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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O PS depois de Sócrates

Daniel Oliveira, 09.02.11

 

 

Que José Sócrates está a prazo já não é assunto de debate para ninguém. Que será sucedido por Pedro Passos Coelho também deixa poucas dúvidas. E que o extremismo ideológico do novo PSD ainda permitirá ao líder do PS fazer uns brilharetes à esquerda também parece óbvio. Uma coisa é certa: os socialistas terão de se preparar para uma longa travessia do deserto.

 

O próximo congresso do PS, em que ninguém com relevo surgirá para se confrontar com o primeiro-ministro em fim de festa, apenas tornará mais evidente o autismo socialista e a sua incapacidade em fazer debates políticos que não se resumam a mercearia de lugares. Mas vêm aí outros tempos. A crise promete ser longa e a ofensiva contra o Estado Social, que o próprio Sócrates começou e que Passos Coelho levará até a limites até agora desconhecidos, obrigará o PS, quando passar pela cura de oposição, a refletir sobre o papel que quer continuar a ter na política portuguesa.

 

O PS pode esperar que o poder lhe volte a cair no colo. Mas desta vez é um jogo arriscado. O descontentamento e a crise podem levar à desagregação da geografia eleitoral, deixando o centro-esquerda em estado comatoso prolongado. Já aconteceu em Itália e em França, nada nos diz que não possa acontecer em Portugal. Ou o PS, depois de se ver livre do vazio ideológico socratista, quer ter um papel nos grandes confrontos políticos que, por toda a Europa, se avizinham, ou poderá passar por uma crise semelhante à que o PSD conheceu desde a saída de Cavaco Silva. Pior: pode vir a ter o destino do centro-esquerda italiano e francês.

 

Apesar de não ser o mais importante, interessa saber quem será o próximo líder do PS. Se um gestor passageiro da derrota, se um reconstrutor do centro-esquerda, aproveitando os anos de oposição que aí vêm para transformar a federação de interesses em que o PS se tornou num partido político com capacidade de polarização ideológica e social. Com a guinada à direita a que a política nacional (e europeia) vai assistir, o bloco central não tem qualquer futuro. Ou o PS ocupa o lugar centrista que o PSD deixará solto, fazendo crescer, com o descontentamento social, os partidos à sua esquerda, ou é capaz de construir uma alternativa verdadeiramente social-democrata à razia que aí vem. As duas opções têm riscos, mas são inconciliáveis. Não me parece que a sedução ao centro e à direita com chantagem à esquerda volte a funcionar nos próximos anos.

 

Não sei se ainda há gente capaz de libertar o PS da tralha acumulada por anos de clientelismo no aparelho de Estado. Dos ruis pedros soares, varas, lellos, coelhos e vitorinos desta nossa triste sina. Não sei se sobrará densidade política e ideológica aos socialistas para começar um processo de clarificação urgente que os tire do vácuo em que se encontram. Sei que os portugueses demorarão alguns anos a esquecer José Sócrates. Com os maus tempos que aí vêm, a rotatividade ao centro já não é coisa garantida. E já não vai bastar a indignação retórica com as privatizações quando privatizou, a defesa intransigente, em palavras, do Estado Social quando se fragilizou o Estado Social, as reflexões sobre a necessidade da Europa mudar de rumo enquanto se aceita um papel passivo dos países periféricos. O que falta ao PS é consistência e consequência. E estas são as qualidades que um novo líder do PS teria de lhe emprestar. Ele existe?

 

Depois de Sócrates, o PS ficará em escombros. Os seus mais fieis e acríticos seguidores irão tratar das suas vidas. Uns com passagem direta para o novo poder, outros de licença em empresas privadas e públicas, à espera de uma nova vitória. Se o PS os deixar partir de vez e tentar reconstruir-se como alternativa política num tempo que tem de ser de clareza, quer dizer que aprendeu alguma coisa. Se fica apenas à espera do desastre que será Passos Coelho, então esperemos que a travessia do deserto seja mesmo muito longa.

 

Publicado no Expresso Online

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