Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

Bananas

Sérgio Lavos, 22.08.13

 

Este é um país definitivamente maravilhoso. No caso dos submarinos submergentes e emergentes, toda a gente minimamente relacionada com o negócio é indiciada por corrupção, menos o responsável final pela compra, o irrevogável Paulo Portas. Na Alemanha, a Ferrostal (empresa que vendeu os submarinos a Portugal) foi julgada por corrupção activa, tendo-se provado que pagou luvas a "desconhecidos" portugueses para que a compra dos submarinos fosse efectivada. Quem decidiu a compra foi Portas, mas ele continua por aí, com todo o sentido de Estado, como se nada fosse, e o seu nome nem sequer é referido na maior parte das notícias sobre o caso. Os telejornais ocupam metade do seu tempo com notícias sobre fogos e a outra metade com futilidades mais ou menos políticas, "esquecendo-se" de destacar um caso tão grave como este. Nada nos distingue de uma república das bananas. Continuemos a votar nos mesmos de sempre.

Judite de Sousa Vs Lorenzo

Bruno Sena Martins, 18.08.13

 

Numa entrevista sem outro respaldo editorial que a busca de audiência, Judite de Sousa achou-se na obrigação de escamotear o mais óbvio sensacionalismo cor-de-rosa com a putativa denúncia da extravagância dos ricos em momentos de crise. 

 

Judite de Sousa escolheu um rico conveniente e procurou humilhá-lo em nome de todos os que em Portugal sofrem com a auteridade: foi constrangedor, absurdo e vagamente cruel.

 

Ao contrário do herdeiro mimado que se portou com exemplar temperança perante o ataque desmedido, e cujo dinheiro esbanjado em festas certamente faz mais pela economia portuguesa do que a colecção de sapatos da jornalista, Judite de Sousa não percebeu que foi ela a usar de forma ignominiosa os recursos que nunca fez por merecer:

 

1: Ao usar a denúncia das desigualdades contra alguém que não tem responsabilidades pelas escandalosas injustiças que grassam no país (bem ao contrário dos muitos políticos e poderosos perante quem, semana após semana, baixa a bolinha);

2: Ao acenar a responsabilidade social dos ricos como mecanismo de equalização social (a celebração da caridade e do mecenato é cúmplice com despolitização da desigualdade alicerçada nas prerrogativas do capitalismo neoliberal);

3: E ao usar o sofrimento dos portugueses, de que não hesitou em fazer-se de porta-voz, para dar face noticiosa ao lixo informativo de que é assídua praticante.

Alegria

Sérgio Lavos, 15.08.13

Enquanto a claque governativa atira os foguetes e apanha as canas com a queda de 2% na economia em relação ao 2.º trimestre de 2012, os cortes vão sendo feitos ao estilo de um talhante cego, e o pacote de austeridade que obriga a redução de despesa nos ministérios continua a ser aplicado, sem complacência. 

 

Na Educação, sete mil professores entraram na antecâmara do despedimento, empurrados pela redução drástica do número de turmas por todo o país, que vai deixar muitos alunos já inscritos sem saberem sequer se vão ter lugar na escola onde se matricularam durante o mês de Julho. Na melhor das hipóteses, veremos turmas a ultrapassarem os trinta alunos, como já vieram denunciar alguns directores de agrupamentos.

 

Na Saúde, cortes generalizados levaram a que medicamentos não estejam a ser fornecidos nos hospitais, e que tratamentos não estejam a ser feitos aos doentes oncológicos. Do mesmo modo, medicamentos essenciais no pós-tratamento, que evitam o reaparecimento do cancro, também deixaram de ser receitados. Para além disso, a partir de 2 de Setembro apenas haverá uma urgência completa a funcionar em Lisboa durante o período nocturno, servindo mais de 700 000 pessoas. O que significa isto? O reduzido número de especialistas, concentrados apenas numa unidade, levará a que cuidados de saúde urgentes deixem de ser prestados. Sabemos como já funcionam os serviços de urgência na área de Lisboa. Imagine-se o caos que será um espaço apenas recebendo todos os doentes de Lisboa. 

 

Caminhamos em sentido contrário à civilização, mas alegremente há quem aplauda este retrocesso e lhe chame "reforma do Estado". É o melhor dos mundos.

Geralmente, a respeitabilidade de uma família de ladrões ricos só se consegue na terceira geração

Daniel Oliveira, 15.08.13

 

Expor os ladrões onde mais lhes custa leva-os a reagir. Isabel dos Santos, uma das mulheres mais ricas dos mundo, que nunca teve de fazer nada a não ser receber do pai o resultado do saque aos angolanos, começa a perder a respeitabilidade que desejava comprar. Por cá, vai conseguindo. Mas correu-lhe mal onde menos esperava. Já veio dizer que é tudo obra de interesses escondidos, que Rafael Marques não passa de um activista político e de que tudo o que tem nada deve ao cargo ocupado pelo seu pai. É possível que ela própria acredite. Os cleptomaníacos são dados à mitomania. E os mitómanos tendem a acreditar nas suas próprias mentiras.

Ao virar da esquina

Sérgio Lavos, 14.08.13

 

O Governo e a troika andam há dois anos a escavar um túnel do qual não se via o fim. Passado todo este tempo, viram uma luzinha, sob a forma de uma ténue recuperação da economia, estimulada pelo aumento das entradas de turistas em Portugal e pela exportação de combustíveis refinados, depois da construção de mais uma unidade de refinação pela Galp em Sines. Este aumento da exportação das combustíveis também teve reflexo no aumento das importações (o primeiro trimestre onde isso aconteceu desde 2011), devido à evidente necessidade de crude que a nova unidade de refinação implica. Claro que também não devemos esquecer que grande parte dos empregos criados são precários - recibos verdes, contratos a prazo ou através de empresas de trabalho temporário -, e que só houve verdadeira criação de emprego nos salários até 310 euros

 

A destruição da economia nacional, levada a cabo com entusiasmo, transformou o mercado laboral numa autêntica selva, bem ao gosto dos espíritos neoliberais que por aí gralham. Chegámos a um ponto em que o desemprego de longa duração nunca foi tão elevado. Por isso, é natural que as pessoas tenham começado a aceitar o que aparece, sendo que o que aparece é trabalho mal remunerado, sem direitos, e em condições sub-humanas (como acontece na agricultura, o sector económico que mais emprego produziu nos últimos dois anos, quase sempre precário ou sazonal). 

 

Mesmo assim, se este abrandar da recessão se traduzisse num verdadeiro florescimento económico, os números revelados hoje pelo INE seriam uma boa notícia. Mas tudo indica que não será assim. Primeiro, porque passado o Verão e os efeitos da sazonalidade, aumentará certamente o desemprego. Segundo, porque o trimestre de abrandamento da recessão corresponde a um período de tempo durante o qual não houve novas medidas de austeridade, tendo até algumas das previstas para 2013 sido travadas pela decisão do Tribunal Constitucional. Com mais dinheiro no bolso dos portugueses, é natural que a confiança e a poupança tenham crescido (ligeiramente) e que a redução de investimento tenha sido menos acentuada. Mas Setembro está aí ao virar da esquina, e com ele mais um corte brutal no rendimento das famílias e um previsível aumento do desemprego, via despedimento colectivo na função pública. O Governo poderia aproveitar esta folga na economia para deixar respirar os portugueses e acabar com a austeridade recessiva. Não o vai fazer. Se assim for, o trimestre que passou será o único positivo do ano. 

Idiots savants

Sérgio Lavos, 13.08.13

O Governo decidiu escolher um grupo de sábios para ajudar na distribuição dos fundos comunitários do programa QREN. Poderia parecer a primeira medida sensata em muitos meses, dada a escassez de inteligência, de capacidade de decisão e de sensatez que já é marca deste Governo cavacal. Mas é apenas mais um sinal de uma ausência de cultura democrática. Quando a responsabilidade sobre o destino a dar a milhares de milhões de euros é depositada nas mãos de gente que não foi eleita e cujo mérito funda-se sobretudo na quantidade de aparições televisivas a botar faladura sobre a vida dos cidadãos portugueses, está tudo dito sobre o modo como este Governo olha para o exercício da política: uma elite iluminada pega no poder delegado pelo voto democrático e exerce-o de acordo com os seus interesses, fazendo letra morta, se preciso for, dos interesses daqueles que a elegeu. A mediocridade generalizada, quando aliada a uma profunda ausência de decoro e de ética, dá nisto. E agora é esperar para ver os comentadores nas televisões elogiando esta decisão do Governo - o tempo da democracia acabou há algum tempo, é agora a era da merdiocracia. Bem haja.

Vergonha e esquecimento

Sérgio Lavos, 12.08.13

 

O que diriam os americanos se fosse construída uma estátua de Bin Laden no centro de Nova Iorque? O que diriam os holandeses se fosse construída uma estátua de Hitler no centro de Amesterdão? O que dirão os portugueses se for construída uma estátua de um reconhecido terrorista de extrema-direita, apoiante de regimes fascistas como o de Salazar e o de Franco, autor moral de dezenas de atentados bombistas que provocaram várias mortes logo a seguir ao 25 de Abril - enquanto apoiante do ELP e do MDLP, a organização terrorista liderada pelo general Spínola* -, e suspeito da morte do padre Max? Se esses portugueses forem vereadores do PS no município de Braga, dirão que é uma excelente ideia e votarão a favor da implementação dessa estátua, um voto em sentido contrário aos do PSD e do CDS, que ou votaram contra ou abstiveram-se. Este voto favorável envergonha qualquer português que preze os valores democráticos e deveria envergonhar ainda mais um partido que mantém a palavra socialista no nome. A estátua, erguida à socapa por um grupo de saudosistas do fascismo numa rua de Braga, é um símbolo do esquecimento que vai tomando conta do país. A estátua do cónego Melo merece o mesmo tratamento dado ao padre Max - cuspir nela é pouco. A memória da noite negra do fascismo não pode ser apagada. 

 

*Corrigido.

 

Adenda: entretanto a estátua já teve o tratamento que merecia, como se pode ver na fotografia retirada do Público.

Patriotismo para espanhol e inglês verem

Daniel Oliveira, 12.08.13

Ver a Espanha com os seus enclaves no norte de África às turras com o Reino Unido por causa de Gibraltar tem sempre muita graça. Sim, Rajoy quer distrair os espanhóis dos problemas domésticos, assim como Cameron agradece pela manobra de diversão, que as coisas também não estão famosas lá por casa. Dois governos de direita a divertirem-se com os restos dos seus impérios coloniais é natural. É isto que lhes sobra de patriotismo. Porque em relação aos poderes internacionais que contam, baixam sempre a cabecinha.

O euro ou a democracia

Daniel Oliveira, 10.08.13



Em conjunto com a edição portuguesa do "Le Monde Diplomatique" deste mês é vendido o livro "Que fazer com este euro? – Portugal na tragédia europeia". Nele podem ler textos de Sandra Monteiro, Carlos Carvalhas, Francisco Louçã, João Galamba, José Vieira da Silva, Nuno Teles, Alexandre Abreu, Octávio Teixeira, João Rodrigues, Ricardo Noronha, Viriato Soromenho-Marques e Frédéric Lordon. E um texto meu. 

Tenho escrito várias vezes, no Expresso (quer na sua edição impressa, quer na edição online) sobre a saída do euro. Sempre concentrado nas suas repercussões financeiras e económicas. Desta vez, dediquei-me a outro tema, porque este assunto já foi tratado por mim e porque outros, no livro, o tratam bem melhor do que eu. Procuro antes resposta a uma questão política central deste debate: é possível salvar a nossa democracia no quadro desta moeda única? "A democracia ou o euro", é a escolha que ponho em cima da mesa. Vale a pena comprar o livro (em conjunto ou em separado com a edição do Le Monde Diplomatique). Uma reflexão colectiva e com contraditório à esquerda sobre as perguntas mais difíceis dos tempos que vivemos: se devemos sair ou ficar no euro? Como e porquê?