Segunda-feira, 20 de Fevereiro de 2012
por Daniel Oliveira

 

14 em cada 100 trabalhadores portugueses estão, enquanto ouvem apelos para mais trabalho e produtividade, impedidos de contribuir para o futuro do País. Um em cada três jovens trabalhadores com menos de 25 anos está desempregado. No momento em que a sua energia, vontade de aprender e disponibilidade é maior do que alguma vez voltará a ser o País dispensa-os.

 

Todos os dias quase 900 portugueses perdem o emprego. E tanto desperdício não resulta de uma calamidade natural. Resulta de escolhas políticas. A austeridade, muitos avisaram, teria efeitos dramáticos no consumo interno. E esses efeitos resultariam em falências e em perdas de emprego. É uma espiral sem fim. Mais desempregados são mais despesas sociais e menos receitas fiscais para o Estado, agravando o problema que os austeritários prometiam resolver. Mais desemprego é menos consumo e mais crise. E quase todas as medidas com vista à redução dos custos em trabalho estão a ter os seus efeitos. Não os prometidos, claro está. É um clássico: quando mais os liberais aplicam a sua receita para criar emprego mais o desemprego aumenta. Há mais de dez anos que isto acontece e não há maneira de perceberem que não resulta. Nem aqui, nem em Espanha, nem em toda a Europa.

 

A ideologia dominante vê o desemprego como uma inevitabilidade transitória. Acredita que, através da pressão que ele provoca no mercado de trabalho, se conseguirá chegar a um ponto de equilíbrio nos custos deste "factor de produção". É por isso mesmo que defende leis laborais que promovam a precariedade, despedimentos baratos, subsídios de desemprego meramente caritativos, salários mínimos no limiar da sobrevivência (ou mesmo a sua abolição) e um sindicalismo sem qualquer força negocial. A crença nas virtudes do mercado de trabalho desregulado alimenta-se da ideia de que o desemprego resulta de entraves ao livre funcionamento do mercado e que só o fim desses entraves pode resolver o problema.

 

Os ideólogos da selva têm apenas de lidar com uma contrariedade: a frieza dos números. Às sucessivas reformas das leis laborais, à redução das prestações sociais e à eterna política de "moderação" salarial não tem correspondido um aumento dos empregos disponíveis. Pelo contrário. O aumento do emprego precário e mal pago tem sido sempre acompanhado por um galopante aumento do desemprego.

 

A questão que agora se põe é esta: a que nível de taxa de desemprego sucumbirá a paz social, a democracia e o crescimento que nos garantiram um modo de vida aceitável? Até que ponto estamos dispostos a ir para confirmar o fracasso das crenças ultraliberais? Quantas pessoas teremos de sacrificar até percebermos que este caminho não nos serve?

 

Publicado no Expresso Online


por Daniel Oliveira
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