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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O luxo da lentidão

Sérgio Lavos, 23.01.10


É uma curta coluna no caderno Actual, do Expresso, e, julgo, nem sequer está disponível em linha. Textos compactos, densos, inteligentes como quase nada do que se escreve nos jornais portugueses. Chama-se Ao Pé da Letra, o espaço ocupado pelo crítico literário António Guerreiro; e vale sempre, mas sempre, a pena lê-lo. Esta semana, fala de "um ministro" que anseia pelo TGV para Lisboa se tornar a praia de Madrid. Tão certeira dissecação do provincianismo dos nossos políticos é um prazer que deveria ser obrigatório:

Sobre a alta velocidade e a pequena burguesia

Quando um ministro diz que, graças ao TGV, Lisboa pode tornar-se a praia de Madrid, as suas palavras têm o poder de nos fazer lembrar três figuras que um filósofo italiano, comentando a teoria do carisma de Max Weber, eleva a categorias: o demagogo, o imbecil instintivo e o palhaço carismático. Mas mais importante do que projectar tais palavras em quaisquer categorias é percebermos que a política pertence hoje inteiramente àqueles que se convencem daquilo que dizem. É  aí que reside todo o segredo do discurso político. Mas as palavras deste ministro ilustram também outra coisa: que, no horizonte dos governantes, o único modelo de classe que existe (ou em que todos se devem transformar) é precisamente uma classe que não chega a sê-lo: a pequena burguesia universal, cujas bases materiais de existência assentam num modelo de vida que se manifesta em duas dimensões: o consumo e o tempo livre. Lisboa como praia de Madrid, Caparica como praia de Lisboa: trata-se sempre do mesmo tropismo - marítimo e litoral - que define o movimento a alta velocidade de uma massa que nunca gozará do luxo da lentidão.

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