Terça-feira, 19 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

Os representantes do BCE, da Comissão Europeia e do FMI convidaram todos os partidos para reuniões. Tratava-se de uma oportunidade para fazer chegar a quem vai intervir neste País durante os próximos anos a voz, as propostas, o aplauso ou a indignação dos portugueses. De todos os portugueses. De aceitar ou recusar esta forma de intervir nas economias. De aceitar o veneno que nos vai ser oferecido ou de apresentar alternativas. De mostrar a quem votou nos vários partidos que não se desistiu completamente da soberania e que os eleitos ainda os representam. De dizer aos cangalheiros do País quais serão as consequências sociais e políticas - as económicas eles conhecem de ginjeira - do pacote que se preparam para apresentar.

 

Um quinto dos eleitores não se fez ouvir. Bloco de Esquerda e PCP decidiram  não comparecer.

 

Porque não se encontram com o inimigo? Desde quando só se fala com aliados? Dizem que cabe ao governo negociar. Verdade. Mas não cabe à oposição de esquerda aproveitar esta oportunidade para dizer de sua justiça? Prefere ficar calada? Vai deixar que os partidos do bloco central repitam que são os únicos a querer lidar com a realidade? As pessoas estão assustadas e desesperadas. Todos os sinais de esperança, que só a apresentação de alternativas pode dar, são poucos. E qualquer sinal de irresponsabilidade será mal recebido.

 

Ir a este encontro com o BCE, Comissão Europeia e FMI não mudaria nada? Não os convenceriam de nada? E os nossos protestos convencem? E não temos a obrigação de protestar na mesma? Não perceberão que ao aceitarem que são impotentes dizem aos portugueses que são inúteis? É essa a ideia que querem passar?

 

Os portugueses que votaram nestes partidos não gostariam que eles se batessem, em todos os momentos e lugares, junto de todas as instituições, incluindo os organismos que vão comandar esta intervenção, pelas suas soluções? Que se batessem por juros mais baixos; que dissessem que é inaceitável que em troca do empréstimo o FMI se substitua aos poderes eleitos; que defendessem junto dos representantes europeus na "troyka" um socorro de curto prazo seguido de uma renegociação das condições de pagamento da divida; que mostrassem que uma intervenção cega terá efeitos políticos e sociais que se podem voltar contra a estabilidade do euro.

 

Sabemos que BE e PCP são contra este empréstimo nos moldes e nas condições que foram impostos à Irlanda e à Grécia. Eu também sou e não me canso de o dizer. E lutam calados? Para não se sujarem ao se sentarem na mesma mesa que os representantes do FMI e da União? Nos princípios não se cede. Mas ir a uma reunião não fere qualquer princípio. E nunca se fecha a porta à possibilidade de dizer o que se pensa e a tentar minorar os efeitos de uma derrota. Também é isto a política.

 

O PCP fala para o seu eleitorado fiel. Mas não é assim com os eleitores do Bloco. A ideia é empurra-los para os braços do PS? É facilitar a vida a Sócrates?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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86 comentários:
Henrique
O Daniel tem razão: PC e Bloco deram um grande tiro no pé.

deixado a 19/4/11 às 11:11
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João Cerqueira
Sim Henrique,

Deram um tiro no pé, deram um tiro na já pouca credibilidade do país e ainda acertaram nos seus próprios eleitores (pelos menos em alguns).
As CGTP e a UGT vão falar com o FMI, e o BE e PCP recusam?
Tinham uma oportunidade única de lhes dizer na cara tudo o que pensam deles e de tentar que as negociações não penalizassem os mais fracos, e voltam as costas?
Esta foi a maior fuga às responsabilidades - e a própria realidade - que o BE e PCP protagonizaram.

E o interesse nacional, os interesses de todos os portugueses, foram mandados às urtigas.
Mas continuarão a dizer, solenemente, que estão a lutar pelos desfavorecidos, por uma sociedade mais justa, etc, etc.
Talvez estejam, mas não é certamente no planeta Terra, e menos ainda em Portugal.

deixado a 19/4/11 às 16:07
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Leo
Ele não tem nenhuma razão. A troika não pode assumir o papel do Presidente da República e convocar os partidos. Se há uns que não se importam outros importam-se. O PCP, por exemplo. 


Rui F
Leo

Mentira.
a CGTP é o PCP e vice versa


Leo
O PCP é um partido e a CGTP é uma confederação sindical.

O PCP responde pelas suas atitudes políticas e não delega em ninguém a sua representação. O PCP não foi à convocatória da troika porque entende que só o PR tem o direito de convocar e só com o governo irá dialogar.

Gostemos ou não gostemos deles foi neste governo e neste PR que os portugueses votaram é com eles que discute e trabalha e com mais ninguém.

deixado a 20/4/11 às 07:41
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xuxu
"O BE e o PCP são contra este empréstimo nos moldes..."

Mas o BE e o PCP são a favor de algum tipo de empréstimo vindo do FMI? Parece-me que não. Estás a pô-los menos radicais do que são.

Disto isto, concordo que o melhor era não ter empréstimo e avançar JÁ para um default. Vão ser 2 ou 3 anos (ou mais) de inferno para acabar em... default na mesma (vide Grécia).

Mas tens razão no teu argumento principal. Já que o FMI vem aí, ao menos tentar as condições menos atrozes.

Só caviares (que têm que chegue e sabem que vão passar ao lado da crise) e fundamentalistas ("quanto pior, melhor") é que não estão dispostos para mitigar.

Mitigar aqui é a palavra chave.

deixado a 19/4/11 às 11:47
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Paulo
De facto mitigar é a palavra chave. Apenas não concordo com a escala entre caviares (penso que da expressão esquerda caviar) e fundamentalistas. Há muito mais para além da esquerda caviar e dos fundamentalistas, há pessoas perplexas, assustadas, deserdados sociais, marginalizados, banalizados etc.
Para todos a mitigação é como a pomada que disfarça a dor e o incómodo.
Não é possível disfarçar mais as dores. E passar pelas dores como cão por vinha vindimada, apenas agrava a desconfiança numa resposta assertiva e clara da esquerda. Só não digo verdadeira esquerda porque me lembraria os verdadeiros finlandeses. Mas uma esquerda nuclear onde a histeria do poder ou dos sound bytes não está presente.

deixado a 20/4/11 às 13:35
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Portela Menos 1
Não mudariam as posições da Troika - como não têm mudado as posições de Sócrates quando vão a S.Bento e de Cavaco em Belém - mas teriam os cinco minutos de glória nos noticiários das 20:00h !

deixado a 19/4/11 às 11:53
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Rui F

Demonstrariam muito mais inteligência, sem dúvida nenhuma.


deixado a 19/4/11 às 17:20
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xuxu
Podiam dar voz, por exemplo a um imposto sobre habitacoes devolutas. O FMI poderia engolir isso.

Ou lembrar que os salarios minimos e medios em Portugal nada teem a ver com os Europeus.

Ou lembrar que a carga fiscal em Portugal e, em percentagem bastante baixa.

Ou propor, cortes em salarios acima do medio EM TROCA de menos desemprego. Por exemplo o estado cortava nos salarios  >2000 e com parte do que se poupava, empregava-se desempregados.

Acabar com as taxas liberatorias e englobar esses ganhos no IRS...

Tudo propostas DE ESQUERDA que o FMI podia muito bem aceitar. Por serem neutrais ou positivas em termos de defict.

Agora nao esta la ninguem para dizer coisas deste genero.


Rui F
MUITO bem xuxu. Muito bem!

deixado a 19/4/11 às 22:30
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qassandra
Inteiramente da acordo.

deixado a 19/4/11 às 23:31
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Augusto
Acha que os eleitores do BE vão votar no Socrates , que deixa um legado de quase 700.000 desempregados?


Até percebo que havendo em Portugal um governo de gestão,  a Troika queira amarrar todos os partidos aos acordos que vão ser  assinados.


Só que quem pode efectivamente negociar com a Troika é o governo em gestão,o papel do BE e do PCP nestes encontros, seria mera figura de corpo presente.


 Realmente  decisivo é a Esquerda  ter  alternativas crediveis ao FMI.

deixado a 19/4/11 às 12:02
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MP

Uma vez mais, como vem sendo regular, o Daniel Oliveira acerta na mouche e denuncia os disparates que levam as pessoas a não votar no seu partido. Depois admirem-se que votem no PS e que achem que o BE (e o PCP) não têm sentido de Estado.
Pena o BE continuar a preferir para a representação, pessoas como Louçã e Pureza que pouca credibilidade trazem, ao invés de pessoas como o Daniel ou a Joana.
E, para além disso, continuo à espera que o BE diga a outra parte. Já sei contra o que é que o BE é (e apoio totalmente isso), como por exemplo, a tributação de determinados sectores e actividades.
Falta a outra parte: o BE ainda não disse qual é o seu projecto para pôr o país a crescer e a criar riqueza, mas um projecto que não seja utópico e que seja exequível aos olhos da actual situação. É disso que as pessoas estão à espera: de uma alternativa... Sobretudo exequível aos seus olhos.

deixado a 19/4/11 às 12:05
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Partido Comunista, Bloco de Esquerda e a jurista Dra. Heloísa fizeram muito bem em não comparecer.


O que é que iam lá fazer?


Diriam não concordamos com nada disto e logo após os outros senhores perguntariam:


Muito bem e quais são as vossas propostas concretas para resolver a dívida de Portugal?


Ora para evitar este embaraço é melhor fingir que têm qualquer ideia escondida e faltar ao exame.


deixado a 19/4/11 às 12:05
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Podiam lá ir com o dinheiro, não sejas assim... O Louçã podia bater logo uns quantos milhões em cima da mesa...

deixado a 19/4/11 às 17:09
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O BE, e bem, é contra a entrada do FMI no país: coloca milhares de milhões em troca do saneamento financeiro, à custa de medidas de ultra/austeridade não aceitáveis que afectarão principalmente os trabalhadores, reformados e pensionistas.

O BE, deveria ter aceite o convite da "troika" e dizer-lhes na "cara" que não são bem-vindos. Quando o país é atacado devemos responder com o nosso "exército".

 

É mais difícil enfrentar que desistir.


deixado a 19/4/11 às 12:10
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Alexandre Carvalho da Silveira

Por uma vez estamos de acordo. (Self-hating pigs, comentario em 18/4/11 às 17:45).
Portugal está numa encruzilhada, e numa situação muito grave. O que se esperaria do PCP e do BE, é que fossem de viva voz dizer aos tecnicos estrangeiros que cá estão a fazer-nos a caminha, o que pensam sobre o assunto. Mas estes partidos com o oportunismo do costume, estão a por-se de fora do olho do furacão, provavelmente convencidos que esta posição lhes dará alguma autoridade para continuar com o discurso dos coitadinhos.
O PCP e o BE não fazem parte de nenhuma solução exequivel para Portugal. Mas são um enorme problema porque cerca de 20% do eleitorado vota neles. Mas pelos vistos eles recusam-se a representar quem lhes confia o voto. Talvez se arrependam.

deixado a 19/4/11 às 12:10
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José Dias
Concordo contigo
Trata-se de um claro erro de avaliação pelos 2. Cidadão José Dias

deixado a 19/4/11 às 12:13
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Ofélia
Pois é Daniel... o drama deste país é não haver ninguém à altura das circunstâncias.

deixado a 19/4/11 às 12:22
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maria teresa paiva

Posso escrever o que penso sem que vocês não me censurem? Sejam moderados, vá lá...

deixado a 24/4/11 às 10:44
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