Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

Pensamento único

Sérgio Lavos, 26.07.12

 

Em filosofia, apenas é considerado filósofo quem produz pensamento original, quem cria conceitos, quem tem um sistema. Todos os que não se enquadram neste modelo ou são considerados comentadores - na melhor da hipóteses - ou simples professores ou investigadores.

 

Aqui há umas semanas, um professor de filosofia convidado no Prós e Contras foi apresentado como "filósofo" - como o programa tratava de assuntos profundamente metafísicos - as consequências da descoberta da "partícula de Deus", e tal - a pensadora Fátima Campos Ferreira promoveu esse convidado para debater com os cientistas que estavam do outro lado da barricada. Tudo muito simplista, claro, mas compreensível na sociedade do espectáculo alimentada pela televisão em que vivemos. Curiosamente, dos cientistas presentes apenas um poderia ser considerado como tal - o investigador que trabalha no CERN. Os outros dois são professores de Física; e Carlos Fiolhais é também divulgador*. 

 

As palavras são importantes. No Negócios da Semana de ontem, apareceu lá um "economista", João Ermida. Não conheço bem o trabalho dele, mas julgo ter um ou outro livro publicado. Será mesmo economista? Pesquisei, e percebi que o percurso profissional foi feito sempre no sector financeiro. Ao começar a falar, corrigiu a apresentação feita por José Gomes Ferreira e disse que já não trabalhava no BPP - o que se compreende, ninguém gosta de se ver associado a tal instituição - a reputação é importante. 

 

João Ermida, economista porque se licenciou em economia. Tudo bem. Todos os dias aparecem economistas a falar na televisão, especialistas em que acreditamos mas que, se fossem escrutinados, veríamos que não acertam uma previsão. Especialistas da treta que se limitam a repetir a cassete da inevitabilidade das actuais políticas. E alguns, algumas vezes, simplesmente mentem. Ermida, por exemplo, afirmou em directo que a culpa das dificuldades financeiras de Espanha é da existência de regiões autónomas. Esquecendo-se do recente resgate directo a um sector bancário que andou anos a brincar com produtos financeiros pouco saudáveis. Mas claro, quem passou pelo BPP tenderá a omitir que a crise começou em 2008, e por culpa do sector financeiro. O remédio? Prosseguir o caminho, para ficar tudo na mesma, como Ermida defendeu. 

 

As palavras são realmente importantes.

 

*Terei sido injusto para Carlos Fiolhais e Gaspar Barreira. A carreira científica de ambos é incontestável. Mesmo que neste momento tenham ocupações mais burocráticas, sem dúvida que poderão ser considerados cientistas. Obrigado ao comentador que corrigiu esta percepção errada que eu tinha.

5 comentários

  • Imagem de perfil

    Sérgio Lavos 26.07.2012

    1. A sua ideia de filosofia, apesar de ser muito bonita, não é partilhada por quem é da área de filosofia. "Quem ama o saber" é uma coisa romântica de se dizer, mas é completamente vazia de signficado. Distinguir entre "filósofo" e amante de filosofia é distinguir entre sistema filosófico e senso comum. O que a filosofia faz é precisamente criar conceitos a partir do senso comum, das inquietações ou sensações que qualquer umde nós pode ter. Criar conceitos é "produzir" pensamento original - "produzir" é aqui usado em sentido figurado, claro. Quanto à questão de poder ser ou não original, Platão não está ultrapassado mas é sempre discutível - como aliás são todas as ideias filosóficas. Mas o sentido de original é claro: é pensar algo que de uma forma diferente do que até aí se fez. Conceitos novos, como o dasein de Heidegger ou o númeno e o fenómeno de Kant.

    2. Uma vez mais, utilizo termos de quem estuda filosofia, conceitos delimitados por especialistas. As coisas são como são, e são claras: um filósofo é alguém que tem um sistema, uma ontologia, alguém que cria conceitos (segundo Deleuze). Um amante de filosofia, um oinvestigador, um professor, o Zé da Tasca a divagar depois de beber uns copos, apenas poderão ser considerados filósofos se cumprirem estes requisitos. E isto não é desmerecer nem inferiorizar o trabalho de um professor, é classificar, usar as palavras como deve ser, apenas isso.

    3. Dificilmente o Ermida pode ser considerado um economista porque nunca trabalhou na área, nunca produziu pensamento teórico nem sequer deu aulas. Mas sim, admito que possa ser apenas preconceito meu...

    4. Um especialista pode armar-se em especialista por apenas ter uma licenciatura, claro. Não quer dizer que o seja - especialista. E se erra sempre, julgo que tenho o direito de duvidar das suas capacidades de especialista. O meu problema é com a falta de escrutínio desses erros. Estes especialistas televisivos nunca são confrontados com os seus erros, normalmente porque quem os entrevista ainda sabe menos do que eles. Ao contrário do que acontece na academia, diga-se. Os verdadeiros especialistas, a partir do momento em que tornam o seu trabalho público, são sujeitos a um escrutínio severo por parte dos pares. Qualquer erro está sujeito a ser detectado. Os "especialistas" da TV são inimputáveis que podem dizer as maiores baboseiras que irão sempre ser ouvidos com a maior das atenções.
  • Sem imagem de perfil

    joão viegas 26.07.2012

    1. Nem Platão, nem Descartes, nem Espinosa, nem alias Kant ou Heidegger pretenderam uma unica vez ter criado (muito menos produzido) uma ideia "nova". Alguns filosofos (pouquissimos alias) permitiram-se criar neologismos porque entendiam que as palavras disponiveis na sua lingua não chegavam para expressar o que pretendiam dizer. Se isso é o critério, então é bastante facil ser-se filosofo. Va por mim que sou "da area" : joguei a defesa direito num clube de filosofia da 2a divisão. Alias, a "minha" ideia de filosofia não tem nada de minha, é de todos os filosofos, incluindo os que v. cita, e assim acontece, ao que parece, desde Pitagoras (mas este ponto é discutido e estamos neste momento à espera de saber o que o Bosão de Higgs tem a dizer a este respeito).

    2. Quem estudou filosofia (o meu caso, por sinal) sabe que deve sempre desconfiar dos termos empregados por especialistas (e também dos "delimitados" por especialistas, que são mais raros, o meu amigo esta a confundir especialistas e dicionarios). Porquê ? La esta, porque "as coisas são como são e são claras", ou pelo menos tornam-se mais claras para quem cultiva a filosofia, a partir de palavras simples do quotidiano. E' perfeitamente possivel, corrente até, filosofar-se depois de beber uns copos. O meu amigo ouviu falar de um livro chamado "O banquete" ? Não ? Experimente lê-lo e considere que não foi escrito em frente a um acelerador de particulas. E tem muito a ver com filosofia. Pelo menos assim o entendem todos os filosofos que conheço, até o Deleuze...

    3. Não conheço o Ermida. Se me der licença, vou julgar da sua competência de economista ouvindo o que ele diz e confrontando-o com o que sei do assunto, que não sera tanto quanto o que sabe um "especialista" que "produziu trabalho teorico", quiça para exportação, mas que também não é equivalente a nada, uma vez que a economia (e qualquer disciplina cientifica) faz parte da cultura geral. Não fosse o caso, alias, e seria de perguntar se serve para algumas coisa. Sob esse prisma, o seu post não fornece muita coisa. Um problema de rotura de fluxos de matéria teorica com certeza...

    4. Estou a ver. Vamos então fingir que v. tem apenas uma licenciatura e que, por conseguinte, devemos submeter o que v. diz a severo "escrutinio" (esta moda dos anglicismos da cabo de mim, os termos "exame", "analise" e "critica" ainda estão sob patente depositada por algum cavaleiro de industria linguistica ?) : Silva trabalha num banco, os bancos erraram nas previsões, logo Silva so pode ser errado naquilo que ele diz ? E' isso ? Isto estende-se também a quem utilizou recentemente serviços bancarios ? E a quem é casado com um(a) bancario(a) ? Mas o que v. tem em mente, realmente, não é isso. O que v. critica, e bem (a meu ver) é a televisão. Mas então, diga-me o meu amigo o que poderia ser mais eficaz, para acabar de vez com esse flagelo, do que "ouvir com a maior das atenções" o que la se diz AINDA QUE dito por "especialistas" presumidos, efectivos, suplentes ou titulares ?

    E também, talvez, ouvi-los levando à letra o seu (bom) lema : as palavras são importantes...

    Boas


     
  • Imagem de perfil

    Sérgio Lavos 26.07.2012

    OK, acha portanto que toda a filosofia a seguir a Platão não passa de notas de rodapé à obra do mesmo. É um ponto de vista que as pessoas de filosofia gostam de ter, fica-lhes bem tal humildade. O pessoal de literatura também acha que depois de Homero todos foram apenas copistas. Sem esquecer que Platão pretendia nunca ter criado uma ideia nova porque ele achava que todas as ideias eram lembrança ou reconhecimento de ideias puras. Se ainda está com Platão nesta, aceito o que diz, mesmo tendo jogado apenas na 2.ª divisão.

    Vou dar de barato o sarcasmo usado em relação aos termos que eu uso - não estudei filosofia, pelo menos no sentido académico do termo, e tudo o que leio não está condicionado à partida pelo o que a academia acha correcto.

    Quanto à questão de saber se é possível filosofar depois de uns copos, lamento, mas não, e não sou eu que o digo, são pessoas de filosofia. Como estudou filosofia, certamente sabe qual é a diferença entre senso comum e filosofia. Os diálogos platónicos (ou de Kierkegaard) podem parecer conversas de café, mas como sabe há um método usado para chegar à verdade, aplicado por Sócrates aos seus discípulos. Não há um percurso disperso do pensamento, há a condução em direcção a uma conclusão, a uma verdade. 

    O critério não é criar neologismos, de modo algum. Criar conceitos, ter um sistema, uma ontologia. Mas enfim, o valor das palavras não é absoluto, e o sentido que lhe atribuímos é instável. Para si, "filosofar" é uma coisa, para mim é outra. Ninguém se há de zangar por causa disso.

    (Já agora, não tenho nada contra neologismos, se forem úteis para explicar uma ideia. Como é de filosofia, deve saber que praticamente todos os filósofos da Antiguidade eram imigrantes em Atenas, portanto a utlização de novos termos deve ter sido fundamental para o florescimento da filosofia.)
  • Sem imagem de perfil

    joão viegas 26.07.2012


    Peace,

    Longe de mim ter querido dizer, ou ter pensado sequer, que a circunstância de v. não ter estudado filosofia na universidade poderia incapacita-lo de alguma maneira para filosofar (conheço mais casos em que acontece o contrario, acredite...). Lembre-se que nem Socrates, nem Platão andaram por la, nem tantos outros, mais recentes e nem por isso menos interessantes.

    Quanto ao resto, a sério, leia ou re-leia (provavelmente) o Banquete. Esta la tudo, sem desprestigio para que veio depois, que por vezes também tem mérito, isto não esta em causa...

    Boas
  • Comentar:

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.