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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A coligação que antes de ser já o era

Daniel Oliveira, 16.11.10


A coisa mais grave que Luís Amado disse na entrevista ao "Expresso" não foi a defesa que fez de uma coligação. Foi a hipótese de sairmos do euro, que correu mundo, do "The Wall Street Journal" ao "Le Fígaro", do "El Mundo" à "Folha de São Paulo", do "El Universal" ao "The China Post". A Reuters resumia assim a entrevista do ministro dos Negócios Estrangeiros que, contrariando a posição do governo português, já defendeu no passado a constitucionalização dos limites ao défice: "O fracasso em obter uma coligação governamental ampla para enfrentar a crise financeira poderia forçar Portugal a abandonar o euro, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros numa entrevista publicada sábado".

A leviandade deste senhor, tão apreciado pela direita nacional pelas suas pretéritas posições sobre a invasão do Iraque, parece não ter limites. Funciona como uma espécie quinta coluna neste governo.

Aqui, discutiu-se sobretudo a tal necessidade de uma ampla coligação. Somos especialistas em "não temas". A razão da nossa crise nada tem a ver com uma suposta instabilidade política. Até porque não há crise política nenhuma. Tudo o que o governo tem proposto, do orçamento aos dois PEC's, foi aprovado. Quase sem modificações. Para todos os efeitos práticos, a coligação já existe. O governo não pode cair, por isso nem o espectro de uma demissão paira neste momento sobre o País. Todos sabemos que mesmo que venha a haver eleições no próximo ano - e para isso seria necessário que ou o PCP ou Bloco votassem a favor de uma moção de censura apresentada pelo PSD - e Passos Coelho as ganhe a política de austeridade vai continuar a ser seguida. E, por fim, como se viu com a aprovação do Orçamento e subsequente subida das taxas de juro, as decisões políticas tomadas em Lisboa têm um efeito quase nulo na forma como os especuladores se relacionam com a nossa dívida. Estamos no pacote dos PIGS e isso é que conta.

A crise que conta, a instabilidade que devemos esperar, é social. É a do desemprego, da redução do poder de compra, da pobreza e das repercussões devastadoras que este orçamento terá na economia e na vida das pessoas. Um assunto menos excitante para jornalistas e comentadores, que tantas vezes escrevem para si próprios e para os agentes políticos. Se nascesse um governo de bloco central amanhã, tirando a multiplicação de lugares para mais boys e a institucionalização do pântano político em que vivemos, nada mais mudaria. A crise económica e financeira continuaria, imperturbável. O saque bancário aos dinheiros públicos não pararia. A vida dos portugueses não melhoraria nem um milímetro.

Por isso, sobre este assunto não vale a pena gastar nem mais uma linha. A coligação não vai acontecer. E se acontecesse era absolutamente indiferente. Ela já existe para tudo o que interessa. Infelizmente.

Publicado no Expresso Online

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