Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011
por Daniel Oliveira

 

O Presidente da República disse uma mentira e uma verdade. Disse que os portugueses beneficiaram do euro e tiveram uma "vida fácil". É falso. E que negligenciámos a produção de bens transacionáveis. É verdade.

 

A primeira mentira resulta da inversão entre causa e consequência. Vamos partir do princípio que a acusação de "vida fácil" não é dirigida a maioria dos portugueses. Se for o caso, o Presidente não vive no mesmo País que eu. Vamos então dar o beneficio da dúvida e achar que se refere à nossa economia. Não é verdade que a nossa economia tenha beneficiado com o euro. Pelo contrário, todos os dados económicos (é ver a balança comercial e a dívida externa a partir de 2000) demonstram o oposto: com uma moeda forte as importações foram facilitadas. Mas exportar tornou-se extraordinariamente difícil. Essa dificuldade começou, aliás, um pouco antes: com a convergência com o marco, que começou depois de Maastricht e antecedeu a adesão à nova moeda. Resultado: o País perdeu liquidez e endividou-se no exterior.

 

A aposta em bens não transacionáveis, em serviços e na distribuição de produtos importados não resulta de uma negligência dos "portugueses". As privatizações de empresas de serviços, que canalizaram enormes investimentos privados, terão ajudado à subversão das prioridades. Mas a principal razão é a que já referi: com uma moeda forte e tendo perdido um dos argumentos competitivos que as economias fracas têm, os empresários procuraram outros negócios. Se exportar é caro e importar é barato, a escolha fica fácil. Importa-se em vez de se produzir. Por cá, dedicamo-nos ao que está, apesar de tudo, menos exposto à concorrência externa, por depender mais da proximidade.

 

A verdade é esta: o euro foi mau para a nossa economia porque inverteu todas as prioridades. A "negligência" a que se referiu o Presidente resultou de escolhas empresariais racionais. E essas escolhas resultaram de uma adesão ao euro mal preparada e mal negociada.

 

Os únicos portugueses que viram a sua vida facilitada foram os que viajam para o estrangeiro e os que importam bens e serviços. Não foram uns malandros sem escrúpulos. Apenas fizeram o lógico. Ficaram a perder os exportadores e os que, produzindo para o mercado nacional, deixaram de conseguir competir com produtos importados. Mesmo as nossas empresas que se internacionalizaram fizeram-no sem incorporar produtos ou mão de obra nacional. Ou seja, sem grande vantagem para a nossa economia. Em alguns casos, como o da EDP, com desvantagens óbvias.

 

Sim, foram cometidos erros por parte dos sucessivos governos: a aposta quase exclusiva nas obras públicas (mais protegida da competição externa) e nos serviços; as privatizações feitas sem critérios de interesse nacional; a multiplicação de grandes superfícies que centralizaram a distribuição e esmagaram os produtores; ou odesinvestimento (apoiado pelo Europa) na indústria, na agricultura e nas pescas. Tudo foi feito para consumirmos importado em vez de produzirmos para exportar. Esses erros não resultam da nossa adesão ao euro. São anteriores. O euro apenas os acentuou. E neles, o ex-primeiro-ministro Cavaco Silva deu o mote para os que lhe seguiram.

 

O problema do discurso moralista sobre os portugueses e infantil sobre a economia que agora está em voga - "vida fácil", "viver a cima das nossas possibilidades" ou "viver com o que se tem" - é que não tem qualquer rigor económico. Vende uma narrativa para impor sacrifícios aos que nunca viveram com desafogo. Desta narrativa resultam falsos culpados e falsos inocentes. Os culpados são "os portugueses", que, apesar de viverem no País mais desigual da Europa, são tratados como uma massa uniforme de privilegiados e gastadores. Os inocentes são os sucessivos governantes, onde está seguramente incluído o homem que governou na nossa primeira década europeia.

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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25 comentários:
faltou mencionar os juros excepcionalmente baixos e os milhões a fundo perdido da europa! Tão cedo, os tugas não têm a vida tão "fácil".

deixado a 23/12/11 às 11:29
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Cristina Correia
Os milhões a fundo perdido, foram parte de uma estratégia de empobrecimento, em que se pretendeu liquidar tudo o que fosse produção nacional e passar a importar o que a europa central produz, por isso quem são os verdadeiros responsáveis? 


está a dizer que os alemães e amigos estavam com medo, desse colosso que é Portugal? Foi isso que fizeram em Espanha?


Cristina Correia
Não, estou a dizer que os alemães não estão interessados em perceber que um país que passou a viver de bens e serviços, por má gestão ou gestão danosa de seus governantes, não tem efetivamente capacidade de pagar a "dívida", claro que os principais responsáveis, eu acho que são os nossos governantes, a Espanha que é também a nossa principal credora, apesar de tudo soube defender melhor os seus interesses, é a minha opinião.

deixado a 24/12/11 às 00:13
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É natural que quem sempre viveu na mama do contribuinte e para quem o estado se confunde com o país, os portugueses tiveram vida fácil. Porque para quem o estado é o país, os portugueses terminam na porta da repartição.

É verdade que para o país, para a outra metade que sustenta "os portugueses de vida fácil", não houve vida fácil nem vai haver. Para aqueles cujo salário depende do que produz, para aqueles que têm que trabalhar por eles e pelos "portugueses", para aqueles que têm que passar a vida a valorizar-se, para esses não houve nada fácil.

Essa imbecilidade só poderia passar pela cabeça de um comuna envergonhado como o Cavaco que, pelos vistos, continua a achar que o estado é o país. Pelo menos enquanto o país não deixar cair o estado de vez...

deixado a 23/12/11 às 12:15
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José Peralta
Bravo,Tótó !

Essa análise ! Esse discernimento ! Essa perspicácia !

O Cavaco é...um "comuna envergonhado" !!!!!!

Pois claro !...

Bravo, Tótó...


Anónimo
Mas quem é que não é um comuna envergonhado para si, caríssimo?


José Peralta
Do Cavaco, pelo menos, sei que comuna é que ele não é...

...E vergonha, é coisa que lhe falta...

deixado a 23/12/11 às 18:57
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Gallup
Epa, mas tu também votas em comunas ó lambe botas??? Ou vais dizer que nunca votaste no Cavaco!!!Image Como eu digo, és autêntico ignorante, hipócrita, cínico, mentiroso, uma cavalgadura mesmo, uma autêntica besta.
Metes nojo medíocre de merda. Um aldrabão vem falar que sustenta os outros, mentiroso de merda. O mais certo é tu mesmo seres sustentado pela maioria que aqui insultas, senão para que precisarias inventar que és Investigador e essas tretas todas meu grande cromo? Além de um borra botas ainda mente mais que o Sócrates. Mas que grande cromo!
Faz um favor à sociedade e interna-te atrasado mental.


Ora, quem é vivo, sempre aparece. Duas más notícias no teu caso, mas dá lá boas festas à tua mamã! Afinal, deves ser o único que ainda não o fez... Boas festas!


Gallup
Mas continuo sem precisar de inventar a minha vida pessoal ou profissional. Já tu aldrabilhas, continua aqui a escrever o teu mundinho de faz de conta sobre os teus colaboradores e as mães dos outros... Apesar de seres irritante, reconheço, também proporcionas grandes momentos de gargalhada geral. Boas festas pobre medíocre mentiroso!!!Image


Continua à pesca, pode ser que apanhes alguma coisa.

deixado a 24/12/11 às 12:38
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andresilva

 Tenho acompanhado os seus cometários neste blog e no blog 4r. É interessante a sua evolução cada vez mais em direcção à extrema-direita.


Seria à extrema direita se colocasse nos outros as culpas dos meus insucessos, seria à extrema direita se quisesse impor sobre os outros a minha vida e a minha forma de ver as coisas. Não, eu só reclamo que cada um possa fazer aquilo que quer fazer, livremente, sem prejudicar os outros, sem parasitar os outros. Isso é extrema direita para si???

A "esquerda" que você lê aqui é a mesma do Cavaco. Reclama um estado social em que a sociedade são eles, quer impor a sua visão das coisas porque acham que os outros devem sustentar a sua superioridade. E se a evidência de que são uns merdas é demasiada, então lançam desculpas várias: é o Amorim, são as agências de rating, são os especuladores da economia de casino, é a economia de casino, é o Sarkozy, é  a Merkel, é o Bush, são os americanos, são os bancos, são os lucros imorais do bancos, ...
Todos os males do mundo têm culpados que são outros, é como ler o "mein kampf"

deixado a 24/12/11 às 10:11
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Primeiro ponto: acho que o presidente cavaco queria mesmo referir-se aos portugueses e não à economia.  E todos nós tivemos uma vida imoralmente fácil (uma cambada de ociosos que se refocilam no lodaçal do consumo) merecem ser penalizados com uma vida mais difícil. Éa diferença entre a imoralidade do consumo e a ética do trabalho de Américo Amorim. É certo que muitas pessoas viveram um pouco acima das possibilidades, com um crescimento artificial e não sustentado, com acesso ao crédito (este sim fácil). Muitas pessoas viveram muito abaixo das suas necessidades. E um punhado de pessoas viveu muito acima do que mereciam: gestores, políticos (existe alguma diferença entre os dois?) Mas o Daniel salientou, com razão. que com o euro as exportações se tornaram muito difíceis. Mas mesmo assim, recentemente, e com a derrocada do consumo interno, tem sido as exportações a dar algum alento à economia. E que a «vida difícil» apenas vai provocar mais a contracção do consumo, a recessão, o incumprimento da dívida, etc.

deixado a 23/12/11 às 12:16
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Cristina Correia
Meu amigo se tem tido vida fácil não generalize sem ter conhecimento da realidade do resto do país nem a si, nem ao pr admito leviandades desse género!


Minha amiga,se tivesse lido todo o comentário com atenção, perceberia que parte do que lá digo é irónico: «uma cambada de ociosos que se refocilam no lodaçal do consumo»? «a ética do trabalho de Américo Amorim»? Onde é ficou com a ideia que eu partilho das opiniões do PR? Disse e repito que algumas pessoas viveram acima das possibilidades, o que não implica necessariamente que sua vida fosse um mar de rosas. Escrevi também que o crédito esse sim, era fácil: o que sugere que não estou de acordo com o PR. Não, a minha vida não tem sido fácil, nem concordo com aqueles que dizem que vai ser ainda muito mais difícil...e é desejável que assim seja.


Cristina Correia
Tem toda a razão peço desculpas pelo equívoco. Cristina


Ok, estas coisas acontecem a qualquer pessoa. E a ironia tem de ser muito bem utilizada, senão provoca facilmente equívocos. Desculpas aceites...

deixado a 27/12/11 às 12:43
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João Miguel
Daniel Oliveira, não se importa de mostrar esses tais gráficos da dívida pública e da balança comercial de que fala? É que o Daniel Oliveira passa a vida a dizer que o euro prejudicou as exportações, mas nunca se dignou a provar isso mesmo com dados.

Obrigado.

deixado a 23/12/11 às 16:53
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web/sniper
É cada vez mais penoso - no meio desta profunda crise - ouvir Aníbal.
Ficamos sem saber se fala enquanto actual presidente da República ou na qualidade de ex-primeiro ministro, de ex-consultor do BdP, de professor de economia...

Desconhecemos se está a fazer revelações ou a cumprir penitências.
Há, todavia, uma certeza. O seu discurso tornou-se desconexo (quer para a Esquerda ou para a Direita). Todos aqueles que o citam ou imploram a sua colaboração (cooperação) estão desarrimados...

deixado a 23/12/11 às 18:44
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Joe Strummer

O que deprime é que a estratégia deste governo é o retorno às exportações antigas por via da penalização dos salarios (impossivel que é a desvalorização da moeda) em vez do acrescento de valor e inovação.
O que foi feito nestes ultimos anos tem que ser continuado em começamos a mudar o perfil das exportações. Não existe caminho alternativo. Apostar em sectores e clusters (como a energia eólica em que somos considerados experts e q valeu a ignobil privatização da EDP despertar a cobiça dos maiores players mundiais) que criem valor. Temos grandes valores criativos e inovadores. Para isso precisamos dos melhores e não que emigrem. Tudo ao contrario.

O que o Cavaco fez quando entramos para a Europa não teve perdão, em vez de apostar em I&D apostou no betão. Consolidada a tendência é muito dificil invertê-la com a nebulosa mediatica a contravapor e a gestão de ciclos politicos. Agora vamos voltar a empobrecer nesta especie de novo salazarismo.

Pior. Não se vê ninguem dentro do actual sistema politico com uma visão sobre o País para alem dos modelos de franchisings ideologicos exteriores.

deixado a 23/12/11 às 19:11
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Nuno
Os portugueses beneficiaram do euro e tiveram vida fácil porque passaram a ter, através de crédito (e juros baixos) acesso a bens e serviços que nunca poderiam alcançar através de uma normal evolução económica.
Em teoria, esse crescimento económico devia ter sido desenvolvido nos anos dos fundos, mas preferimos gastar o dinheiro em negociatas, quer para satisfazer clientelas, quer para satisfazer o povo, via "obra feita".
Uma palavra ainda para as célebres formações, que trataram da vida de muita gente, e serviram para iludir muitos mais.

deixado a 23/12/11 às 23:51
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José Silva
Todos sabemos que Cavaco Silva, é um dos principais responsáveis por esta crise, primeiro porque não demitiu José Sócrates, segundo porque o seu papel de adesão ao euro foi frouxo e é culpado pelo desmantelamento da nossa agricultura e pescas e como Algarvio não zela pela região onde nasceu, promulgando o pagamento nas Scuts. daí que:-
O NATAL SEM RENAS
-
Ó Pai Natal, essas renas
que vêm dum País Nórdico
deviam ser mais pequenas
não vão passar o pórtico?
-
Não podem passar pela Via
também não pode o elefante
nem de noite e nem de dia
passam na Via do Infante?
-
com frio os guardas quedos
já não querem ser do G.O.E.
renas não levam brinquedos;
-
como isto a meus netos dói
como vão numa noite gelada
ai ficar sem a sua consoada!?
-
Eugénio dos Santos



deixado a 24/12/11 às 14:36
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Olá José, gostei muito do seu "O NATAL SEM RENAS"

deixado a 19/4/12 às 21:03
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