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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Fanatismo, despudor e incompetência

Sérgio Lavos, 26.06.12

 

"Sair da zona de conforto" tornou-se um dos lemas de um Governo a braços com um aumento do desemprego que, para além de não conseguir controlar, é olhado como uma praga que apenas se resolve subsidiando os patrões que estimulam a precariedade - o "Programa Estímulo 2012" - ou empurrando a geração mais bem qualificada do país para fora do barco. Incompetência na gestão de um problema agravado pelas políticas de austeridade e fanatismo ideológico nas escolhas políticas feitas são a face visível das políticas de emprego de Álvaro e dos outros governantes. Para além do mais, o que irrita mesmo é a sobranceria e o despeito com que estes políticos incompetentes olham para gente que é mais qualificada do que eles são, do que eles alguma vez serão. Jovens que estudaram, licenciaram-se, fizeram mestrados, muitos doutoraram-se e mesmo assim não conseguem encontrar trabalho na sua área de formação. Muitos jovens que acabam cursos com médias elevadas e têm de arranjar emprego muito abaixo das suas qualificações, sujeitando-se a uma precariedade agravada pela crise - os relatos de patrões que, aproveitando a desculpa do clima económico, abusam dos seus direitos, multiplicam-se. Jovens que, na altura em que poderiam ter-se inscrito numa juventude partidária do centrão e terem a garantia de um tacho perpétuo, preferiram estudar, pensando que essa deveria ser não só a melhor maneira de arranjar trabalho, mas sobretudo porque acreditavam que uma formação de excelência seria mais importante do que os conhecimentos em determinados meios.

 

Ainda assim, há inúteis que continuam a vergastar esta geração de precários subaproveitados. E depois olhamos para o currículo desta gente, e é o espanto, ou melhor, a confirmação de que os jovens que estudaram estavam redondamente enganados. Desde o primeiro-ministro Passos Coelho, que passou uma vida à sombra de cargos arranjados pelo partido ou pelo padrinho Ângelo Correia, até Miguel Relvas, que subiu na hierarquia política à conta também da sua passagem pela JSD e aproveitando as vantagens que o uso do avental lhe trouxe, há poucos governantes e políticos de destaque cuja carreira política se deva única e exclusivamente ao seu currículo académico ou profissional. E os partidos do centrão - PSD, PS e CDS - continuam a produzir fornadas de inúteis parasitas do Estado (e que não se cansam de pedir menos Estado), forjados nas juventudes partidárias, gente que, se não fosse este cadinho de boys, poucas possibilidades teria de se evidenciar ou ter uma carreira, gente que realmente nunca saiu da "zona de conforto" proporcionada pelos partidos a que pertence.

 

A última criatura a entrar neste invejável rol é o deputado-maravilha do CDS-PP, Michael Seufert de seu nome, que em entrevista ao P3 volta a exortar os jovens a sairem da sua zona de conforto. A cabeça, para além de sugerir que até aos 30 anos não sejam feitos descontos para a Segurança Social, repete a frase: "É evidente que há pessoas que precisam de sair da sua zona de conforto". E o currículo deste "empreendedor", qual é? A frequência de um mestrado* e uma carreira como jotinha que teve como cúmulo a passagem pela liderança da Juventude Popular. Parece que a principal preocupação deste produto do carreirismo partidário é o empreendedorismo. O que me parece fantasticamente acertado, tendo em conta o percurso profissional de tão brilhante deputado. Sim, são pessoas assim que estão a decidir por nós no parlamento e no Governo. Gente que tem uma opinião sobre a vida das pessoas sem saber minimamente o que é na realidade viver. Uma afronta ao mandato que receberam do povo. Uma vergonha. 

 

*Parece que terá sido uma licenciatura pré-Bolonha que se transformou num mestrado pós-Bolonha com o passar do tempo. 

 

Adenda: para que fique claro, não está em causa, por si só, o currículo de quem quer que seja, nem a escolha de quem se dedica a tempo inteiro a uma carreira política, mas a contradição entre ideias políticas e esse currículo. Não sei como alguém pode ter cara para defender o empreendedorismo quando na sua própria vida não arriscou um milímetro que fosse para além da sua carreira partidária. Da mesma maneira que é preciso ter bastante cara-de-pau para acusar pessoas com currículos académicos e/ou profissionais imaculados de não saírem da sua "zona de conforto". Sobretudo durante este período em que o crédito para começar novos projectos empresariais é uma miragem e em que o risco das coisas correrem mal num novo negócio é bastante elevado. Deve-se mesmo dizer que só quem nunca passou por um projecto empresarial de risco é que pode defender com tal desplante o "empreendedorismo". Teorias de quem olha para a economia real sem nunca com ela ter contactado e através do prisma do enviesamento ideológico desmiolado.  

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