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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Um futuro radioso

Sérgio Lavos, 07.12.12

 

Toda a gente se recorda da triste figura que Mário Crespo fez no parlamento. Toda a gente se lembra também de Marques Mendes falar da "asfixia democrática" e da direita andar excitada com a claustrofobia democrática no tempo de Sócrates. Toda a gente se recorda do rasgar de vestes e do clamor que se levantou contra o afastamento de Manuela Moura Guedes da TVI. Toda a gente se lembra da manifestação em frente à Assembleia, promovida pela blogosfera de direita e apoiada por alguns blogues de esquerda (o Arrastão demarcou-se do happening) a favor da liberdade de expressão e de imprensa. Bem, eram outros tempos. Agora, cada personagem que se atravesse no caminho do Dr. Relvas acaba afastada do cargo que ocupa. Sobretudo se for jornalista. O rasto que vai sendo deixado é tenebroso: Pedro Rosa Mendes, Raquel Freire, o conselho de redacção do Público, Maria José Oliveira, o director da Lusófona do Porto, etc. etc. Um registo digno de um Dr. Goebbels de quinta categoria. Agora, Nuno Santos. Numa manobra que o próprio não se exime de classificar como "saneamento político". Primeiro a demissão, quando se viu encurralado pelas manobras de Luís Marinho e de Alberto da Ponte, e agora, depois do depoimento na Assembleia da República, o processo disciplinar e o afastamento das instalações da RTP. Um processo célere, na sombra, com poucas ou nenhumas hipóteses de remissão. Nuno Santos era uma pedra na engrenagem de uma RTP que mantinha alguma equidistância em relação ao poder político. Já foi. Entretanto, o presidente da administração negoceia, sem qualquer pudor, como se fosse um caixeiro-viajante, a venda da estação pública com o interessado angolano. Isto quando publicamente apenas se conhece o interesse de uma empresa portuguesa, a Cofina. E a maioria PSD/CDS volta a chumbar o projecto de lei que visa a transparência sobre os titulares do órgãos de comunicação. Alguma coisa mudou, neste ano e meio: o que era feito na sombra (Ongoing, Público) é agora feito às claras. O Dr. Relvas, dobrado o cabo das tormentas que representou a licenciatura por equivalência, está no seu melhor, em campo aberto. Não fala muito mas conseguiu pôr os seus homens de mão no terreno. Passou o limiar da vergonha, aquele que qualquer pessoa decente não ousaria ultrapassar no seu lugar. Se o Dr. Relvas continua na sua cadeira, apesar da Ongoing, do Público, da Antena 1, da Lusófona e de todas as "reformas" que ainda não concluiu, então já nada o fará cair. Sabemos porquê: os crápulas não tem vergonha na cara; e o seu destino está intrinsecamente unido ao de Passos Coelho. Os dois cairão no mesmo passo.

 

Toda a gente se lembra das manobras do tempo de Sócrates? Não. Os que na altura mais protestaram agora sentam-se nos gabinetes ministeriais e trabalham a soldo do Dr. Relvas. Os que não conseguiram lá chegar calam-se. E assistem de um lugar privilegiado ao maior assalto à liberdade de imprensa que este país já assistiu. As peças movimentam-se no terreno, e se nada acontecer entretanto, dentro de um ano teremos uma estação de televisão controlada por uma empresa cujos capitais têm origem num regime cleptocrata e autoritário, sem qualquer respeito pela liberdade de expressão e de imprensa. Estação essa que se juntará aos media que já estão nas mãos do regime angolano, directa (através de Isabel dos Santos) ou indirectamente. Miguel Relvas sorri o sorriso dos imbecis que conseguem levar a água ao seu moinho. E Mário Crespo luta diariamente a luta dos sabujos, na esperança que um dia o Dr. Relvas lhe ofereça um lugar de correspondente em Nova Iorque na nova estação para os novos tempos. Tudo está bem quando acaba bem. Para o país, suspeito, isto não vai acabar nada bem.

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