas televisões (se tivesse passado é que seria surpreendente). O ministro Álvaro é a imagem deste Governo: mal preparado nas matérias sobre as quais decide e guiado por uma agenda de privatizações que se aproveita da crise para entregar empresas rentáveis a amigos e conhecidos e empresas essenciais ao bem público a baixarem o nível de qualidade dos serviços prestados devido aos cortes cegos. Uma desgraça.

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