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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O mistério dos salários encolhidos

Sérgio Lavos, 29.02.12

 

Os augúrios começaram a soar com bastante antecedência. Paul Krugman passou por cá ontem para receber o doutoramento honoris causa, e os ventos de desgraça sopraram mais fortes. As posições de Krugman em relação à crise da dívida soberana são relativamente conhecidas num certo meio, mas o povo que sabe do mundo pelos telejornais não sabia o que este Prémio Nobel da Economia achava do que se passa em Portugal. Para mais, por ter passado por cá no período pós-evolucionário, teria mais autoridade para opinar sobre a crise que atravessamos. Não será necessário repisar as suas teorias - quem quiser que passe pelos Ladrões de Bicicletas e pesquise por Krugman. O que me interessa é o tratamento mediático que a visita dele teve. De tanta coisa que disse, entre a conferência que deu em Lisboa e a entrevista que deu ao Jornal de Negócios (e que passou na RTP Informação), o que acabaria por ser mais destacado seria a afirmação de que os salários dos portugueses teriam de ser desvalorizados entre 20 a 30%. Já não é a primeira vez que esta informação corre pelos jornais. Mas será verdade? No blogue Jugular, houve uma primeira versão desmontada. A tradução que o Jornal de Negócios publicou de uma entrevista dada pelo economista ao Le Monde estava errada. Krugman não tinha recomendado um corte de 20% nos salários portugueses. Tinha apenas sugerido um ajustamento salarial de Portugal em relação à Alemanha, fosse através da subida generalizada da taxa de inflação ou através de um aumento dos salários alemães muito acima de um aumento em Portugal. Trocado por números, como esclareceu na entrevista dada ontem, o ideal seria que, por exemplo, a Alemanha subisse os salários 5 ou 6% e Portugal apenas 1 ou 2%. Esta medida seria suficiente para esse ajustamento de 20% das tabelas salariais entre Portugal e a Alemanha, o que provavelmente tornaria o nosso país mais competitivo sem que fosse preciso cair na espiral recessiva para onde os países periféricos da UE estão a deslizar. É de resto esta a luta de Krugman, no seu blogue do New York Times e nas outras intervenções públicas que tem feito a propósito da crise do Euro: denunciar as políticas de austeridade impostas pelo directório germano-francês, as que estão a levar os países periféricos à bancarrota e ao fim da moeda única. 

 

No entanto, o que se foi ouvindo ao longo destes dias, a parangona mais repetida, é o tal suposto corte nos salários. Eu poderia achar que este é mais um caso de sensacionalismo, que aos jornalistas interessa mais o sangue e a desgraça do que a verdade bem explicada a quem pouco percebe de economia. Mas desconfio que as razões serão outras, bem mais graves. É que na Grécia acabou de ser aprovado o enésimo pacote de austeridade, e desta vez eles vão ser forçados a cortar o salário mínimo em 200 euros. O que se passa, sem rodeios, é muito simples: é preciso mentalizar os portugueses para o que aí vem - não esqueçamos que a Grécia é o futuro de Portugal, daqui a um ano - e o Governo, através do ministro da propaganda Relvas e dos seus assessores pagos a peso de ouro com o dinheiro dos nossos impostos, já meteu mãos à obra. Spinning e mau jornalismo, em todo o seu esplendor; e isto é apenas um exemplo do que vemos e lemos diariamente, o discurso único a que estamos submetidos desde que começaram a notar-se os primeiros sinais da crise. Habituem-se! 

5 comentários

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    makarana 29.02.2012

    ollhe lá, e a crise internacional de 2008 nao existia? já te esqueceste que a ue recomendou politicas de gasto para a crise de 2008,e  que foi isso que todos os governos fizeram? lembras-te do passo coelho ter dito frase como havia demasiada austeridade em portugal no tempo do socrates? lembras-te quando ele chumbou o pec IV pensando so no pote e sacrificando o interesse do pais?
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    PedroM 01.03.2012


    "ollhe lá, e a crise internacional de 2008 nao existia?"
    Já, era a chamada "crise do subprime", que tinha contornos e características diferentes.
    Depois, as políticas da UE não existem; são uma anedota, como são as nossas e os nossos políticos. Claro que lembro essa frase, como lembro "há vida para além do défice" para que se pudesse eleger outro governo. Lembro-me também no início dessa crise do subprime que as soluções do PCP e BE eram exactamente as dos mais ferozes ultra-conservadores-neo-liberais-capitalistas-ferozes americanos: deixar cair os bancos que fossem precisos e não meter um cêntimo lá do dinheiro público. Fizeram isso com o Lehman Brothers e começou a catástrofe dos mercados, tipo dominó.


    "lembras-te quando ele chumbou o pec IV pensando so no pote e sacrificando o interesse do pais?"
    Lembro, com a ajuda e conivência do BE e PCP. Foram eles todos que sacrificaram o país. O PSD a pensar no pote. E o PCPe BE, não tendo pote contentavam-se com o penico?
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    makarana 01.03.2012

    pois pedro, mas a verdade é esta: todos os governos da europ e do mundo, incluindo sarkozys e merkels, umentaram o defice e apostaram no investimnto publico, e foi ai que anossa divida aumentou, para ajudar as empresas e as familias.Qunto aos bncos de facto nao posso opinar muito, sei qu o lhman brothers foi o detonador d crise, mas ´preciso nõ esquecer o buraco do bpn que aumentou estes anos, mesmo estando nacionalizado.Por ultimo,sim, o psd e o cds pensaram no pote.O cas do be e pcp, parece-me que o governo do psd devia ter negociado o pacote com eles., coisa que nao fez, embora reconheceno ele, que seria muito melho do que um intervensão externa
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    PedroM 02.03.2012


    "os governos da europ e do mundo, incluindo sarkozys e merkels, umentaram o defice e apostaram no investimnto publico, e foi ai que anossa divida aumentou, para ajudar as empresas e as familias."
    Para além das políticas erráticas da UE, os verdadeiros problemas de Portugal são dois: primeiro, uma economia que não cresce há décadas.
    Depois - e que conta mais que a dívida pública - é o facto de termos vivido acima das nossas possibilidades. Os arrastões querem a todo custo negar esta evidência mas este é o principal problema.
    Mesmo com uma economia manhosa, a nossa situação podia neste momento não ser tão grave se as famílias não se tivessem endividado em média mais de 100% em relação ao que ganhavam (sem falar no endividamento das empresas). A DECO alerta para isto aos anos. Para o Daniel isto não é viver acima das possibilidades. Se calhar ele pensa "como havia essa possibilidade de endividamento, viviam dentro das possibilidades"...
    Eu também gostava de ter plasmas, playstations, iphones, carros e férias no Brasil e na neve mas nunca me endividaria para isso. A casa já bastava e sobrava. Vejo gente na Seg Social e Centro de Emprego com centenas de euros em roupa e acessórios em cima. Só um telemóvel, que supostamente serve para fazer chamadas, vale mais que um salário! Só lhes servia o melhor, como se fôssemos os melhores.


    Se não tivéssemos este grau de endividamento, certamente que esta crise agora tinha tido um impacto bem menor nas famílias. Têm culpa nisto os governantes que promoveram estas políticas; os partidos da oposição (que por eles, ainda seria um regabofe maior, pois achavam isso pouco); os bancos que se deixaram levar na onda e as próprias pessoas, que não podem ser ilibadas dum grau de endividamento absurdo. Neste quadro, quando a coisa apertasse, só podia rebentar.


    Em relação ao BPN, acho que devia ter sido nacionalizado mas quem tinha que arcar primeiro com as consequências seria a SNL. O estado deve manter e suportar o sistema financeiro; não tem é que amparar e suportar os accionistas. Se apostaram no cavalo errado (os gestores que lá colocaram), perdem e saltam fora. Venham outros mas o banco em si (juntamente com os seus negócios, operações e clientes) mantém-se; apenas mudam os donos. Assim qualquer investidor ficaria assegurado que não haveria qualquer sobressalto no sector financeiro; apenas os accionistas passaria a assumir os riscos, tal como assumem os lucros.
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