As eleições autárquicas estão aí à porta, e ninguém acredita realmente nas palavras de Pedro Passos Coelho quando disse "Que se lixem as eleições!". A propaganda ensaiada nas últimas semana, apoiada num "regresso aos mercados" que não passa de uma fraude e que apenas aconteceu devido aos esforços do BCE, serve de rampa de lançamento dos autarcas do PSD e do CDS. Os dinossauros obrigados a abdicar de um quarto mandato dão um passo ao lado e candidatam-se numa autarquia vizinha, desprezando a lei de Paulo Rangel sobre a limitação de mandatos e gozando com a democracia que lhes paga os ordenados. O PSD e o CDS aceitam tudo - Luís Filipe Menezes e Fernando Seara não são epifenómenos, são a essência do sistema partidário infestado de corrupção, compadrios e jogos de interesses. A constituição e a legalidade são empecilhos que, quando necessário, têm de ser ultrapassados, de comum acordo com a maior parte da população, que aceita passivamente a corrupção e a vulgar politiquice. Uma nação de zombies anestesiados pela crise, eis aquilo em que rapidamente nos tornámos, evidenciando à saciedade que o povo que abraçou durante 48 anos uma ditadura fascista passou os genes tóxicos para as gerações que se seguiram.
E os políticos e a elite económica que deles depende, raça apurada desta genética contaminada pela passividade e pela não-inscrição, vão fazendo o que querem, quando querem, como querem. Só um povo profundamente domesticado aceita a sodomização que, de tempos a tempos, lhe é infligida por gente que há décadas vampiriza o trabalho das classes mais desfavorecidas. Só um povo irremediavelmente adormecido nada faz quando Fernando Ulrich, no dia em que anuncia lucros no seu banco, obtidos em larga medida via juros pagos pelo contribuinte português pela dívida contraída pelo Estado, se compara a um sem abrigo e calca as pessoas que sofrem com as medidas que visam espoliar o contribuinte de parte dos seus rendimentos para pagar ao seu banco. O "aguentam, aguentam" é um vómito de escárnio atirado a todos nós. Aguentamos, aguentamos, porque o BPI e os outros bancos precisam que aguentemos para que a riqueza continue a ser canalizada para as contas do sr. Ulrich, do sr. Salgado e do sr. Oliveira e Costa. E o Governo confere legitimidade, acentua a exploração. Quando um antigo administrador da SLN, que admitiu não ter denunciado ao Banco de Portugal os negócios pouco escrupulosos daquela sociedade com o Banco Insular de Cabo Verde, tendo acabado por demitir-se, é nomeado Secretário de Estado, o Governo assume aquilo que todos já sabíamos: a crise está a ser uma oportunidade irrepetível para testar a elasticidade moral do regime. Tudo se tenta: desde um Miguel Relvas perpetuando-se na sua cadeira para continuar a favorecer amigos em negócios, até ao primeiro-ministro mais demencialmente mitómano que já passou pelo Governo, tudo é, e será, possível. Este é um Governo que ostensivamente desrespeita e despreza a Constituição, a lei fundamental do país. Este é um Governo que fará tudo ao seu alcance, legal e ilegalmente, para derrotar o regime que conquistámos com o 25 de Abril. É um Governo de revanchistas, de reaccionários que pretendem o fim de todas as conquistas sociais que a democracia conseguiu. E nós estamos calmamente a assistir a tudo, como meros espectadores de uma tragédia. E agirmos apenas como espectadores, quando somos os principais prejudicados, ainda torna maior a tragédia. Eles estão a ganhar.


