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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A tribo, o chefe, o pretendente e o homem que sabia que queria alguma coisa

Daniel Oliveira, 10.04.11

Já a noite ia avançada na Exponor quando uma congressista subiu ao palco para fazer algumas criticas. Falou de uma Europa bloqueada, de uma banca gananciosa e, coisa estranha naquela redoma protegida do resto do Pais, das Parcerias Público-Privado e da privatização do BPN deixando o bife do lombo (a SLN) de fora. Claro que a congressista falou bem tarde. Quando uma multidão de cem delegados a podia ouvir. Não faz sentido incomodar a militância do PS com opiniões.

 

Ana Gomes passa às vezes por tresloucada. Porque tem o estranhíssimo hábito de dizer o que pensa. É coisa que não se aconselha num partido. E muito menos num comício à coreana, onde os congressistas se dirigem em todas as frases ao "nosso líder", ao "líder deste Pais", ao "nosso secretário-geral", sempre juntando todos adjetivos elogiosos que conheçam. Só há uma coisa mais deprimente do que ver alguém a prestar vassalagem a um chefe: é ver muita gente a prestar vassalagem a um chefe. Estive em alguns congressos do PCP. São um exemplo de pluralismo ao pé do que vi aqui em Matosinhos. E só mais tarde um outro militante foi claro com o líder, que não estava presente: deixou o Pais na bancarrota. Parece que ainda há algum País no PS. Mas só depois da meia-noite.

 

Daqui a uns meses a excitação com o líder, o grande líder, o maravilhoso líder, o querido líder, o inigualável líder, passará. Passa sempre quando o extraordinário líder deixa de ter vitórias para oferecer e lugares para distribuir. E a sua sucessão já está a acontecer. José Sócrates tratou de deixar claro quem quer que o suceda. Depois do discurso de Francisco Assis, Sócrates, lacrimejante, passou-lhe o bastão de chefe da tribo. Apesar do discurso ter sido vazio e sem chama. Cá fora, António José Seguro fazia o que sabe fazer: esperava. Falou à comunicação social mas decidiu não falar ao Congresso. O que lhes poderia dizer quando apenas os elogios rasgados ao atual chefe arrancariam da plateia aplausos dignos de um futuro secretário-geral?

 

Quando a celebração, lá dentro, era do chefe inchado de tantas qualidades, de um pretendente pronto para receber a bênção e de uma plateia de deslumbrados com tantos heróis incompreendidos por uma Nação ingrata, resta continuar a conspirar na sombra. Seguro é, e parece que continuará a ser, apenas um homem que quer alguma coisa. Pode acontecer-lhe o que acontece aos esperam demasiado tempo pela sua oportunidade. Quando chega o momento de mostrarem o que valem eles estão lá fora, à espera.

 

Publicado no Expresso. Daniel Oliveira está a acompanhar para o Expresso o Congresso do Partido Socialista, em Matosinhos.

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