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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Parvo é quem não vê

Miguel Cardina, 01.02.11

 

Não tive a sorte de assistir ao concerto que na semana passada os Deolinda deram no Coliseu do Porto. Mas basta ver o vídeo para nos apercebermos que algo de significativo aconteceu. A dado momento, Ana Bacalhau anuncia que vai cantar uma música nova e não foi preciso chegarmos ao fim da canção para termos a certeza que nascera um hino. A comunhão entre a banda e o público mostrava que aquelas eram as palavras de uma inteira geração. De uma geração que estudou mas que não tem perspectivas, de uma geração que anseia por estabilidade familiar mas que vive enredada na precariedade, de uma geração que já não tem grandes cartilhas ideológicas mas que não permanecerá para sempre no desânimo e na apatia.

 

Houve quem dissesse que renascera a canção de intervenção. Talvez. No fundo, ela verdadeiramente nunca morreu. O campo musical português está cheio de exemplos de letras combativas, e não é preciso sequer remetermo-nos para o domínio do hip-hop. Veja-se por exemplo a poética artesanal cultivada por Pedro e Diana. Mas o que ali aconteceu foi diferente: a insatisfação de uma parte considerável da sociedade tinha encontrado maneira de se dizer. E se isso também não é novo - há quanto tempo andamos a falar de precariado, de falsos recibos verdes, de geração bloqueada? - aquele momento trouxe alguma coisa que faltava: uma linguagem simples para falar de experiências comuns.

 

A política não se confunde com uma canção, mas os sentimentos de pertença colectiva constroem-se de várias maneiras. E o que os Deolinda fizeram foi dar voz a esse sentimento. De repente, a vida adiada de cada um e de cada uma tornou-se parte de um todo. O reconhecimento desse "mundo tão parvo em que para ser escravo é preciso estudar" exorcizou um pouco a realidade. Chega? Não chega. Mas naquela noite a impotência morreu um bocadinho mais.

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