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Arrastão: Os suspeitos do costume.

O pensamento neoliberal em todo o seu esplendor

Sérgio Lavos, 09.05.13

Ou como, no fundo, no fundo, o que um verdadeiro liberal defende é um regresso à jorna ou à exploração dos tempos da Revolução Industrial, antes de surgirem as primeiras conquistas dos trabalhadores. Ou até, quem sabe, a reintrodução da escravatura; certamente que os escravos de outrora agradeciam aos seus donos a comida e um "cantinho para dormir" que obtinham em troca do seu trabalho. É bom que de vez em quando o liberalismo insurgente mostre o seu verdadeiro rosto. Nós, de esquerda, agradecemos. Sabemos com o que podemos contar:

 

"Quem defende a existência de Salário Mínimo Nacional acredita que a imposição de um valor mínimo de remuneração do trabalho é “garantia de vida digna”.


Mas na reportagem da SIC do passado sábado (video) um jovem sem-abrigo, a viver nas galerias da Gare do Oriente, para escapar à situação actual, disponibiliza-se trabalhar apenas como pagamento de um “cantinho para dormir”. E muitos outros jovens – que provavelmente vivem ainda com os pais e não na rua – também estão desempregados (segundo o INE, 42,1%). Para estes, uma vida digna começaria por um qualquer trabalho, mesmo que seja de baixa remuneração. Só assim poderiam provar quão produtivos podem (ou não!) ser, medida bem mais credível que algumas centenas de palavras escritas no currículo.


Vida digna? Acabem com o salário mínimo nacional."

 

Adenda: algures na caixa de comentários deste post abjecto, o postador defende o que propõe falando em "liberdade" do indivíduo. Resumindo: o trabalhador deve ter a liberdade para fazer o contrato esclavagista que mais convém ao patrão. Ou ainda: escravidão é liberdade. Melhor exemplo de novilíngua seria difícil de encontrar.

5 comentários

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    Sérgio Lavos 10.05.2013

    Não, não reduz o desemprego. Os estudos que existem mostram o contrário. É apenas uma fantasia de uma minoria radical de direita, uma utopia assassina, como se viu recentemente no Bangladesh. E nos países que refere há salário mínimo, sim, definido por sector de actividade, e negociado entre sindicatos e patronato. Por mim, este modelo serve-me. A lei têm de permitir aos sindicatos capacidade de negociação, isto, tem de haver um enquadramento legal que confira poder à parte mais fraca da relação laboral, o trabalhador, como de resto acontece nos países mencionados.
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    Mário Amorim Lopes 10.05.2013

    Caro Sérgio, é curioso que adjective de "minoria radical de direita" todos os economistas que trabalharam na teoria do produtor e do consumidor, que consta em todos os livros de microeconomia (suspeito, mas não posso confirmar, que até Marx estava consciente disto) da qual se infere a lei da oferta e da procura. Note-se que até Paul Samuelson, esse arauto Keynesiano que previa no seu livro Economics que a USSR iria ultrapassar os EUA algures nos anos 90 (e ultrapassou, em presos políticos e campos de concentração), considerava como válida essa análise microeconómica, ao ponto de a incluir no livro.


    Mas deixemos a teoria para lá. 70 anos de estudos de labour economists ainda não chegaram a um consenso sobre o verdadeiro efeito do salário mínimo no desemprego geral numa economia com elevado desemprego conjuntural. No entanto, há uma boa evidência [1] que, de facto, o salário mínimo tem um efeito relevante no desemprego jovem. O caso é da Nova Zelândia, em que a convergência do salário mínimo dos mais jovens para o dos adultos assistiu a um aumento em paralelo do desemprego jovem. Há muitos mais estudos, mas isolar duas variáveis estatísticas numa economia dinâmica é complicado. A correlação é forte, ainda assim. A haver causalidade, suporta a teoria.


    Mas vamos ignorar tudo isto. Um exemplo mundano. Imagine o Sérgio que tinha uma empresa (calúnia! prejúrio! blasfémia!). Imagine que auferia 2000 Euros e que tem dois colaboradores a quem paga 500, retira 700 para si (seu malandro capitalista!) e restam-lhe 300. Agora imagine que precisava de alguém para fazer de estafeta ou para ajudar a fazer qualquer coisa. Atribui a essa tarefa um valor de 300 Euros. Se encontrasse alguém para o fazer, aceitava. Sendo o salário mínimo 500 euros, não teria como pagar. Percebe? Aliás, é bom recordar que foi na altura em que os EUA não tinham salário mínimo que o desemprego estrutural/natural foi mais baixo.


    [1] - http://www.nbr.co.nz/article/banksie-how-solve-youth-unemployment-woes-dw-136969
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    jhb 10.05.2013

    Uma pergunta:

    Se o Sérgio atribui a essa tarefa um valor de 300 euros (suponho que isto queira dizer que a tarefa no mínimo trará 300 euros à empresa), então passaria a auferir 2300 o que daria 600 euros de margem para pagar um salário mínimo de 500 e ainda sobrariam 100 euros. Correcto?

    Outra possibilidade seria deixar de guardar 700 euros para poder contratar alguém por um salário decente e poder dormir descansado à noite...

    Claro que a questão aqui é o dormir descansado à noite, porque para os nossos "liberais" dar a alguém um prato de sopa e um cantinho para dormir em troca de um dia de trabalho é uma boa acçao . Para a maioria dos mortais, é uma boa acçao também, mas para um comedor social ou uma instituiçao de solidariedade e nao para um empresa.

    Aliás, nao deixa de ser clarificador que tudo isto surgiu depois de passar na tv um apelo de um sem-abrigo em desespero, o que nos leva a concluir que sim os liberais apoiam a ideia que as empresas se aproveitam do desespero das pessoas para facturar ainda mais...
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    Mário Amorim Lopes 10.05.2013

    Avaliar em 300 Euros uma determinada tarefa é o mesmo que dizer que a utilidade marginal daquela tarefa para mim é de 300, e não que vou ganhar 300 Euros com ela. Ou seja, se arranjar alguém que a consiga desempenhar por 300 Euros ou menos, aceito. Pois o diferencial aumenta a desutilidade do trabalho (eu ganho utilidade se me custar menos por alguém trabalhar do que eu próprio trabalhar). Ao fixar um salário mínimo de 500 está a dizer que todos aqueles cuja desutilidade do trabalho é inferior a 300 Euros (e que, logo, estariam dispostos a trabalhar) não o podem fazer. Mais ainda, está a impedir a empresa de contratar caso não tenha recursos para mais, como no exemplo que dei.


    Por fim, é interessante, de um ponto de vista psicológico e antropológico, observar como uma conversa que se quer racional e ponderada é logo inundada com suposições e conspirações de os liberais gostarem do desespero das famílias e demais disparates. É o argumento straw man, muito em voga por estas bandas. Lêem-se mais insultos nos blogs de esquerda do que comentários ou posts racionais e instrutivos. Infelizmente, isso dá votos.
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