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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Bons exemplos

Sérgio Lavos, 13.10.11

 

A história repete-se. Como aconteceu com Avelino Ferreira Torres, Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro. Como continua a acontecer com o intocável Alberto João Jardim, cuja vitória foi parabenizada por idiotas úteis da direita, habitualmente histéricos ao mínimo desvio da esquerda. Isaltino Morais, o autarca condenado e reeleito em Oeiras, depois de o último recurso interposto pelos seus advogados ter sido recusado unanimemente pelos juízes do Tribunal Constitucional, continua a bater com a mão no peito, clamando inocência. Os ingénuos e os cínicos podem dizer que está no seu direito; mas a verdade é que ele continua a persistir porque o exemplo dos seus antecessores criou um precedente. Mas atenção, o precendente não está no clamor de injustiça; está na sensação, que todos estes políticos devem ter, de que o que lhes está a acontecer é uma anormalidade inominável. Pudera, afirmo eu: se é prática comum nas autarquias deste país o jogo de interesses, os benefícios em troca de favores, a corrupção, por que razão apenas foram alguns julgados e incriminados?

 

O sentimento de impunidade de que estes autarcas gozam nasce da impunidade de facto que grassa no país. Quem já lidou com processos que envolvem autorizações de Câmaras ou Juntas de Freguesia sabe como as coisas funcionam. Em pequena escala, mas também em grande escala. Toda a gente sabe, mas ninguém se importa. Tornou-se habitual, normal, a regra. Não estamos assim tão longe do México - por cá, a corrupção institucionalizou-se. E quem poderia mudar este estado de coisas - sim, somos nós, que votamos em quem nos governa - está-se, positivamente, nas tintas. A vox populi é corrente: "vota-se no autarca pela obra feita - e se ele conseguiu sacar algum, tanto pior, eu faria o mesmo". O exemplo parte de cima e estende-se ao resto da população; a economia paralela tem, segundo estudos recentes, um peso enorme nas contas do país. Da factura que não se passa (nem se pede) à descarada fuga aos impostos, são poucos os que podem afirmar ter sido sempre honestos. A regra, lá está, é a desonestidade. E depois queremos ter os mesmo hábitos dos ricos povos do norte... se o crime é socialmente aceite, como poderemos nós alguma vez chegar aos níveis de vida que esses países ostentam?

 

Isaltino Morais não é mais, nem menos, do que a média nacional. Por isso, tem todo o direito de esbracejar, chorar, gritar até que a voz lhe doa. Estamos a navegar há muito em águas turvas, o habitat natural de vermes e outras criaturas das profundezas.

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