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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Ascensão e queda de William Randolph Hearst

Daniel Oliveira, 30.05.12

 

William Randolph Hearst, que inspirou Orson Welles, em Citizen Kane, construiu o primeiro verdadeiro império da imprensa americana (que ainda hoje, apesar de ser uma sombra do que foi, sobrevive), fazendo tremer o poderoso Joseph Pulitzer. Um império que foi usando em beneficio próprio e que, na passagem do século XIX para o século XX, fez nascer o "jornalismo amarelo", dirigido às classes trabalhadoras e apostado no sensacionalismo. Com a sua máquina de propaganda, Hearst não conseguiu apenas ser eleito, pelo Partido Democrata, para vários cargos políticos. Empurrou os Estados Unidos para uma guerra com Espanha, no que seria um importante impulso para o expansionismo americano (o seu papel é descrito, em pormenor, por Gore Vidal, em "Império").

 

Hearst não esteve sempre do "lado errado" da história. Foi, no início, um fervoroso apoiante do New Deal e os seus jornais foram, quando isso ainda não era habitual, dos mais ativos na denúncia da perseguição nazi aos judeus. Mas o principal papel que Hearst teve na história dos EUA e do mundo foi o de criar uma imprensa dirigida às massas, mais destinada à pura manipulação e ao entretenimento do que a qualquer tipo de objetivo informativo. Hearst não ficava à espera da notícia, inventava a notícia. Nos seus jornais havia vinganças, censura, serviços a interesses económicos e políticos, falsos correspondentes que se limitavam a copiar notícias publicadas na imprensa estrangeira. Um pequeno crime e uma mudança política fundamental valiam o mesmo. E o reforço do seu poder valia mais do que qualquer um deles.

 

Se alguém se pode considerar um herdeiro de Hearst, nos métodos e nos objetivos, é Rupert Murdoch. Apesar dos escândalos, o seu poder, da Fox News à imprensa sensacionalista britânica, parece manter-se mais ou menos intocado. Só que passou mais de um século desde que Hearst construi esta nova forma de poder. A classe média é, hoje, no ocidente, muito mais numerosa. Existem a Internet e infinitas formas de recolher informação. Temos décadas de manipulação mediática, o que deu aos leitores e aos telespectadores um pouco mais de cinismo em relação ao vão lendo na imprensa e vendo na televisão. Todos os estudos académicos indicam que as pessoas são muito mais críticas e desconfiadas do que se imagina em relação à informação que recebem dos media. Ao contrário do que muitos acham, os magnatas da imprensa não chegam para construir e destruir governantes.

 

Na verdade, o mundo de Hearst está a desmoronar-se. Por tudo o que já referi e por mais um pormenor: a democracia está, ela própria, em agonia. O poder dos interesses financeiros, num mundo globalizado finalmente livre das amarras do controlo dos Estados, só marginalmente precisa da comunicação social. Faz cair eleitos sem ter de inventar notícias ou mobilizar as massas. Cria um ambiente de terror e medo sem precisar de manchetes e telejornais. Na dividocracia, que lentamente substitui a democracia, os Randolph e os Rupert são dispensáveis. Escrevi-o quando o todo poderoso Silvio Berlusconi caiu para dar lugar ao cinzento Mario Monti, sem que se fosse a votos. Nem a extraordinária máquina de propaganda de Il Cavaliere o salvou. Os populistas e a sua manipulação já não são precisos porque o povo já não conta. Na era dos tecnocratas, jornalistas e políticos estão a transformar-se num simples adorno.

 

Tony Blair, um exemplar representante da rendição da política a todos os poderes, manteve durante anos uma relação umbilical com a imprensa sensacionalista de Murdoch. Uma relação "de trabalho", como ele a definiu, e pessoal: Blair é padrinho de uma filha de Murdoch. Mas, acima de tudo, uma relação de interdependência, que permitiu ao magnata continuar o processo concentração da propriedade de meios comunicação social no Reino Unido e deu ao ex-primeiro-ministro proteção mediática e o bónus de alguns ataques aos seus opositores. Tony Blair explicou-se, perante uma comissão inquérito: "Você estava numa posição em que lidava com pessoas muito poderosas que tinham enorme impacto no sistema político. (...) Se estiverem contra si, estariam contra si em todas as questões." Nunca ninguém resumiu tão bem o raciocínio de um cobarde pragmático.

 

A atitude de Blair é só o lado de lá da mesma moeda que leva Miguel Relvas a ameaçar jornalistas. Por um lado, a incapacidade para travar os combates políticos de forma limpa. Assumindo que há imprensa séria e menos séria. E que se respeita o trabalho da primeira - mesmo quando não se gosta - e se compram todos os combates necessários, seguindo as regras da lei, com a segunda. Por outro, a incompreensão de que, nos novos tempos que vivemos, o poder dos media é, na cabeça dos políticos, sobrevalorizado. Na realidade, uns e outros - políticos e empresários da comunicação social - vivem hoje numa ilusão. O que conta, o que realmente vai determinar o nosso futuro, é decidido nas costas de quem vota nuns e de quem compra os jornais dos outros. Claro que não é aqui que a história acaba. Mas a reviravolta, estou seguro disso, dar-se-á fora do campo mediático tradicional e das instituições políticas tradicionais. Será para melhor? Quem me dera sabê-lo.

 

Publicado no Expresso Online

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