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Arrastão: Os suspeitos do costume.

"É preciso tomar decisões difíceis para garantir a sustentabilidade do SNS" - Paulo Macedo

Sérgio Lavos, 11.07.12

 

Calhou estar agora a ler Histórias de Londres, um delicioso livro de viagens de Enric González (antigo correspondente do El País na capital britânica), recentemente editado pela Tinta da China na excelente colecção de relatos de viagem coordenada por Carlos Vaz Marques. A passagem que transcrevo é exemplar:

 

"A revolução conservadora de Margaret Thatcher - permita-se-me a digressão - teve consequência profundas no National Health Service, o antigo e de longa data exemplar sistema britânico de saúde pública. Descentralizou-se o sistema, deu-se autonomia aos hospitais, fomentou-se a competição entre eles e criou-se um pseudomercado da doença, cuja eficácia se media em número de tratamentos: quem captava o maior número de pacientes, recebia o maior volume de recursos públicos. Simultaneamente, favoreceu-se com incentivos fiscais a subscrição de seguros privados. Tudo isso conduziu, como noutros países europeus, a um sistema sanitário cada vez mais classista: clínicas totalmente privadas para os muito ricos, centros certificados e com um nível excelente no tratamento de treçolhos, panarícios, tornozelos torcidos e outros males baratos, e à lenta decadência dos serviços dedicados às doenças mais graves, aquelas que nunca poderão ser rentáveis. Thatcher e o seu cinzento sucessor, John Major, levaram no entanto a coisa a extremos nunca vistos na Europa continental. Desistia-se de operar fumadores cardíacos porque eles tinham escolhido a sua sorte, ou punham-se de parte os tratamentos mais dispendiosos, inclusive quando se tratava de crianças à beira da morte, se as probabilidades de êxito fossem escassas. A palavra de ordem era reduzir custos. (...)

Nos últimos anos da administração conservadora, os noticiários da televisão e as páginas dos jornais transformaram-se numa galeria permanente de doentes em lista de espera, rostos cianosados e dramas terríveis. Chegou a ser relativamente comum ir fazer uma operação a França ou à Alemanha, aproveitando os convénios europeus de reciprocidade. Entretanto, os thatcheristas protestavam contra os "reaccionários" que se opunham às suas reformas. John Redwood, um ministro tory comparável pela sua frieza ao Mr. Spock de Star Trek - uma comparação que não fazia justiça a Mr. Spock -, afirmou a certa altura que tudo não passava de "um choque entre liberdade e servidão". Palavras de Redwood: "Nós, do lado da liberdade, propomos que o paciente possa escolher o local onde quer tratar-se e o tipo de tratamento que recebe, e que decida individualmente o custo que quer que o tratamento da sua doença concreta tenha". Ou seja: tenho um caroço no peito mas só posso gastar 50 libras; creio, em nome da liberdade de escolha, que vou optar por um tratamento de pomada na minha própria casa.

 

 Qualquer semelhança com a actual realidade nacional não é pura coincidência.

 

(Sublinhados meus.)

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