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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A revolução dos milagreiros

Daniel Oliveira, 04.11.13

O gabinete do ministro da Economia deve ter uma vista deslumbrante. De cada vez que um lá se instala logo vislumbra a saída da crise. Apenas uma coisa não bate certo: ainda há poucos meses, quando tudo estava apenas um pouco menos mau do que agora, Pires de Lima zurzia no que o governo andava a fazer. E, apesar de nada de substancialmente diferente está a ser feito agora, ele acha que estamos a assistir a um "milagre económico".

 

Mas imaginemos, por absurdo, que Pires de Lima não estava, como está, a delirar. Que havia mesmo sinais seguros de recuperação económica. Poderia, ainda assim, falar de milagre económico? Ele poderia incluir 28% de portugueses que deixaram de consumir alimentos essenciais? Poderia incluir mais de 16% de desempregados? Poderia incluir os dois terços dos desempregados não recebem qualquer subsídio ou rendimento? Poderia incluir a fuga em massa para o estrangeiro de jovens e de mão de obra qualificada? Poderia incluir falências atrás de falências?

 

Na cabeça de Passos Coelho, poderia. Porque não é bem para nós que ele governa. Por isso mesmo reduz o IRC, que apenas beneficia meia dúzia de grande empresas que não criarão com este excedente um único posto de trabalho, e não toca no IVA, cuja descida teria um efeito imediato em milhares de pequenos negócios. Porque a única economia que valoriza é aquela de que lhe falam os gestores e acionistas próximos do poder. E isto exclui a esmagadora maioria dos pequenos e médios empresários que, com os seus trabalhadores, fazem andar este país. E para quem a ideia de que vivemos um "milagre económico" só pode causar um esgar de espanto.

 

Não é maldade. Acredita apenas, como acreditavam alguns revolucionários perante os massacres, que este é o preço a pagar por amanhãs gloriosos. Que muitas empresas falirão, porque estavam destinadas a falir. Que muitos empregos se perderão, porque estavam destinados a ser perdidos. E que deste ambiente purificado, onde os mais fortes e audazes prevalecerão, nascerá uma economia mais saudável. A esse processo de destruição criativa, que na história acabou sempre em desgraça, Passos e seus aliados externos dão o nome de "ajustamento". Que passa por baixar drasticamente salários para supostamente aumentar as exportações, por destruir o mercado interno para reduzir as importações, fazendo de Portugal um país competitivo, dentro do euro, pela via do seu próprio subdesenvolvimento. E, perante um mar de pobreza de que algumas ilhas de prosperidade se alimentarão, restará um Estado pequeno para salvar os indigentes. 

 

O problema não é a maldade, é a cultura política e social destes governantes. Que lhes diz que um país próspero despende exclusivamente da existência de grandes empresas (que, como se verá pela PT e por algumas com importantes negócios em Angola, não demorarão muito a mudar o essencial do seu negócio para paragens mais interessantes). Uma cultura que despreza a distribuição equitativa da prosperidade (se ela existisse, claro). Que acredita que um crescimento económico sustentado é compatível com a pobreza e com a destruição do mercado interno. E que tem a ilusão de que a competitividade externa é possível com a perda diária de jovens quadros e de conhecimento.

 

Infelizmente, não há, como sabem as pessoas que desconfiam de milagres, sinais de recuperação. Acredito que Pires de Lima o saiba. Apenas terá percebido que contra a marcha dos loucos pouco pode fazer. Resta-lhe procurar sinais do fim deste pesadelo. Ele encontra milagres, o seu líder imagina-se em 1640. Cada maluco com o seu delírio. Mas quem conta, que é o primeiro-ministro, pensa como todos os megalómanos que se julgam predestinados: nem perante um país em ruínas se apercebe do fracasso. Aos seus olhos, as ruinas são apenas, como foram no passado para outros, as fundações duma sociedade regenerada.

 

Tenho ouvido dizer, sobre quem resiste a este "ajustamento", que noutros tempos seria chamado de engenharia social, que são conservadores. Mas só temos de andar um século para trás e está lá o futuro que nos prometem como novidade. Apenas mais globalizado. E é por isso que eu, pecador, me confesso: se é para recuar cem anos, serei o mais irredutível dos imobilistas. 

 

Publicado no Expresso Online

Salvar as Repúblicas

Miguel Cardina, 01.11.13

Em certa medida, todos os textos são pessoais. Mas este é um bocadinho mais pessoal do que os outros. Habitei numa República coimbrã durante parte significativa da minha vivência como estudante universitário. O que se segue é um lugar-comum, mas cá vai: a minha formação teria sido muitíssimo mais pobre sem essa experiência. Aí “adquiri competências” – para utilizar a novilíngua dominante – que não poderia desenvolver nas salas de aula. Aprendi a gerir em coletivo aspetos pequenos (ou grandes) do quotidiano. Defrontei-me com a sempre tensa fronteira entre o nosso espaço privado e a vida que fazemos em comum. Compreendi a responsabilidade que era viver num lugar que é nosso mas que também é de muitos outros, desde logo dos que por lá passaram. Ter sido repúblico na Real República do Bota-Abaixo é uma daquelas coisas que nos mostra que nem tudo o que é relevante vem inscrito no CV.

 

Muitos estudantes terão tido experiências semelhantes noutros espaços. As Repúblicas são, no entanto, lugares ímpares. Desde logo, carregam um lastro histórico que importa realçar. Constituindo um elemento fundamental da tradição estudantil até à década de 1950/60, elas foram, a partir desses anos, um baluarte central de um outro tipo de tradição. Uma tradição democrática e contestatária, na qual se cruzaram a irreverência juvenil, a renovação cultural e a crítica política.

 

Há uns anos, o arquiteto (e repúblico) Luís Paulo Sousa defendeu mesmo – num artigo publicado no jornal Arquitectos – que o modelo das Repúblicas se deveria generalizar pelo país, através do apoio dos poderes públicos a cooperativas de habitação estudantil sustentadas e autogeridas. Pela sua capacidade de contornar a especulação imobiliária e pelas características de responsabilização pessoal, de fomento da vivência coletiva e de contacto intergeracional, este era “o tipo de alojamento estudantil de que Portugal precisa”. Muito recentemente, a bem-sucedida candidatura da Universidade de Coimbra, Alta e Sofia a Património da Humanidade da UNESCO fez referências claras às Repúblicas como parte do património imaterial a preservar.

 

Acontece que a Nova Lei do Arrendamento Urbano veio ameaçar fortemente a continuidade destas casas comunitárias. A República 5 de Outubro fechou as portas esta semana, depois de em Agosto ter sido alvo de um aumento de renda de mais de 6000%. Segundo afirma agora o Conselho das Repúblicas, das 26 repúblicas existentes há pelo menos mais 6 em risco de encerrarem nos próximos tempos. Há dois dias, em Assembleia Magna, os estudantes de Coimbra aprovaram a realização de uma petição que visa introduzir uma exceção na lei do arrendamento que busque salvar as Repúblicas desta condenação à morte.

 

Espera-se que esta - e outras iniciativas que se entendam realizar - consigam reverter a tendência assustadora que temos pela frente. É que as Repúblicas de Coimbra fazem falta: pela memória que conservam, pelo presente que carregam e pelo futuro que prometem.

Piores do que Carrilho

Daniel Oliveira, 01.11.13

 

Não vou aqui escrever uma palavra sobre o essencial do caso de Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho. O ex-ministro é acusado de um crime público e essa é a única coisa que não está no domínio da privacidade dos dois. E que só a justiça poderá resolver. Só depois dela o fazer saberemos se ele é culpado. Porque a inocência até prova em contrário não é, aqui, uma mera formalidade. Há mesmo pessoas que, durante processos de divóricio, são acusadas desse crime abjeto e não o cometeram. E a minha convicção sobre a sua inocência ou culpabilidade, que se baseia apenas figura em causa, não vale nem deve valer nada. Do que quero falar é, por isso, de outra coisa. E, apesar de nessa coisa Carrilho ter um papel ativo, ele não é o único responsável.

 

Manuel Maria Carrilho tem feito várias revelações públicas escabrosas (falsas ou verdadeiras, não tenho qualquer interesse em saber) sobre Bárbara Guimarães e vários elementos da sua família. Todos conhecemos histórias de divórcios tumultuosos. Divórcios em que pessoas que julgaríamos normais se comportam de forma irracional. Sim, a campanha pública feita por Carrilho contra a apresentadora ultrapassa largamente quase tudo o que eu vi até hoje. Mas ela, no essencial, corresponde a um padrão que, apesar de o ser, nunca me deixará de espantar: o egoísmo de um marido ou de uma mulher despeitados, num processo de divórcio, que não hesitam em maltratar, em público, a infância dos seus próprios filhos para conseguir a vingança desejada. É um triste clássico.

 

Penso, ao contrário de outras pessoas, que este género de assuntos, por estar na fronteira da vida privada, deve ser tratado com pinças. Mas permito-me o único comentário que talvez ultrapasse um pouco os limites que me imponho nesta crónica: não me espanta o comportamento público (o único que, até a justiça fazer o seu trabalho, nos pode interessar) de Manuel Maria Carrilho. Se bem se recordam, Morais Sarmento divulgou, há muitos anos, com enorme coragem, e sem a tal estar obrigado, o seu passado de toxicodependência. Tal divulgação mereceria ou o elogio por ter superado essa situação ou apenas um silêncio respeitoso. Não de Carrilho, claro. Numa daquelas polémicas estéreis de que a política está cheia, Morais Sarmento dissera que Carrilho nascera para a cultura portuguesa em 95. Carrilho, perguntando de volta onde andaria Sarmento antes de 95, respondeu, no EXPRESSO: "é aí [na seu passado de toxicodependência] que podemos encontrar a explicação - e desde logo a antecipada desculpa - dos despautérios de Morais Sarmento, então certamente mais tentado pela assídua frequência do Casal Ventoso do que pela visita a boas livrarias, umas horas de biblioteca ou até, se calhar, pela simples leitura de jornais. (...) São opções, pensei, ainda bem que o Governo do PS alicerçou a sua inovadora política no domínio da toxicodependência na ideia - aceite pelo atual governo - que ela é uma doença, e que, como tal, tem causas e consequências: e mesmo quando não se conhecem as causas, as consequências, às vezes, ficam bem à vista." É daquelas prosas que, pelo vómito que provocam, distinguem facilmente um animal rastejante de homens a sério. E esta consideração que faço sobre esta figura política (que até considero ter sido um ministro competente) é independente e anterior à acusação criminal que lhe é feita e de que, por agora, se presume inocente.

 

Perante este episódio público da sua vida privada, Carrilho seguiu o mesmo estilo arrepiante. Montou um circo mediático em torno do seu divórcio, espalhando lama por pessoas que nem figuras públicas são (e por isso têm menos instrumentos de defesa) e não se incomodando em soterrar publicamente no chiqueiro duas crianças que, por acaso, até são seus filhos.

 

Mas se não tem ele a decência de se calar, caberia a nós, a quem escreve nos jornais e fala nas televisões, a jornalistas e comentadores, não o ajudar na divulgação da infâmia. Não repetir uma única das acusações que faça a outras pessoas. Nem sequer para criticar o facto dele as ter feito. Não lhe dar voz neste indecoroso comportamento. Compreendo que o espírito voyeurista se divirta com tão degradante espetáculo. Mas ele só é público porque supostos jornalistas querem que o seja. Porque a comunicação social resolveu exibir o esgoto a céu aberto que esta espécie de homem lhe ofereceu. O problema não é apenas de Carrilho. O problema não é principalmente Carrilho. Homens perturbados e sem carácter sempre os houve. O problema é de quem cerca Bárbara Guimarães e os seus filhos, à porta da sua casa, para a questionar sobre o que apenas pode ser privado. É de quem divulga informação irrelevante para as nossas vidas, destruindo, através da repetição de acusações nojentas, a vida de pessoas. Pessoas de carne e osso.

 

Claro que o problema também é das figuras públicas que, quando casam, quando vão de férias, quando os filhos nascem, quando os namoros começam e acabam decidem abrir uma frincha da janela e dividir com a imprensa cor de rosa e com os fãs o que é e só pode ser intimo. Coisa que o casal Carrilho e Guimarães fez várias vezes. O que não impede que eu repita que o meu principal asco vai para quem se planta, com uma câmara, um microfone e uma máquina fotográfica à porta de alguém para, contra a sua vontade, chafurdar na sua intimidade. A exibição que as figuras públicas fazem da sua suposta felicidade não pode ser um salvo conduto para mergulharmos nos mais sórdidos recantos das suas vidas. Quem está de fora é que não tem desculpa. Os jornalistas que repetem cada vergonhosa "revelação" íntima que este senhor faz não estão perturbados. Não procuram vingança. É apenas a forma que têm de ganhar a vida. Porque a falta de ética é a sua profissão, são muito piores do que Carrilho.

 

Publicado no Expresso Online

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