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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A psicose nacional

Sérgio Lavos, 21.04.11

 

O cerco aperta. O desespero cresce. A esperança diminui. Parece não haver um fundo para o poço. Estaremos perdidos em breve.

 

A psicose milenarista cavalga as vagas da crise nacional. Claro que sabemos como tudo começou, e no fundo desconfiamos de uma ou outra solução mais justa e, sobretudo, realista, para sairmos do buraco onde nos metemos, mas preferimos a angústia de um futuro inexistente a qualquer ideia diferente das que nos são impostas pelos malagridas dos jornais e das TV’s. Basbaques olhando para o ar esgazeado de Medina Carreira, zombies delirando perante as apocalípticas palavras de Vasco Pulido Valente, renovamos a nossa desconfiança diariamente. Merecemos os arautos da desgraça. O conforto da desistência é uma doce almofada onde repousamos a cabeça. Se a solução não passou pelos sucessivos PEC’s, se não passará pela intervenção da UE e do FMI, então que se lixe, cairemos sem honra nem glória. Mas aproveitemos enquanto dura. Gastemos o pouco que nos resta nas parcerias público-privadas da nossa vidinha. Enchamos os hotéis do nosso Allgarve, viajemos, escapemos ao estertor da crise embriagados pela réstia de tédio existencial a que temos direito, consumamos, amemos os produtos que um dia irão escassear.

 

Sempre acreditando no que o sistema tem para nos oferecer, aceitando a santa palavra dos gurus que nos trouxeram aqui. Cada remendo na economia é um bálsamo que sabemos não ir resultar, mas cremos, como cremos. Cremos porque queremos continuar a saber que a desgraça é nossa culpa, e porque no fundo desconfiamos das medidas que nos dizem salvadoras. Como desconfiamos, anuimos. Se a Grécia está no abismo do FMI, é esse o caminho que queremos seguir. Se a Irlanda tem de pagar o preço do salvamento dos bancos, então nós também temos. Tanta auto-indulgência faz bem ao ego estilhaçado do país.

 

E mais um cheiro de desgraça, mais um prego no caixão desta indulgência, este texto. Não é o que escrevo melhor nem pior do que a média nacional (ainda que a média nacional seja no fundo bem superior à média mundial ou mesmo europeia). Habituado que estou à praga catastrofista, embarco de bom grado nela; porque, lá está, não sou melhor do que a média. E produzo? Certamente, mas nunca o suficiente. Talvez mais do que a média, mas poderei eu dizer que aqueles que nos governaram e governam são piores ou mais incompetentes do que a média? Ninguém sabe. Os vícios dos políticos são outros, não tanto a preguiça. Acredito piamente no esforço, na dedicação, no suor dos nossos governantes. Que esse esforço seja quase sempre mal direccionado, muitas vezes mal-intencionado e amiúde certamente criminoso, pormenores da história. A culpa será sempre nossa; a democracia é tão tramada como o regime psicanalítico da moral judaico-cristã. O pecado original do português é não se importar em ser mal governado. Sentimos culpa por termos um pouco mais que os nossos pais, e sabemos que, no fundo, não o merecemos. É bem feito que uns senhores chegados de avião no meio do nevoeiro que cobre o país nos venham tirar o que fomos acumulando. Resgatar-nos do nosso mediano comodismo. É a maldita culpa.

 

Contudo, rejubilemos. No entanto, esperemos – até porque nada mais podemos fazer. Parece que todos os precipícios têm fundo, e certamente que um dia haverá crescimento económico. Se entretanto regredirmos umas décadas em direitos sociais, em conquistas democráticas, é para o nosso bem. A purga é necessária. O caminho é apenas um, sigamos o próximo Messias. Em direcção ao abismo. Nem que seja.

 

(Texto publicado no Delito de Opinião.)

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