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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Screamadelica/Primal Scream

Sérgio Lavos, 29.05.11

 

Bobby Gillespie é o homem que tocou bateria num dos grandes álbuns dos anos 80, Psychocandy, dos Jesus and Mary Chain. Só por isso, já teria lugar garantido na história da música pop. Mas esta circunstância é um pormenor, se olharmos para o que se seguiu. Insatisfeito com os humores etílicos dos irmãos Reid, decidiu começar a sua própria banda. Os Primal Scream. Depois dos álbum de 1987, Sonic Flower Groove, ainda marcado pelos sons noise guitar, versão Jesus ou Cocteau Twins, e pelo álbum de 1989, homónimo, cunhado pela influência do rock dos anos 60 (a que voltariam mais tarde), Bobby Gillespie descobriu o ácido. E em 1991, saiu Screamadelica. Fusão entre rock e música de dança, entre o house que os dj's passavam na hacienda e os discos dos Rolling Stones da década, Screamadelica é um acto de fé no poder de uma boa trip. Confessado mais tarde pela banda, cada álbum foi gravado sob influência de um droga diferente. Pouco interessa o que é a verdade. Queremos saber é do fantástico resultado final.

 

Desde a primeira faixa, Movin' on up, com refrão cantarolável, maracas e o delicioso coro gospel a elevar a voz drogada de Gillespie aos céus, o solo que não seria desdenhado por um Keith Richards nos seus piores dias, e o fabuloso final em fade out. Slip inside this house, uma cover de uma música de 1967 dos 13th Floor Elevators é a primeira incursão no house, samples, batida com um groove infeccioso, rock psicadélico com piano e mc à mistura. Depois, Don´t fight it, feel it, e estamos numa pista de dança de Ibiza, mas numa versão retro-marada: a voz funk de Denise Johnson, o piano eléctrico, os sons para chamar pelo povo. A pedir remistura mais electrónica, que aconteceu em várias versões. Depois da euforia da dança, a queda. Higher than the sun é a primeira canção perfeita do álbum, psicadelismo electrónico puro, uma viagem por um plano mais elevado, a voz de Gillespie a planar sobre uma batida trip-hop deslizante. E o loop final, já noutro universo. Mas a queda ainda vai mais longe, e o espírito regressa ao corpo. Inner Flight é o segundo momento de perfeição, um instrumental com aaah's e ooo's pelo meio, minimal, guitarra cristalina e som de flauta divinal (sintetizado) a conduzir a alma a lugares cuja existência preferiríamos desconhecer. E, claro, um sample de Brian Eno. Come Together é quase tão brilhante como a música com o mesmo nome dos Beatles. Um discurso do reverendo Jesse Jackson transformado em incitação às massas de um dj numa rave, digressões electrónicas analógicas e o refrão gospel repetido à exaustão. Um Deus profano a brincar com coisas sagradas - como o amor, a chave dos anos 60, a década que conduz todo o álbum. Depois, aparecem as palavras de Peter Fonda em Wild Angels, o sample acrescentado por Andy Wetherall, o produtor do álbum, para servir de mote para mais um ziguezague entre o house e o rock americano, batida madchester e secção de sopros elevando a música aos píncaros. O single de apresentação, canção pedrada, on the road como os anjos do Inferno do filme de Roger Corman (e o melífluo som do melotron pontuando o gospel em loop contínuo). Nancy Sinatra, de quem os Primal Scream fizeram uma cover alguns anos depois, é a outra estrela do filme. Tudo bate certo. A seguir, Damaged é a balada que qualquer álbum de rock tem de ter. Piano e guitarra, crescendo amoroso e desalinhado, pedrado e danificado, sintetizador de cabaré a acompanhar e solo quase bluesy embrenhado no lamento existencial. Um intervalo na euforia. A que se se segue a ressaca de I´m Comin'  Down, bater no fundo com saxofone e digressão de Gillespie pelos caminhos mais negros da alucinação psicadélica. A reprise de Higher Than the Sun, mais longa, a versão dub, arrastada, atmosférica, extraterrestre. A música original reduzida aos seus fundamentos sonoros, esqueleto exposto para as pistas de dança. A caminho do fim de festa. Saídos da discoteca, em pleno ar livre, as estrelas brilham (e, na minha memória, o rumor do mar mistura-se com as últimas notas da última música dançada na pista de dança). Shine Like Stars, a caminho do fim da noite. Grande final.

 

Vinte anos depois, os Primal Scream ainda andam por aí (e contam com a ajuda de um dos maiores baixistas de sempre, Mani dos Stone Roses). Vêm a Portugal tocar na íntegra Screamadelica, no Optimus Alive, no dia 7 de Julho. Vinte anos depois, continua a ser um grande álbum.

 

Screamadelica

Primal Scream

Lançado em 23 de Setembro de 1991 pela Creation

Produzido por The Orb, Hypnotone, Andrew Weatherall, Hugo Nicholson e Jimmy Miller

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