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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Ignorância é força

Sérgio Lavos, 03.05.13

 

A política adora eufemismos. Eufemismo é uma palavra que é, ela própria, um eufemismo, quando aplicada à política. Poderemos, sem esforço, considerar os eufemismos políticos como termos da novilíngua. Para quem não sabe, novilíngua é o glossário inventado pelo regime descrito por George Orwell em 1984, um conjunto de palavras que o estado totalitário usa para melhor espalhar a propaganda que faz passar aos cidadãos. O slogan "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força", multiplicado até ao infinito pelas máquinas de difusão do regime, é a cola que consegue manter calados todos os opositores.

 

Orwell compreendeu bem os perigos dos regimes totalitários, do nazismo ao comunismo. Mas não são apenas as ditaduras que recorrem à manipulação linguística com forma de controlo das massas. Qualquer regime, mesmo a mais liberal democracia, precisa de inventar um léxico para controlar, de algum modo, o que as pessoas pensam. A linguagem como meio de distorção de uma realidade sempre foi uma das principais preocupações dos políticos. Numa sociedade global, na qual a informação circula a velocidades estonteantes, o Estado já não precisa de controlar a informação e a sua circulação. A manipulação é mais subtil, mais difusa. Os Governos contratam agências de comunicação que gerem a cada minuto o que, quando e como os governantes dizem. Os meios de informação limitam-se a ser - e ainda mais, em tempo de crise gravíssima dos media - mais um canal por onde escorre a propaganda dos regimes. O excesso de ruído, de canais de informação e de informação produzida, produz o mesmo efeito que a censura produz nos regimes totalitários tradicionais: a ocultação da verdade. O que antes as pessoas não sabiam por causa da censura, agora sabe-se, mas a verdadeira informação está tão diluída no meio do lixo comunicacional, que passa quase sempre despercebida. Podemos ter acesso a mais fontes de informação, mas não temos os meios de distinguir o essencial do acessório, a verdade da manipulação, a realidade do mundo virtual onde vivemos. 

 

 

Voltemos ao eufemismo. Passam despercebidos a maior parte das vezes, mas todos os dias entram em nossas casas. Os cortes no Estado Social primeiro eram uma refundação do memorando, depois passaram a ser cortes na despesa - como se toda a despesa não fosse também receita - e a partir de certa altura o Governo começou a falar em "poupanças estruturais". Os meses que se passaram desde Passos Coelho anunciou essa tal refundação na verdade equivalem a anos ou décadas, tal o volume de acontecimentos e de informação que entretanto foi passando à frente dos nossos olhos. Poucos se lembram dessa declaração inicial do primeiro-ministro. Para o Governo, é conveniente que assim seja. O objectivo inicial sempre foi reduzir ao mínimo o Estado Social, mas nunca foi enunciado como tal. Este discurso dúbio e obnubilado é veiculado pelos media, e a prazo a maioria da população assimila as ideias que o Governo pretendia passar: a de que a forma de funcionamento do estado que trouxe um avanço nunca visto na sociedade é fundamentalmente errada. Um dos cúmulos desta novilíngua é sistematicamente repetido pelos agentes da propaganda governamental que pululam por aí: "os cortes servirão para salvar o Estado Social". O paradoxo é exactamente igual ao presente no slogan de 1984: "o que está a destruir o Estado Social é o que o está a salvar". "Guerra é paz; liberdade é escravidão; ignorância é força."

 

Na última intervenção de Manuela Ferreira Leite, pudemos assistir a outro momento de novilíngua desmontado. Disse ela: "O Documento de Estratégia Orçamental não tem adequação à realidade". A frase usada é obviamente um eufemismo. O Documento de Estratégia Orçamental é um belo pedaço de propaganda e, como tal, pode perfeitamente prescindir de qualquer adesão à realidade. Quando olhamos para as metas previstas neste documento, perplexidade é o mínimo que deveremos sentir. No primeiro quadro lê-se que o PIB vai passar de uma queda de 3% em 2013 para um crescimento de 0.6% em 2014. Num ano, com o desemprego a aumentar e com cortes no rendimento das pessoas, iremos na realidade produzir mais 3.6%. Fabuloso. Como também é Vítor Gaspar prever que em 2014 as importações vão aumentar 1.6% quando no mesmo quadro aparece uma previsão de queda no consumo privado de 0.7% (um número por si só irrealista, tendo em conta que a quebra este ano será de 6.3%) e no consumo público de 2.9%. Como será que vão aumentar as importações quando o consumo, privado e público, continuará a cair? Poder-se-ia falar em importação de matérias-primas para fabricar produtos exportáveis. Se olharmos para as exportações, teremos a explicação: o Governo prevê um aumento de 5.6% nesse item. O problema? A realidade. As encomendas à indústria continuam a cair, e em Janeiro e Fevereiro as exportações tiveram a primeira quebra em mais de dez anos. Mas nada que apoquente Vítor Gaspar. Por qualquer acto de magia, elas vão voltar a disparar a partir de 2014.

 

Alguém viu uma desmontagem do inacreditável e despudorado irrealismo deste documento? Depois da entrevista de Sócrates, vários meios de comunicação fizeram, e bem, um "fact checking" do que foi dito. Contudo, de cada vez que o Governo apresenta projecções e metas completamente desprovidas de qualquer adesão à realidade, nada. Zero. Os jornalistas esquecem-se de fazer o seu trabalho e não se preocupam sequer em verificar se os dados de Gaspar são verdadeiros. A benovolência com que este Governo é tratado não é fruto do caso: uma prova disto são os dez jornalistas do DN contratados como assessores governamentais.

 

E chegamos ao dia de hoje, uma vez mais bombardeados por notícias plantadas por Paulo Portas sobre o seu árduo combate travado contra os cortes no Estado Social - estratégia que Passos Coelho deve aceitar apenas como forma de manter a coligação intacta - e com a comunicação social a repetir a novilíngua governamental, alegre e acriticamente. "Corte estrutural na despesa do Estado", lê-se no Público; "reforma do Estado", está no DN; "mãe acusada de matar duas filhas", escreve o Correio da Manhã, a principal central de propaganda deste Governo que anda há anos a fazer uma campanha contra o anterior primeiro-ministro e a promover as políticas do actual.

 

A novilíngua não é um pesadelo orwelliano, é a realidade com a qual convivemos diariamente. E com o fim do jornalismo, a tendência será sempre para piorar. As ditaduras actuais - o poder financeiro e corporativo - podem perfeitamente continuar a manter a sua fachada democrática, a ilusão de que existe uma verdadeira escolha democrática, também chamada de eleições. Desde que os mecanismos de controle da informação, e, consequentemente, das ideias e do pensamento, continuem a funcionar, a máquina trabalhará. Tudo é informação, números, palavras. As pessoas, um pormenor da história. 

 

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