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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O carro de Mota Soares e o efeito boomerang do populismo

Daniel Oliveira, 29.11.11

 

Antes de mais, devo dizer que, em geral, me incomoda o debate político que se centra nas aparências. É preguiçoso. Quem leia os mails irados que por aí circulam fica convencido que os problemas financeiros do Estado e do País resultam de motoristas, gabinetes, secretárias, carros e assessores. Infelizmente, a nossa situação é bem mais complexa do que isso. Nem todo o parque automóvel do Estado chegaria para pagar as parcerias público-privado.Nem todos os assessores ministeriais chegariam para tapar o buraco do BPN. Nem todas as reformas vitalícias pagavam a fatura dos dois submarinos que comprámos e que um dia saberemos exatamente porquê. E nem todas as cruzadas contra o despesismo dos boys laranja e rosa resolveriam o nosso endividamento externo e as razões que a ele levaram.

 

Resumindo: acho importante a moralização do comportamento dos que resolvem entregar-se ao serviço público e estranho sempre a falta de cuidado com que tratam o dinheiro que nos pertence a todos. Deve ser debatido de uma forma séria e alargada. Mas incomoda-me que demasiadas vezes isso sirva para deixar o debate político que interessa de fora dos holofotes.

 

No entanto, este governo tem-se servido de um discurso populista para justificar o seu ataque sem precedentes ao Estado Social. Lança para cá para fora os salários de apresentadores de televisão para privatizar a RTP. Lança para a comunicação social mentiras sobre as férias dos trabalhadores da Carris (dizendo que têm 30 dias de férias e omitindo que na empresa o tempo de trabalho se mede por dias corridos, correspondendo essas férias aos mesmos 22 dias dos restantes trabalhadores) para justificar a sua criminosa política de transportes. Usa o descontentamento das pessoas com o clientelismo que PSD, PS e CDS alimentaram durante décadas para justificar os negócios que anda a preparar com o que é de todos nós.

 

E avança com medidas simbólicas para a moralização do Estado que, quando são escrutinadas, percebe-se que nunca chegaram realmente a acontecer - lembram-se das férias dos deputados? Ou demasiado patéticas para sequer merecerem a nossa atenção - lembram-se do fim das gravatas no ministério da Agricultura? Tudo serve para que os debates essenciais não se façam enquanto as medidas são tomadas.

 

Quando vi Pedro Mota Soares chegar de vespa a um Conselho de Ministros achei graça. Não pelo exemplo de desapego, que me pareceria fazer pouco sentido. Mas pela falta de pompa, que me agrada. Não acho que os ministros tenham de andar de transportes públicos para ser bons ministros. Tenho pouca paciência para esse moralismo. Mas acho que daria jeito que os ministros soubessem o que são os transportes públicos e espanta-me que seja tão difícil encontrar responsáveis políticos em lugares públicos. Assim como me espanta que o estatuto das pessoas seja avaliado, neste País (e não apenas no Estado), pela cilindrada do carro que têm.

 

Acontece que, afinal, a vespa de Pedro Mota Soares era, como quase tudo neste governo, fogo de vista. Ficámos a saber que, no seu trabalho, usa um carro de 86 mil euros. Alugado por quatro anos. Não esperaria que o ministro da Solidariedade se deslocasse pelo País, com uma agenda que seguramente é carregada, numa scooter. Não me incomodaria que ele se fizesse transportar num carro confortável onde pudesse ir trabalhando enquanto viaja. Mas é indispensável que o faça num carro tão caro? Quando o seu sensível Ministério levou um corte brutal, quando se tiram prestações sociais a tanta gente que passa dificuldades inimagináveis, não seria de bom tom manter alguma parcimónia nos seus próprios gastos?

 

Podia fazer as contas de quantas prestações sociais se poderiam ter poupado com este carro. Não o faço porque não acho que seja o debate que interessa. Não o faço porque, mais uma vez, o ataque ao papel social do Estado e a sua transformação em caridade para miseráveis não se evitaria com a devolução do carro de Pedro Mota Soares. Apenas me fico por isto: quer este governo continuar a fazer populismo com os direitos dos outros, passando a ideia de que se tratam de preguiçosos a viver pendurados no Estado? Se quer, cada um dos seus ministros, secretários de Estado e assessores acabará por ser apanhado numa qualquer despesa injustificada. Porque se é nesse patamar que colocam o debate político é nesse patamar que o terão.

 

Sim, um carro de 86 mil euros para um ministro que dedica grande parte do seu tempo a tirar aos que mais necessitam apoios sociais incomoda-me. Mas se Pedro Mota Soares andasse num carro bem mais barato, de autocarro ou a pé a minha opinião sobre as medidas que está a tomar não seria diferente. E isso é que conta.

 

Publicado no Expresso Online

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