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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Cedo demais

Daniel Oliveira, 28.03.13

FOTO DE ENRIC VIVES-RUBIO/PÚBLICO


Quando a Europa se prepara para deixar que o insignificante Chipre cumpra o papel que a Grécia desempenhou no início desta crise e quando o Tribunal Constitucional se prepara para, no cumprimento das suas obrigações, tornar todas as previsões do governo numa derradeira anedota, dando o pontapé de saída para uma crise política, o País parou para falar do passado.

 

Independentemente das responsabilidades que cada um pense que tem na situação do País, compreende-se que José Sócrates tenha sentido a necessidade de se defender. Mas essa defesa, na situação em que estamos, serve-nos de pouco.

 

Sim, a entrevista de Sócrates acabou por ter alguma utilidade. Ao rever o que se passou há dois anos, poderia ter contribuído para desfazer alguns lugares-comuns que o primarismo que domina a política e o jornalismo portugueses transformaram em verdades feitas que não resistem ao mínimo de objetividade. Até o fez, do ponto de vista argumentativo, com alguma eficácia.

 

Mostrou o absurdo de tentar explicar a crise com um suposto despesismo. Exibiu a aldrabice dos números que se apresentam sobre o défice e o endividamento público, que juntam o período de 2005 a 2007 ao da crise internacional, em 2008, a que correspondeu perda de receitas fiscais e aumento dos juros. Não deixou que o PSD continuasse a fingir que as Parcerias Público-Privadas não lhe dizem respeito. Conseguiu mostrar porque é que a austeridade nos deixa ainda mais longe dos objetivos que diz pretender. Lembrou o comportamento irresponsável de Passos Coelho em 2011. Denunciou, no seu melhor momento na entrevista, a inenarrável falta de sentido de Estado do Presidente da República. Desse ponto de vista, Sócrates poderia dar lições da António José Seguro.

 

Deixou muito por explicar: o congelamento por dois anos dos ordenados da função pública para os poder aumentar em ano de eleições; a nacionalização do BPN; a falta de discurso europeu que o manteve até ao chumbo do PEC4 numa posição acrítica e servil; a política de austeridade que ele próprio começou com os PEC e que agora considera errada. E foi criativo na cronologia da crise, fingindo umas vezes que nada sabia em 2009 e outras que tudo já estava a acontecer no início de 2008.

 

Na argumentação, Sócrates esteve bem. Mas o problema é que Sócrates é Sócrates. O ódio que deixou em muita gente seguramente sentiu-se de novo em cada frase agastada, num homem que, no seu estilo, nada mudou. E o ressentimento de muitos portugueses não está preparado para argumentos, números e factos. Qualquer racionalidade no seu discurso esbarra com a irracionalidade de quem o ouve.

 

Ao concentrar, neste preciso momento, o debate político no seu legado, acabou por prestar um bom serviço à narrativa que queria contrariar: quando o presente lhe dá razão, põe o País a falar do passado. Quando estamos prestes a fechar um ciclo, Sócrates fez tudo começar de novo. O passado é demasiado próximo para ser analisado com justiça. O reaparecimento de Sócrates, no momento ajudou a confundir o que já devia ser claro: o clamoroso falhanço deste governo e da troika que Passos Coelho tanto desejou.

 

Publicado no Expresso Online




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