Segunda-feira, 18 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

 

 

O Expresso deu-nos a conhecer um estranho confronto: o FMI queria que o empréstimo a Portugal fosse por mais tempo e com juros mais baixos, de forma a atenuar os efeitos recessivos desta intervenção externa; a União, pelo contrário, quer que o pagamento da dívida seja mais rápido e com juros mais altos, sem olhar ao resultado devastador desta política.

 

Ou seja, são os nossos parceiros europeus que menos se preocupam com a destruição da nossa economia. Tendo como resultado certo, nestas circunstâncias, a bancarrota de Portugal, que se deverá seguir à da Grécia. O que acabará por ter resultados na própria saúde do euro. Chagámos então a este ponto: o maior inimigo da Europa é a própria Europa.

 

Ao que parece, os eleitores dos estados europeus não querem participar no "resgate". A coisa é de tal forma absurda que até os gregos se queixam de ter de pagar os erros dos outros. É o egoísmo que governa a Europa. E como acontece quando o pânico se instala e não há ninguém para liderar, ninguém se vai salvar. Poderia dar-se o caso da recusa em participar nesta intervenção ser um ato de solidariedade para com as vítimas da "ajuda", já que se conhecem os efeitos desta intervenção. Mas não é disso que se trata. Se fosse, não era a Europa a insistir nas piores condições possíveis.

 

Este suicídio europeu resulta do monstro que construimos: temos uma economia europeia, uma moeda europeia e não temos uma democracia europeia. Nenhum poder político legitimado pelo voto responde pelo conjunto dos europeus. Por isso, cada um fala apenas para os seus nacionais. O governo finlandês, por exemplo, cede aos eleitores dos "verdadeiros finlandeses", partido de extrema-direita que obteve ontem quase um quinto dos votos. O egoísmo é o mais estúpido dos instintos perante esta crise europeia. E é respondendo a esta irracionalidade que a Europa se está a desgovernar.

 

Ao aceitarem, também eles, a narrativa infantil que remete para as economias periféricas, e não para as fragilidades institucionais do euro e para a desregulação dos mercados, toda a responsabilidade por esta crise, foram os próprios portugueses, gregos e irlandeses a contribuirem para o discurso populista contra os "PIGS"(Portugal, Irlanda - ou Itália, ou as duas -, Grécia e Espanha). Quem se trata a si próprio como incapaz não pode esperar ser tratado com respeito.

 

É verdade que a Europa, por falta de lideranças e por ignorância dos seus povos sobre a natureza desta crise - ignorância para a qual muitos economistas, apostados numa cruzada ideológica, têm contribuído - está a cavar a sua sepultura. Mas não são apenas os complexos de superioridade dos povos do norte (muitos deles com situações financeiras tão graves como as nossas) os responsáveis por este suicídio. O espírito autoflagelador dos "self-hating pigs" e das suas antipatrióticas elites políticas, económicas e intelectuais também tem ajudado à festa: ao aceitarmos esta narrativa, para melhor engolirmos os absurdos e inúteis sacrifícios que nos exigem, estamos a confirmar a nossa culpa e a tornar para os que estão melhor ainda mais intolerável a solidariedade europeia. Talvez quando tivermos um pouco mais de orgulho e amor próprio estejamos em condições de lutar pela nossa própria vida e de exigir o respeito que nos é devido.

 

Publicaco no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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