Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

A cassete da Almirante Reis

João Rodrigues, 31.03.11

 

Esta semana, a ideia zumbi da chamada consolidação orçamental expansionista foi mais uma vez enterrada com a revisão em baixa da previsão feita pelo Banco de Portugal (BdP). Graças à austeridade, teremos uma recessão de pelo menos -1,4% este ano e dezenas de milhares de novos desempregados. Correia de transmissão do neoliberalismo com escala europeia, o BdP diz que toda esta destruição é inevitável e terá mesmo de ser aprofundada. Agora vem propor, sempre alinhado com a direita, uma redução das contribuições patronais para a segurança social, compensada com um aumento do IVA. Reduzir salários directos e indirectos e aumentar as desigualdades são as obsessões de sempre do BdP. Só mais um esforço que ainda não somos o país desenvolvido mais desigual. Para o BdP, a competitividade é questão de custos salariais directos ou indirectos e nada mais. Uma forma de percepção selectiva que atrofia a imaginação política e a inovação empresarial. Será que desconhecem que no nosso país o peso do IVA nos impostos totais é dos mais elevados da UE? É claro que o BdP faz um ensaio tosco de economia política e propõe, tal como um certo partido da direita, para tentar compensar e disfarçar mais um projecto de regressão social, uma vaga "transferência monetária" dirigida, que nunca ocorrerá, claro. Aliás, há muito que o BdP declarou guerra ao projecto do Estado social universal. De resto, também como a direita, o BdP continuará a dizer que o desemprego é um problema de segurança social demasiado generosa e de regras laborais que ainda dão alguma liberdade aos trabalhadores, como se a enéssima recessão provocada pela austeridade permanente não fosse a principal causa do desemprego, como se a crise financeira mundial não tivesse implodido com os idealismos de mercado e gerado novas vagas de desemprego, como se o desastre da integração num euro disfuncional, sempre apoiado, não tivesse ocorrido. São infinitos os pretextos para baixar salários e deteriorar condições de trabalho, mas não há melhor do que o desemprego de massas causado pelas crises. É a economia política do desemprego. É a cassete da Almirante Reis.

 

Publicado no Ladrões de Bicicletas

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.