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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Quem só espera nunca alcança

Daniel Oliveira, 13.11.12

 

Quem ontem ouviu Angela Merkel e Passos Coelho e não viva noutro planeta percebeu que estamos entregues a nós próprios. Merkel diz que a aplicação do memorando está a correr bem e que terá um final feliz. Tão feliz que ela até tenciona vir cá passar férias. Isto disse ela antes de ir para um encontro de empresários onde estava, por exemplo, o consórcio alemão que quer comprar os nossos aeroportos a preço de saldo. Pedro Passos Coelho disse que negociar o memorando era assumir que falhámos. Isto quando toda a gente percebeu que falhou e pede que ele seja negociado. Merkel não tenciona recuar. Passos não tenciona fazer nada para que recue. No meio de tanta irresponsabilidade, restamos nós. Os portugueses.

 

Como indivíduos, nada mais podem fazer para além de tentar sobreviver. Uns melhor, outros pior. Uns irão às economias, outros emigrarão, outros irão viver para casa dos pais, outros passarão fome, outros não faço ideia que mais possam fazer. Mas nós somos uma comunidade. Como se viu a 15 de Setembro, temos, como comunidade, uma força colectiva que nos ultrapassa. E temos, ainda temos, alguns instrumentos que a Constituição nos garante. Em nenhuma sociedade, por mais democrática que seja, todos temos o mesmo poder. E é por isso que a lei garante a quem vive apenas do seu trabalho o poder de não trabalhar para exigir os seus direitos.

 

Nuns casos, a greve serve para, através dos prejuízos que causa ao empregador, obrigá-lo a recuar numa imposição que se considera abusiva. Essas greves devem ser feitas antes das decisões estarem tomadas e por tempo suficiente para que o prejuízo seja tal que obrigue a uma negociação ou a um recuo. Outras greves são uma forma de manifestar uma posição. É o que geralmente acontece com as greves gerais.

 

Nunca, como agora, uma greve geral se justificou de forma tão evidente. Tudo o que é relevante está em causa: o direito ao trabalho, a Escola Pública, o Serviço Nacional de Saúde, as reformas, a coesão social, a sobrevivência dos mais pobres e até a democracia. Quem não faça esta greve dificilmente alguma vez terá alguma razão para fazer qualquer outra.

 

Uma greve que pare o País é um sinal. Tão ou mais poderoso como o sinal dado a 15 de Setembro. Uma má greve também será um sinal. Que dará a um governo debilitado um reforço do poder para continuar o massacre. Acresce queesta greve não é apenas portuguesa. Pela primeira vez, ela acontece também nos vários países em crise, no sul da Europa: Portugal, Espanha, Itália e Grécia (com ações de solidariedade em mais 15 países). Ou seja, ela também é um sinal para a Europa. Se ela for forte nos restantes países e fraca aqui também será um sinal: de que nos sentimos bem no papel de "bom aluno".

 

Claro que podemos esperar que Angela Merkel tenha piedade de nós. Que o Presidente saia do Facebook. Que Passos Coelho abandone a sua agenda. Que o CDS ganhe algum desapego aos lugares. Mas não temos tempo para esperar por tanta coisa. E, depois do 15 de Setembro, acho que ninguém pode voltar a dizer que o protesto não muda nada. Ficou provado que faz alguma diferença. Um País parado, todo parado, também fará.


Publicado no Expresso Online

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