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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Revolução em directo

Sérgio Lavos, 20.01.11

 

Quase sete anos da invasão do Iraque que, segundo a doutrina neocon, iria iniciar um dominó democrático no Médio Oriente, o Ocidente tem a oportunidade de assistir a uma verdadeira revolução num país islâmico, a Tunísia. A emergência de uma vontade de revolta nasceu espontaneamente e, mais importante, disseminou-se pelas classes mais desfavorecidas da população com uma intervenção mínima das elites da oposição ou do poder religioso. A imolação de um vendedor de rua terá sido o rastilho que iniciou um processo que culminou na fuga do antigo presidente Ben Ali. E somente na fase final da revolta houve participação do exército, mas será sempre inevitável que isso aconteça: nenhum poder é passível de ser tomado apenas com o apoio da população, como bem sabemos.

 

Curiosamente - ou nem por isso - a única influência externa no processo, mesmo que marginal, terá vindo da WikiLeaks. A revelação de um milionário e ruinoso negócio feito pela família da mulher do presidente deposto, surgida nos telegramas expostos em Novembro passado, e a disseminação desta informação terá tido também um papel importante na revolta. A questão do desejo de transparência total a que a WikiLeaks aspira, ainda que esteja aberta a discussão, tem neste exemplo um importante argumento a favor. Um dos pilares de qualquer regime totalitário ou autoritário, o controlo da circulação da informação, é posto em causa com existência de uma entidade apátrida (e portanto difícil de controlar) cujo objectivo é exactamente libertar a informação que o regime controla. Desenganemo-nos: nada há de ingénuo na opinião de muitos dos críticos da WikiLeaks; eles sabem muito bem o que está em causa na demanda de Julian Assange. Distinguir, como fizeram, entre liberdade de expressão, um valor que deveria ser absoluto, e a necessidade de segredo de estado, é legitimar a existência dessa zona cinzenta em que um Estado - qualquer que seja a sua natureza, opressiva ou democrática - exerce o seu poder autoritário. Na Internet, a circulação de informação é rápida e livre, e por isso perigosa para os regimes e os poderes que a tentam controlar. Slavoj Zizek, no seu livro Violência, dá um exemplo de como esta rapidez de circulação pode levar a reacções a milhares de quilómetros de distância, ao falar dos protestos da "rua islâmica" (uso a expressão com a distância que ela merece) contra os cartoons publicados num obscuro jornal dinamarquês. Este exemplo fala de uma consequência negativa desta circulação de informação, mas não nos podemos esquecer de que a esmagadora maioria dos protestantes nas ruas dos países islâmicos teve acesso a uma informação em diferido, mediada pelos líderes religiosos. Portanto, a essência libertária do sucedido - o conhecimento de algo acontecido longe - é subvertida pela natureza totalitária de quem soube primeiro, neste caso os líderes religiosos islâmicos. A reacção da "rua islâmica" não foi de facto aos cartoons publicados no jornal dinamarquês, mas aos discursos inflamados do poder que controlava a informação.

 

No caso da Tunísia, a revelação da WikiLeaks conferiu um ar de legitimidade ao que já seria pressentido (e sentido) pela maioria da população: a natureza corrupta e repressiva do regime de Ben Ali. Se a este facto somarmos a pureza do movimento de revolta que nasce do desespero de quem não consegue viver em condições mínimas de dignidade - a que o acto concreto, mas também simbólico, do suicídio acrescenta um dramatismo que o resto da sociedade não poderá ignorar - poderemos compreender o que está - ainda - a acontecer no Magreb. Seguir-se-à a Argélia, Marrocos, o Egipto? Será este o verdadeiro "dominó democrático" - e não falo da expressão que cinicamente foi inventada pelos políticos e comentadores neocons para justificar uma invasão ilegítima e a morte de centenas de milhar de iraquianos - de que o mundo islâmico está à espera?

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