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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Manual de instruções para austeritários em fuga

Sérgio Lavos, 13.10.12

Bom texto de Nuno Serra, no Ladrões de Bicicletas:

 

"Não sabemos ainda quando (nem como) sairemos da insanidade em que nos mergulharam. Mas pode dizer-se que entrámos, nas últimas semanas, numa nova fase de evolução da crise: a evidência do fracasso da opção austeritária é cada vez mais indisfarçável e avassaladora. Bem podem os seus arautos e responsáveis continuar a insistir nos «amanhãs que cantam» que já ninguém acredita. Tinham-nos anteontem prometido que cantariam ontem. Tinham ontem prometido que cantariam hoje. E nem um pio se ouviu.

É bem certo que fanáticos, como Gaspar, sempre os teremos entre nós. De pouco importa se o navio que embateu violentamente nas rochas é já só um amontoado de destroços. No seu delírio, continuam a imaginá-lo em impante movimento, a aproximar-se do sonhado horizonte, por mais que este sempre se afaste. Esta é a primeira forma de fuga, a negação, e combina (em doses variáveis) crença com oportunismo: quando confrontados com resultados que escapam às suas previsões, os «austeritários negacionistas» ora respondem com uma fé inabalável e delirante, ora invocam razões obscuras, a que são alheios (vejam por exemplo como - na sequência da mais recente avaliação da troika - tanto Vítor Gaspar, como Abebe Selassie e Passos Coelho falam de «ventos favoráveis e desfavoráveis»: ora para justificar o fracasso a partir de elementos que não controlam, ora para renovar ilusões sem fundamento).

Uma outra forma de fuga corresponde a uma espécie de esquizofrenia inconsequente. Christine Lagarde personifica-a: mostra dar sinais de ter percebido o logro que constitui a receita suicida, referindo-se à «fadiga da austeridade» e reconhecendo os clamorosos «erros de cálculo» sobre os seus impactos na economia, ou sugerindo que o veneno seja tomado em menores doses e por mais tempo. Nada que, contudo, provoque mudanças na «outra personalidade», a que continua a aplicar a receita austeritária de forma impiedosa e implacável.

chico-espertismo é uma terceira forma de fuga, de que se socorrem seres politicamente medíocres e invertebrados como José Manuel Durão Barroso. É a estratégia de evasão mais cínica e miserável: trata de tentar alijar responsabilidades de uma forma repugnante. Depois de forçar os países sob «intervenção externa», na parte que toca à Comissão Europeia, a aceitar a sangria austeritária (que nunca deixou de enaltecer) vem dizer - assim que começa a farejar o avolumar do fracasso - que afinal tudo não passou de uma maldade que os governos nacionais decidiram infligiraos seus cidadãos.

Imaginem uma unidade de cuidados intensivos onde um paciente é submetido a uma terapia errada, que não só não lhe cura o mal de que sofre como o está a matar. Desafiados a explicar por que razão o paciente não melhora sob os seus cuidados, a Dra. Lagarde diz que as doses de medicação têm efeitos secundários preocupantes e que foram mal calculadas, mas continua a administrá-las da mesma forma. O Dr. Barroso, por seu turno, culpa o doente por ter aceite a medicação que lhe foi prescrita. E o Dr. Gaspar (coadjuvado pelo Dr. Abebe), diz que não há problema nenhum com a prescrição: se não está a funcionar é porque andam uns ventos a soprar lá fora e que o que há que fazer é, seguramente, reforçar a dose terapêutica."

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