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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Comissário para uma colónia que se deixa tratar como capacho

Daniel Oliveira, 31.05.11

Fontes da troika fizeram saber que os partidos com possibilidade de governar (um novo conceito constitucional) já deveriam ter escolhido um "alto comissário" para começar a preparar a aplicação medidas do memorando. Uma espécie de primeiros-ministros ad hoc antes das eleições. Tenho ideia que nos países destes senhores - alguns deles também bastante endividados e prontos para cair no buraco da crise - há leis e constituições e que a democracia não é uma mera formalidade. Também por cá, da ultima vez que olhei para a nossa lei fundamental, não constava a figura de um comissário pré-eleitoral.

 

A forma como estes manga de alpaca falam dos países onde itervêem, mais típica de governadores coloniais do que de instituições internacionais com algumas regras diplomáticas a cumprir, não é apenas insultuosa. É demonstrativa de uma extraordinária falta de cultura democrática. Portugal não é uma das ditaduras onde o FMI se sente mais em casa. É uma democracia parlamentar. Aqui elegem-se deputados e governos. A legitimidade de quem governa reside no voto popular. Em democracias não se nomeiam conissários antes do voto e o voto não é um pormenor que se ignora.

 

Mas o que deveria causar indignação a qualquer democrata ou patriota parece ser natural para os candidatos a diretores-gerais do PS e do PSD. Passos tentou mesmo usar o insulto em seu favor: vejam que eles, inteligentes, civilizados, lá de fora, querem mudar de governo. Até onde vai a falta de espinha de quem se diz líder político.

 

Estamos, ao que parece, condenados a ser governados por capachos. Mas o problema não é apenas dos candidatos a tão pobre figura. A maioria dos portugueses acha que merece ser tratada com este desprezo. Aplaude a chegada do colono e acredita que ele vem pôr a piolheira na ordem. Aceita o insulto sem um protesto.

 

A respeitabilidade de um povo não se mede pela emoção com que canta o hino ou o fervor que entrega à evocação da sua história. Vê-se na forma como se trata e se deixa tratar. E um povo que não se choca com a sugestão estrangeira da escolha administrativa de um comissário que prepare a governação, como se o seu voto nem existisse, provavelmente merece os passos e os sócrates que lhe têm saído na rifa. Neste País falta mais do que dinheiro. Começa a faltar alguma dignidade.

 

Publicado no Expresso Online

5 comentários

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    José Peralta 31.05.2011

    A quem pedir o dinheiro ?

    Por exemplo, em vez de chamar gatunos à minoria residual de pessoas que recebem indevidamente subsídio de desemprego, (e eu não nego que as haja) argumentando com a falácia de que é por causa dessa minoria que outros não o recebem (e já há cerca de 300.000 que a ele não tem direito !) porque não ir "buscar" o dinheiro...a quem o tem ?  

    Aos administradores, cada um com cerca de trinta empresas, e respectivos ordenados milionários. (Que grandes "trabalhadores" !!!).

    Aos gestores de empresas públicas completamente falidas, mas que mesmo assim, tem ordenados e prémios faraónicos, por "boa gestão"...

    Às reformas duplas (ou triplas, ou...) e milionárias de títeres como Eduardo Catroga, Leite de Campos, etc., etc., etc.

    Poderia não ajudar muito, mas sempre tapava alguns buracos e aliviava as medidas drásticas que os pobres em geral, vão ter de pagar.

    Mas disso não falam, nem Sócrates, nem Coelho, nem Portas...

    Porquê ? Porque não querem afrontar as clientelas... e os amigos !


     
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    PedroM 31.05.2011

    Acredita mesmo nessa conversa? Uma coisa são os exemplos que deu e outra é misturar as coisas, como a retórica do ódio capitalista do BE faz.
    Acha que se os exemplos que deu acabassem não teríamos que pedir ajuda na mesma? Que não estaríamos na banca rota? Acha que seriam uns irrisórios milhões que fariam diferença face aos milhares de milhões em causa?
    É precisamente este tipo de areia que o Daniel e BE nos atiram para os olhos, querendo misturar as coisas e fazendo-nos crer que uma resolve a outra.


    A questão fundamental neste cenário de curto prazo é: o que faria o Daniel e o BE para pagar pensões, ordenados e subsídios vários passado um mês! Ou seja, onde arranjariam eles o dinheiro?
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    José Peralta 31.05.2011

    "Poderia não ajudar muito, mas sempre tapava alguns buracos e aliviava as medidas drásticas que os pobres em geral, vão ter de pagar"

    O meu 5.º parágrafo, que pelos vistos lhe passou despercebido, responde às suas perguntas.

    Porque a haver sacrifícios para todos, eles deviam recair mais sobre quem mais pode, e que mesmo assim, a crise passar-lhe-ia ao lado.

    E qual "ódio capitalista" ?

    Ninguém quer acabar com os ricos ! Em tempo de crise para todos, o que se pretenderia é que fossem "menos" ricos, para que os pobres fossem menos pobres, e menos vítimas de uma crise de que não são culpados !

    E fiscalize-se e puna-se mais, por exemplo, a corrupção que continua exponencial e a fuga ao fisco, de alguns grandes tubarões, que até tem especialistas para o efeito... 


     
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    PedroM 01.06.2011

    "Em tempo de crise para todos, o que se pretenderia é que fossem "menos" ricos, para que os pobres fossem menos pobres, e menos vítimas de uma crise de que não são culpados !"

    Nalguns casos, sim mas não se deve nunca ter dado conta da quantidade de empresas que fecharam e faliram; das dívidas e prejuízos contraídos pelos seus donos; da perca de património pessoal; da coragem que é preciso ter para arriscar o pescoço a investir num negócio qualquer para o fisco lhes sugar o que puder e lhes cair logo em cima ao mais pequeno atraso - mesmo que por exemplo não paguem o IVA ao estado porque  esse mesmo estado que não lhes pagou o trabalho como cliente; etc.

    O que quero dizer é que há muita gente "rica", para os padrões do país, que efectivamente empobreceu - e muito. Querer fazer passar a ideia que todos enriqueceram nestes anos menos os mais pobres é falso. O grave é haver efectivamente quem tenha enriquecido - e muito - à custa de compadrios e negócios de amigo com o estado e autarquias. Isso é uma imensa minoria e é do que mais me choca e enoja. Não são aqueles que, sendo patrões ou não, conseguem progredir com esforço e mérito nestes tempos difíceis.


    "E fiscalize-se e puna-se mais, por exemplo, a corrupção que continua exponencial e a fuga ao fisco, de alguns grandes tubarões, que até tem especialistas para o efeito..."100% de acordo. ou quase... Falta referir que muitos milhares dessa gente não são os "grandes tubarões": são os genuínos portugueses, onde alguns deles crescem e chegam a tubarões, que diariamente a isso se dedicam - desde o canalizador ao café da esquina; do sapateiro à mercearia de bairro ou as pobres minorias nos seus negócios de feiras...

    A maioria desses tubarões vem da raia miúda, como a maioria do patronato sem qualificação que explora a classe operária foi em tempos um desses pobres trabalhadores. 

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