Os heróis do nosso tempo
Mais de 200 mortos depois, os protestos chegam a Trípoli. A frieza dos números esconde algo que deveria servir de exemplo a quem vê de longe as revoltas que eclodiram nos países islâmicos, o heroísmo de quem luta sem armas contra um regime totalitário. O mais difícil ainda está para vir, e não falo do período pós revolucionário nos países libertos, mas sim das ditaduras mais sanguinárias, as que ainda faltam cair. Khadafi, o antigo revolucionário transvestido de líder tribal, terrorista perdoado pelo Ocidente e apaparicado por economias mais interessadas no petróleo líbio do que em algo tão vago como direitos humanos ou democracia, não hesitará em reprimir a vaga que agora começa. Poderá acabar como em Tianamen, e nessa altura o nosso homem em Trípoli, o embaixador Rui Lopes Aleixo, já deverá ter visto qualquer coisa. Será este o momento certo para os nossos empresários, oportunamente amparados pelo Governo em funções, poderem fechar negócios e usufruir de mais algum tempo de bonança. Khadafi, o amigo e mentor (na especialidade do bunga-bunga) de Berlusconi (o novo santinho no altar de helenafmatos - les beaux esprits se rencontrent?), o aliado de Sócrates, garantirá a segurança do dinheiro de sangue que chegar a Portugal. Os amigos são para as ocasiões. Mas até onde poderá ir o heroísmo dos homens e mulheres que, nas ruas dos países islâmicos, se dispõem a sacrificar em nome da liberdade?

