Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Arrastão: Os suspeitos do costume.

(Dis)pensar Abril

Miguel Cardina, 28.01.13

 

Na morte de Jaime Neves, vários órgãos de comunicação social referiram-se ao “militar de Abril e de Novembro”, sugerindo uma relação directa entre ambos os momentos. A chamada de capa feita hoje pelo Público ia mais longe: “Morreu o comando que manteve Abril no 25 de Novembro de 1975”. Esse “Novembro que mantém Abril” sugere que ali se repôs a natureza de uma ruptura cuja essência, a dado momento, teria sido corrompida (logo nas horas a seguir ao golpe?).

 

Independentemente das interpretações que possamos ter acerca do que foi e do que representou o 25 de Novembro, essa continuidade imaginada é sintoma da persistente incapacidade em pensar o biénio revolucionário no que ele revelou ser: uma inaudita irrupção popular, de natureza socializante, com múltiplas e por vezes contraditórias formas, e que em vários momentos ultrapassou as dinâmicas militares e partidárias então em disputa. Uma irrupção popular que reverteu formas antiquíssimas de opressão no país, levando a que muita gente se sentisse gente pela primeira vez (mais: que fosse convocada a definir por si própria o que é isso de “ser gente”).

 

A contenção do processo revolucionário, ocorrida a 25 de Novembro, não conseguiu eliminar algumas dessas marcas trazidas pela revolução. Elas passavam, genericamente, pelo entendimento da democracia, não apenas como pluralismo político, mas como democracia económica e social. A força desta ideia é tal que, apesar dos engulhos que a Constituição sempre criou à direita, só hoje – e a coberto da intervenção da troika – ela sente coragem para apontar a mira ao coração deste Estado democrático criado no pós-25 de Abril.

 

Volto à frase curta no jornal que leio todos os dias. E penso como o silêncio balbuciante sobre a guerra colonial – sempre referida de raspão, mesmo quando o lembrado fora um comando com várias comissões de serviço – e a incapacidade de pensar Abril para além da sombra de Novembro nos dizem tanto sobre o que foi e o que é este país.

 

(A imagem reproduz o conhecido quadro de Maria Helena Vieira da Silva)

19 comentários

Comentar post