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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Oh, doce, tão doce capitalismo

Sérgio Lavos, 03.05.12

 

Anda para aí gente a dar pulos de contentamento com a genial manobra da rede de mercearias com sede fiscal na Holanda, mas a verdade é que, se olharmos a coisa pelo prisma do capitalista, temos um dia com 50% desconto em todas as compras superioras a 100 euros que teve como resultado:

 

- Quebra de 50% nos potenciais lucros.

 

- O aumento na facturação (ao que parece, cinco vezes mais do que seria expectável) terá um efeito residual ou nulo no lucro imediato, porque, se é verdade que dezenas de produtos foram vendidos abaixo do preço de custo, cada venda deste produtos representa efectivamente prejuízo.

 

- Mesmo que as vendas dos produtos vendidos com lucro (acima do preço de custo) ocupem a maior fatia do bolo da facturação, a margem desvanece com os eventuais gastos, a saber: 

      *O pagamento devido aos trabalhadores por um dia de trabalho num feriado, 300%, mais a benesse de um dia de férias, mais horas extraordinárias - uma operação daquelas de certeza que implicou uma logística fora do normal.

      *As despesas com a abertura de centenas de lojas - limpeza, segurança, electricidade, etc.

      *E sobretudo os prejuízos adicionais em produtos roubados, pilhados e consumidos dentro das lojas (é verdade que foi pouco           noticiado, mas essas pilhagens aconteceram um pouco por todo o lado).

 

- Uma multa garantida da ASAE no valor de 30000 euros, pela prática de dumping.

 

- Quebra na confiança dos consumidores habituais, que foram impedidos de frequentar as lojas e de fazer as suas compras normalmente (conheço muita gente nesta situação). Ainda por cima, o lema da cadeia de mercearias era não fazer campanhas e não ter cartões de desconto porque, diziam eles, os preços são baixos todo o ano. Se conseguem oferecer uma margem daquelas, será que alguém ainda acredita no slogan?

 

- A repetição da má publicidade nos media e nas redes sociais, desta vez com mais impacto ainda do que quando mudaram a sede para um país estrangeiro. O eventual efeito de regresso dos clientes depois do dia da promoção dificilmente se fará sentir.

 

Ao que parece, o grupo está a enfrentar problemas de liquidez e precisava de escoar muitos produtos perto do final do prazo de validade*. A brutal quebra no consumo e a concorrência das outras cadeias de supermercados, que inclui os tais cartões de desconto e as promoções, estavam a fazer mossa na rede de mercearias do Santos. Portanto, a euforia que grassa na blogosfera neoliberal - o estímulo necessário para esta gente se excitar é bastante reduzido - redunda, uma vez mais, numa espécie de ejaculação precoce. A grande demonstração das virtudes do mercado livre é, se pensarem bem, um rotundo fracasso comercial (mesmo que o grupo afirme que não). E é sobretudo um alerta: em muitas lojas, esteve-se a um passo do desconto passar de 50 para 100%; e de forma generalizada, não episodicamente. Não admira que a ministra Assunção Cristas se tenha sobressaltado e pensado logo num imposto a cobrar sobre estas brincadeiras. Algo me diz que o Governo não está interessado em ver hordas descontroladas de gente a perceber que os produtos que agora não podem comprar estão afinal na sua mercearia de bairro. E, ao contrário do que se poderia esperar, duvido que mais promoções deste tipo apareçam nos próximos tempos. No fim de contas, ainda não é o fim nem o princípio do Mundo, calma é apenas um pouco tarde.

 

*E claro que terá havido muita gente a comprar sem olhar para esse prazo, levando para casa produtos para várias semanas ou meses que não vão poder consumir. Também deveremos culpar o merceeiro Santos por isto ter acontecido?

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