Quinta-feira, 21 de Abril de 2011
por Daniel Oliveira

Por toda a Europa, jornais especializados e muitos colunistas explicam que a intervenção em Portugal, assim como as que aconteceram na Grécia e na Irlanda, apenas destruirá a nossa economia sem conseguir nenhum dos seus supostos objetivos. Em todo o lado, debatem-se estas sucessivas suspensões da democracia. Na Irlanda, os editoriais dos principais jornais, a quando da entrada do FMI, eram de indignação contra a perda de independência. Na Grécia, vimos como o povo se manifestou.

 

Já nem discuto aqui se esta intervenção era inevitável. Quem me lê sabe o que penso sobre o assunto e sobre a repetida ideia de que não há alternativas. Fico-me pelo comportamento de muitos das pessoas que fazem opinião neste País. Nesta fase, assistimos a uma coisa extraordinária: propostas de medidas estruturais para o FMI impor ao País. Isto mesmo. Apelos para que o FMI tome decisões a propósito da reestruturação do Estado, de direitos sociais, de política fiscal.

 

Perceberá esta gente o que está a fazer? Em vez de dirigirem os seus apelos a quem os cidadãos portugueses vão eleger, fazem apelos a organizações internacionais em quem ninguém votou. Em vez de ficarem do lado de quem nos representa, põem-se do lado de quem vem impor medidas. Não se limitam a aceitar a intervenção externa, porque a acham inevitável. Apelam a que estes senhores governem Portugal. Sem o voto de ninguém. Que apliquem o programa que estes colunistas acham o melhor para o País, dispensando a democracia e a opinião da maioria. Convencidos que as suas opiniões e soluções são melhores para Portugal, acham-se com a autoridade para dispensar a opinião do povo.

 

Nunca fui muito dado a patriotismos. Mas duas coisas são certas para mim. A primeira: defendo a soberania democrática. Ela pode ser nacional ou transnacional, na condição de estar suportada pela legitimidade do voto. E se o voto é nacional, a soberania tem de ser nacional. Não votei no FMI. Poderia aceitar - e não aceito - que intervenção do FMI era inevitável. O que nunca aceitarei é que o FMI é o governo do meu País. A segunda: não sendo um fervoroso patriota, quando o meu País está debaixo de um ataque, quando a sua liberdade, a sua soberania democrática e o seu futuro estão em perigo, sei de que lado estou.

 

Por isso, digo sem meias-palavras duas coisas simples. Que os autores destes apelos, que pedem a quem ninguém elegeu para aplicar as medidas estruturais que lhes parecem mais corretas, não acreditam na democracia. Não acreditam no voto. Não acreditam na vontade popular. E quem, quando se está a tentar, com derrota certa, reduzir a amplitude da intervenção externa não sufragada pelo voto, pede que ela seja o mais abrangente possível, está a trair os portugueses. É isto mesmo. Num País que ainda tivesse algum orgulho e dignidade, isto ptovocaria indignação. Aqui, ao ponto a que chegámos, tudo já parece normal.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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42 comentários:
Rafael Ortega
Se nada mudar o FMI faz o seu trabalho, vai embora, e acabará por voltar.
Os políticos portugueses podem ser eleitos as vezes que quiserem que não vão acabar com as burocracias, o peso excessivo do Estado, o mau sistema de ensino, etc.
A solução é ser o FMI a fazer isso? Não sei, e dúvido que sejam essas as suas competências...
Eu preferia que a sra. Merkel mandasse para cá uma dúzia de bons gestores alemães para por isto na ordem. De certeza que cada um não sairia muito mais caro que um ministro, e sairiam mais baratos que muitos "gestores" de empresas públicas.
Opiniões...

deixado a 21/4/11 às 08:49
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Carlos Marques
"Não acreditam na vontade popular."

A vontade popular, pelo menos da parte maioritária que trabalha no Estado, é: tolerâncias de ponto, progressões automáticas nas carreiras, aumentos salariais anuais acima da inflação e sem relação com a produtividade, emprego para a vida com a possibilidade de ter segundos empregos, reformas sem perda de poder de compra em idade boa para viver a vida.

"Num País que ainda tivesse algum orgulho e dignidade, isto ptovocaria indignação."

O país tem orgulho e dignidade, pelos menos muitos portugueses ainda têm, o país não tem é dinheiro - por exemplo, como é que o senhor iria pagar aos militares, com boas intenções e frases acaloradas?

deixado a 21/4/11 às 10:03
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Anónimo
Este ainda debita a cassete que lhe deram a engolir há uns 15 anos atrás...

deixado a 21/4/11 às 13:36
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Cidadão comum
Ao ler o seu artigo, também sou concordante que não votei para o IMF vir e impor regras estruturais muito penalizantes para todos os Portugueses, mas esqueceu-se de dizer também que não votou em nenhum referendo para aceitar ou não a entrada do País na zona EURO, e perder autonomia bancária, portanto, também não me sinto responsável por esta situação que á muito se previa.
Países democráticos e responsáveis, que pensam no País e nos cidadãos fizeram-no como por exemplo a Dinamarca, Noruega.......
Agora quem irá pagar o valor da divida Portuguesa, teremos de ser nós, isto que fique claro e não vale a pena tecer cenas teatrais politicas a temos assistido ultimamente, que só criam vexame internacionalmente, como também internamente já ninguém acredita nos políticos que temos em todas as facções politicas.

deixado a 21/4/11 às 10:30
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andre
Subescrevo inteiramente  a sua opinião. Quem é que dizia, em 98,  que a adesão ao euro era um risco e um risco que valia a pena correr?

deixado a 21/4/11 às 14:17
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Pedro
PS volta a liderar intenções de voto.
Partido Socialista 36%
PSD 35%
ahahah
O PSD pensava que colocava um líder ultra radical mais à direita do que o CDS e os portugueses riam-se todos às gargalhadas enquanto perdiam a saúde pública,ensino público e segurança social pública.
Parece que a propaganda estúpida dos 15 anos de políticas socialistas e de ser preciso falar verdade vai falhar outra vez.Obviamente que ninguém engole este discurso.
Quando o PSD eleger um líder que não seja ultra conservador de direita que apareça.
Ri-te agora Passos Coelho.lol

deixado a 21/4/11 às 10:35
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Albano
"ahahah"
Só espero que os cobardolas do BE e do PC se juntem afim de formarem com o PS uma coligação de esquerda que constitua um governo forte, que mantenha um estado social sólido, que continue com as grandes obras publicas e que saiba pedir dinheiro emprestadado durante mais uns 50 anos.


bafo de onça
Quais cobardolas, quais carapuça. O PCP e o BES na conjuntura actual não contam para nada no ponto de vista de quem manda!
E a provocação do goveno de esquerda não tem o minimo sentido quando se sabe que o socas e a sua pandilha só olham para o portas e o coelho como o alibi para manterem o poder pelo menos de continuar a fazer alguns bons negócios a bem da nação como é evidente.

deixado a 22/4/11 às 03:49
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nptraveller
Subscrevo, como muito do que escreve, mas fiquei confuso... Em contrapartida, o Daniel defende que se dialogue com um poder imposto, nao-democratico? Refiro-me a posiçao que tomou a proposito da recusa por parte dos partidos de esquerda de se encontrarem com a troika...  A receita do FMI e conhecida e nao seriam as posiçoes dos partidos de esquerda que iriam altera-la. Atraves dos "consensos nacionais" e do dialogo com partidos e parceiros sociais apenas pretende ganhar legitimidade democratica para impor o seu programa. Nao terao feito bem BE e PCP ao recusarem contribuir para essa legitimaçao?

deixado a 21/4/11 às 11:11
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xuxu
"Dialogar" com FMI e um bocado como aceitar a realidade. Mas o PC e o BE vivem noutro planeta.

Ja sei. Nao gosto da gravidade: vou ignora-la!

Ha aqui uma questao de ATITUDE que e fundamental. O PSD e o CDS adoram o FMI. O PS engole. O PC e o BE estao na twilight zone - como de costume sao um par de meninos pirralhas. Adultos lidam de frente com aquilo que nao gostam.

Falta alguem para defender a outra real alternativa: um default (com as consequencias DOLOROSAS - nao ia ser um mar de rosas). Mas mesmo quem defende um default falaria com o FMI.

De virgens puras e imaculadas esta o inferno cheio. Alias o inferno E virgens puras e imaculadas.


nptraveller
Parece-me sempre despropositado ouvir dizer que alguem, neste caso um partido, "nao aceita a realidade" porque toma determinadas posiçoes. O inferno esta cheio de virgens, mas muito mais cheio esta de pragmaticos! Com base na analise da mesma realidade, BE e PCP tomaram a posiçao que tomaram, diferente da de outros partidos. Isto parece-me obvio, mas parece que afinal nao e obvio. E tera pesado nessa decisao o facto de, desde sempre que existem intervençoes do FMI, o programa executado pelo FMI ser imposto, nao negociado e invariavelmente o mesmo... Ou agora vai ser diferente?! E em que mundo vivem os que acham que vai ser diferente?!

deixado a 21/4/11 às 19:47
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fuser
Precisamos de um novo "Rumo à Vitória" já que o Che Guevara da Europa agora passou-se para o lado dos que clamam por um novo salazar...

Uma troika que encete contactos junto de investidores interessados em Portugal, um golpe que reponha as instituições democráticas e cadeia e exílios para os visados neste artigo. 

Poder ao Povo

deixado a 21/4/11 às 11:18
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Bafo de onça
Qual Che Guevara da Europa! Que idiotice!
O homem, o Che claro, por muitos defeitos que tenha, não pode ser considerado ao lado da cópia rasca!
Basta ver a sua actuação do dito cujo no 25 de Novembro.
Por alguma coisa Soares e a sua pandilha votaram Otelo em 80 para verem se na 2ª volta elegiam Soares Carneiro contra Eanes esse perigo esquerdista...
Quando me falam no Soares como referência democrática e de esquerda pergunto em que mundo estão!

deixado a 22/4/11 às 04:06
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Chico da Tasca
Eu como de nacionalista não tenho nada e como cheguei a conclusão que este pais e ingovernável e que para ai uns 9 milhões de portugueses estão reféns dos restantes, organizados nos mais variados grupos de interesses e em corporações que, na pratica, mandam neste pais, condiconam a actuação dos governos forçando a que os tais 9 milhões sejam relegados para uma categoria cada vez mais secundaria, burros de carga do milhão de privilegiados, peço ao FMI, aos alemães, aos finlandeses, aos holandeses, que venham para ca, obriguem a que os fantoches inúteis que estiverem no governo façam o que devem fazer, em nome do BEM COMUM, e não em nome do interesse de uns quantos.

Portugal com isso perde a independência ? Pois perde, mas isso e o que acontece a quem vive de dinheiro emprestado, ainda por cima dando sinais de que não pode pagar o que pede, e a quem não tem capacidade para se governar.

Um pais que anda décadas para resolver alguns problemas estruturais que o sufocam, porque isso implicaria tomar medidas que vão contra o interesse de alguns instalados, não merece respeito, e deve ser tratado como lacaio de países com governantes com mais sentido de estado e que mostre respeito pelo povo e pelo dinheiro que o povo paga através dos impostos.   

deixado a 21/4/11 às 11:40
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xuxu
Tambem e para mim uma descoberta nova que sou um patriota (pelo menos no sentido que acho que como nacao nos deviamos dar ao respeito). Esta a ser uma descoberta que a direita e anti-patriota. A direita tipica odeia Portugal e a soberania dos Portugueses.

Isto junta-se a outra, mais antiga...

Que a nossa direita nao e meritocratica. E aristocratica. E que ha aquela direita, como a nossa, que quer desigualdade para manter os ricos, ricos e os pobres "no seu lugar".

Isto e muito diferente daqula direita (meritocratica) que quer o merito no topo e a lucrar.

E uma diferenca brutal entre um grupo e outro. Nos estamos cheios de aristocratas (quem nem patriotas sao).

deixado a 21/4/11 às 11:56
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Rui F
"...O que nunca aceitarei é que o FMI é o governo do meu País..."

Mas vais ter que ter paciência.
Já cá tiveram antes, estão cá agora, e pelo andar da carruagem de CERTEZA absoluta que um dia virão de novo.

Compreende-se aquela frase dum emigrante no Brasil há 50 anos: "...os bons, foram-se ou vão-se embora de Portugal..."
Ou seja ficam cá...os outros!

 

deixado a 21/4/11 às 12:00
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VITOR SANTOS
"Em vez de ficarem do lado de quem nos representa..."

Ó amigo, eu sei que é sem querer, mas a utilização destas de permissas destas para elaborar raciocínios é que nos têm toldado o espírito.

Isso gostávamos nós mas infelizmente não é assim. Esses a que se refere (os de agora e os das últiumas décadas) não nos "representam", caso contrária teriam agido na defesa dos "nossos" interesses e no seu próprio interesse e na dos seus "clientes"

O que existe é um "cenário" de formalismos protocolares que nos fazer crer que elegemos "representantes". Mas não, vá por mim. Isso é só "embrulho" (carregado de símbolos da "DEMOCRACIA"), o que está dentro do pacote é outra realidade.

Assim se vão enganando os tolos...!  

deixado a 21/4/11 às 12:10
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