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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Norman Bates

Sérgio Lavos, 23.02.11

 

No meio do delírio alucinado que parece ter sido o discurso de Khadafi, há razões para acreditarmos no poder do non sense como arma de desconstrução de um discurso. Khadafi acha que não poderá empurrado da cadeira do poder simplesmente porque não é presidente; se não é presidente, não será deposto. Mais, arriscando um salto lógico digno de Wittgenstein, Khadafi assume o papel de líder da revolução que se prepara para o apear do lugar onde está. Resumindo: ele é simultaneamente vítima e carrasco, é o revolucionário bombardeado nas ruas por aviões e é o facínora demente que dá ordem para disparar sobre a multidão. O "guia da revolução" que não tem posto oficial para se demitir lá acaba por admitir que uns jovens, sob o efeito de drogas, provocaram algum sobressalto, mas reafirma-se como lança contra o poder do Ocidente. Psicopatia? Esquizofrenia? Ou um calculismo patético e perigoso? Khadafi pode viver num mundo muito seu, mas sabe que a contestação está sobretudo - e para já - a acontecer nos países cujos líderes foram beneficiando da complacência ou do apoio claro do Ocidente, a teoria que todos conhecemos de que mais vale um ditador amigo de que um democrata inimigo. A massa revoltosa na Tunísia e no Egipto clamava contra regimes opressivos, é certo, mas também contra a presença sombria dos interesses americanos e europeus nestes países. E assim também sucede no Bahrein, no Iémen e em Marrocos. O grande erro de Khadafi terá sido a reentrada, ensaiada na última década, na normalidade cínica da diplomacia internacional, as recepções de luxo em países ocidentais, a abertura do país ao investimento estrangeiro. O recuo tentado, apesar de parecer enfermo de um ridículo desarmante, será o mais lúcido passo que Khadafi poderá dar. E sabemos o que isto pode significar: se a resistência não desistir, a carnificina. Sob a capa do mais (aparentemente) legítimo dos terrores: o revolucionário.

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