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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Publicar, publicar, publicar

Miguel Cardina, 28.02.12

 

Quem trabalha em ambiente académico conhece bem a pressão do “publish or perish”. Pressão mais forte em universidades ou centros mais marcados pela ideia de “competição” e sedentos em divulgar uma imagem de “inovação” e “internacionalização”; pressão menos forte em locais onde se entende a investigação como parte de um processo socialmente enquadrado e cujo impacto – académico mas também social – não se resume à quantidade de publicações. Pressão, é preciso dizê-lo, que tem um importante aspecto positivo: ela pode funcionar como um estímulo para quebras inércias e dinamizar plataformas colaborativas entre pessoas e/ou centros que trabalham numa mesma área - ainda que possa igualmente contribuir para alimentar manchas cinzentas em torno de autorias, nomeadamente em casos onde exista relação hierárquica.

 

Pouco questionada neste mundo onde nos pedem constantemente resultados, a pressão do publish também tem desvantagens que nem sempre são tidas em conta. Desde logo, o afã publicacionista tende a fazer com que se investigue quase sempre em torno dos mesmos temas e se desvalorizem novos objectos (que naturalmente exigem "perder" mais tempo até se alcançarem resultados). Por outro lado, a pressão de publicar acentua a desconsideração do ensino e da sua relação com a investigação (nos casos pessoais, cada vez mais raros, onde é possível existir essa importante convivência), uma vez que é sobretudo na investigação que se afirma o prestígio académico e se constrói um currículo capaz de pesar nas candidaturas a projectos. Deste modo, a formação universitária fica cada vez mais destinada a professores com vínculo que batalham contra o tempo e as forças ou a jovens doutorandos ou pós-doutorandos que vão “fazendo currículo” em condições económicas que em alguns casos será eufemístico definir como “precárias”.

 

Teríamos muito a ganhar se começássemos a pensar mais estas coisas da investigação em termos daquilo que ela efectivamente é – trabalho – e a desenhar dinâmicas profissionais e reivindicativas que ponham lado a lado aqueles que estão a perder direitos e aqueles que não têm direitos nenhuns. Mas regresso à história do publicar porque hoje recebi um e-mail que me alertou para um outro limite da produtivite académica.

É uma história mínima mas dá que pensar. O e-mail era de uma editora norte-americana (uau!), chamada David Publishing Company, que alberga, entre várias outras publicações, uma revista académica intitulada Sociology Study. Mostravam-se interessados em publicar um paper que apresentara há dois anos num congresso internacional. Não era preciso ser muito perspicaz para começar logo a sentir o cheiro a esturro: o e-mail não tinha nenhuma assinatura pessoal, a minha área de trabalho primordial é a História (Contemporânea) e o intervalo de tempo entre a apresentação e este contacto era demasiado longo.

 

Através do site, deu para perceber que a empresa é nova e apostada em explorar o amplo mercado aberto com o publicar, publicar, publicar. As edições são mensais (!), a língua é obviamente o inglês, refere-se a existência de peer review e lá estão vários números ou artigos individuais para serem comprados online. Algum tempo diante do Google deu para esclarecer melhor o fenómeno. A empresa dedica-se a recolher e-mails disponíveis nos programas das conferências e a enviar estes convites indiscriminadamente. Após o envio do paper, seguirá um e-mail com parcas alterações e, posteriormente, um pedido de pagamento de custos associados à revisão e à publicação, cobrança que pode chegar às várias centenas de dólares. Estamos diante de um novo tipo de fraude académico, chamado já de “bait-and-switch publishing”: feito o artigo, criada a expectativa, diante da importância e da dificuldade em publicar, existirá sempre quem aceite entrar no jogo. Descobri que o tema motivara já um post crítico de Mariana Lameiras no blogue Mediascopio, focado num outro journal editado pela David Publishing Company. A verdade é que este novo negócio parece ter pernas para andar.

 

Existem formas de mitigar a relevância destes esquemas? Existem certamente, como a avaliação pelos pares e a aferição do chamado “factor de impacto” - processo aliás que tem declinações diferenciadas consoante as áreas e que levanta ele próprio muitas dúvidas. Deve confundir-se a pressão para publicar com a existência destes mecanismos fraudulentos? De todo. Mas, ainda há não muito tempo, uma ministra da Ciência atribuíra um prémio chamado de “Estímulo à Excelência” a quem tivesse mais de cem artigos publicados em revistas internacionais. E é frequente ouvirmos discursos de responsáveis políticos da área que constantemente nos falam desta "excelência" que se mede em números e que se esquece das condições de trabalho e de investigação de quem faz ciência. Não deveríamos começar por aqui?

 

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