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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Renegociar

Miguel Cardina, 18.05.11

 

Tenho um amigo que gosta de lembrar um erro frequente da esquerda: o de considerar que a incapacidade em fazer valer os seus pontos de vista resulta da falta de profundidade dos debates que lhe são constitutivos. A verdade é que frequentemente os problemas da esquerda são de outra natureza: não tanto intelectuais quanto políticos. Nesses casos, mais do que um esforço decidido de repensamento e reconfiguração, o que lhe falta é força política para tornar as suas ideias hegemónicas. Claro que ambas as coisas não estão desligadas, mas a pulsão autocrítica, sendo fundamental, leva por vezes a processos de autoflagelação nem sempre construtivos. E mais: esquece que frequentemente já temos as boas soluções vislumbradas. Falta apenas a tal força política para aplicá-las.

 

Um exemplo claro nos tempos que correm é a proposta de renegociação da dívida. No debate com Francisco Louçã, José Sócrates chamou-lhe a promoção do “calote”. Sócrates é um homem que “honra os seus compromissos”, está bem de ver, e que deste modo faz de advogado dos credores contra um país que entrará numa espiral recessiva e que, mais tarde ou mais cedo, terá mesmo de renegociar, como se prepara para fazer a Grécia. Foi curioso por isso ver Ricardo Costa nos seus comentários ao debate dizer que a renegociação, “a médio prazo”, até faz muito sentido. Ou descobrir agora, via Joana Lopes, que a proposta vai conquistando almas honradas e insuspeitas, como Medeiros Ferreira.

 

E chegamos assim ao drama actual do país: quem tem as propostas certas não parece vir a ter força política para as implementar; quem aparece melhor colocado nas sondagens não tem a visão política necessária aos próximos tempos. Um drama, valha-nos isso, que pode ter alguma resolução nas urnas. Assim a população seja mais corajosa do que os políticos do "grande centro" ideológico que nos tem desgovernado.

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