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Arrastão: Os suspeitos do costume.

A cultura do pântano

Daniel Oliveira, 28.02.12

 

Na mesma entrevista em que defende que "Portugal tem de ser mais alemão que os alemães" Diogo Feio, eurodeputado do CDS, deixa a claro aquilo que espera de Portugal na crise europeia: "Portugal tem de ter austeridade neste preciso momento para reforçar a credibilidade e o rigor." É a tese do bom aluno de um mau professor: não interessa se o que estamos a fazer está certo, interessa ser obediente e esperar que os outros percebam que a receita que nos estão a prescrever está errada. Já escrevi sobre isto ontem.

 

Mas Diogo Feio vai mais longe e a lógica que aplica ao Estado português quer ver repetida nos comportamentos de cada cidadão: "Nós somos observados ao mais pequeno pormenor e cada greve que é feita mancha a imagem de Portugal." O jornal "Público" pergunta: "Como é que se pedem cada vez mais sacrifícios e se pede ao mesmo tempo que os sindicatos e a oposição não façam barulho?" E o dirigente do CDS responde: "Eu não acho que o património da responsabilidade seja apenas do governo e não tenha de ser também dos sindicatos e da oposição". As jornalistas voltam à carga: "Mas essa é uma responsabilidade em sentido único..." Resposta: "É uma responsabilidade mobilizadora, ou seja, para vencer o enormíssimo desafio que tem pela frente." Explica melhor: "Portugal é bem visto por ter uma maioria de governo sólida, porque tem uma situação social pacificada."

 

O que este apoiante do governo propõe é isto: o governo aceita a austeridade para agradar a quem tem o poder na Europa, os cidadãos aceitam a austeridade, mesmo que discordem dela, para ajudar o governo. Os sindicatos devem saber que prejudicam o País se cumprirem a sua obrigação: a de defenderem os direitos dos trabalhadores. A oposição deve saber que prejudica o País se cumprir a sua obrigação: opor-se a soluções em que não acredita. Diogo Feio não quer apenas que o Estado português se faça de morto. Quer a sociedade portuguesa anestesiada e em silêncio.

 

Qualquer dirigente político tem obrigação de saber que as sociedades são dinâmicas e contraditórias. Que a qualquer ação corresponde uma reação. Da mesma forma que os banqueiros pressionam o governo, com os instrumentos que têm, para defenderem os seus interesses, assim o devem fazer os trabalhadores. Da mesma forma que Diogo Feio não critica os empresários por tomarem as decisões que lhes parecem melhores para cumprir o seu principal objetivo (o seu lucro), não faz sentido criticar os trabalhadores por fazerem exatamente o mesmo: defenderem os seus salários e o seu emprego. Pode achar que não o estão a fazer e explicar porquê. Não lhes pode é pedir que fiquem quietos por uma questão de "imagem". Um governo pode alimentar uma farsa por algum tempo. Mas nenhuma sociedade é composta por atores que o sigam acriticamente numa mentira. Quando um governo toma decisões, os cidadãos que se sentem prejudicados por elas reagem e dessa reação nasce o conflito. É bom sinal que assim seja. Quem, em Portugal ou no estrangeiro, veja isto como sinal de "laxismo" (expressão de Diogo Feio) não acredita na democracia.

 

Diogo Feio gostaria que a sociedade portuguesa ficasse suspensa, apoiando acriticamente as decisões do governo, ou pelo menos abstendo-se de as criticar ativamente. É o sonho de qualquer governante pouco exigente: governar sem oposição. É sintomático do deprimente torpor deste governo que a verbalização deste desconforto com o pluralismo político e social venha do mais respeitável (na minha humilde opinião) dirigente do CDS. A tese da suspensão democrática, que tantas criticas mereceu a Manuela Ferreira Leite, institui-se como discurso oficial da maioria. Claro que Diogo Feio explica que não quer suspender os direitos constitucionais. Apenas pede que os portugueses não façam uso deles. Porque a nossa credibilidade depende da nossa anemia democrática.

 

O contraditório, o conflito e o pluralismo não são apenas bons indicadores do vigor democrático de uma sociedade. São indicadores da capacidade de intervenção, autonomia e crítica dos cidadãos. E isso diz muito da sua capacidade de lidar com as crises e de sair delas. Uma sociedade acrítica, apática e assustada não tem futuro enquanto comunidade. Nem futuro político, nem futuro económico. A cultura da obediência é a cultura do imobilismo. É a marca de um País em decadência. E essa decadência sentir-se-á em todos os domínios. Não se pode pedir a um país que seja medroso na política e temerário nos negócios, acrítico na cidadania e exigente no trabalho. O conformismo, quando se instala, espalha-se, como uma doença, por todo o corpo de uma sociedade.

 

A economia não é um mundo à parte. A vitalidade económica de um país está ligada à sua vitalidade social, cultural e política. E o principal problema deste governo é o de querer impor a todos os portugueses a sua cultura de desistência.Um governo apático perante a crise europeia quer uma sociedade apática perante medidas que considere injustas ou erradas. O resultado seria trágico: cidadãos apáticos, trabalhadores apáticos, estudantes apáticos, intelectuais apáticos, cientistas apáticos, empresários apáticos. O mesmo pântano de mediocridade que nos atrasou durante décadas.

 

Publicado no Expresso Online

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