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Arrastão: Os suspeitos do costume.

Paulo Portas tem razão

Daniel Oliveira, 30.05.13

 

Quando o Afeganistão foi invadido pela então União Soviética os Estados Unidos, seguindo a velha máxima de que os inimigos dos nossos inimigos são nossos amigos, armaram os mujahedin. Entre esses "freedom fighters" estavam rapazes tão pouco recomendáveis como Osama Bin Laden. Umas décadas mais tarde a rede que os EUA alimentaram com armamento e apoio financeiro iria ser a base para a criação da Al-Qaeda, que foi responsável pelo maior ataque de sempre ao território Norte Americano.

 

Durante a invasão do Iraque os EUA decidiram, para diminuir a pressão de grupos apoiados pela Al-Qaeda, armar milícias sunitas. O resultado foi o que se esperava: as armas americanas acabaram por ser usadas contra os americanos.

 

É uma lógica suicida que vem de longe e tem continuado. Os EUA armaram o Irão para financiar a guerrilha nicaraguenseno mesmo momento que Irão os desafiava. Armaram o Iraque para atacar o Irão e acabaram a invadir o Iraque. Armaram os guerrilheiros afegãos contra os russos e assim ajudaram a organizar a maior rede terrorista que até hoje conhecemos. Armaram a oposição aos talibã e criaram os grupos que lhes fizeram a vida negra quando lá chegaram. Armaram o mundo inteiro para se defenderem do mundo inteiro.

 

Mas, na realidade, os EUA são aprendizes neste xadrez irresponsável. Quando toca ao Médio Oriente, britânicos e franceses, apesar de saberem bem mais da poda, são os piores conselheiros para a Europa. Desta vez, os dois países europeus com mais interesses estratégicos, políticos e económicos na região convenceram a União Europeia a um levantamento parcial do embargo de venda de armas à Síria. Mas só para a oposição, representada pelo Conselho Nacional Sírio. Para travar a tragédia, nada como alimentar um dos lados. Esta suspensão do embargo, que permite que cada país faça o que entender, acontece no mesmo momento em que os EUA e a Rússia preparam uma conferência de paz.

 

Conheço a Síria. De todos os países árabes onde fui, é seguramente o que tem o regime mais autocrático. E a competição é feroz. A dinastia Al-Assad governa os sírios com mão de ferro há mais de 40 anos. E por ali não há contemplações com qualquer tipo de oposição, seja laica ou religiosa. Não fiquei, por isso, espantado com a violência do regime nesta guerra civil.

 

A única vantagem política da Síria era mesmo a laicidade do Estado e a relativa tolerância religiosa em que viveu nos últimos anos. Passear em Damasco e Alepo era, há uns anos, uma fascinante visita a um mosaico cultural. Arménios, ortodoxos gregos, maronitas, católicos latinos, drusos, xiitas, alauítas e sunitas (para além de curdos e turcos, nas zonas de fronteira) viviam paredes meias sem conflitos de maior. Mas essa laicidade foi conseguida com mão de ferro e uma violação permanente dos direitos humanos, que manteve nas mãos de uma pequeníssima minoria alauíta (menos de um décimo da população, que os franceses sempre promoveram para travar o nacionalismo sunita) o poder económico, político e militar.

 

A Síria é um país fundamental no Médio Oriente. Entalada entre o Iraque e Israel, a Turquia e a Jordânia, com relações próximas com o Irão e um poder determinante na vida do Líbano e da Palestina, qualquer mudança de regime terá efeitos em toda a região. Quem controlar a Síria controla uma parte do conflito israelo-palestiniano, a política interna do Líbano, parte do conflito curdo com a Turquia e tem uma porta aberta para o Irão. Por isso, toda a cautela é pouca. E todo o cuidado com a possibilidade de radicais religiosos tomarem o poder é fundamental. Se tal acontecesse, os efeitos seriam devastadores, não apenas para a Síria mas para todo o Médio Oriente.

 

A União Europeia garante que estas armas serão destinadas à defesa de civis e que os seus destinatários serão controlados. Se não fosse tão absurda, diria que esta garantia resultava de alguma ingenuidade. Como raio se controla, no meio de uma guerra civil, quem fica com as armas que lá chegam? Estamos apenas perante a ilusão inglesa e francesa de que ainda têm a capacidade de controlar o que se passa naquela parte do globo.

 

Fica o aviso: Bin Laden e Saddam foram pera doce ao pé do que seria uma Síria dominada por fundamentalistas religiosos. Sim, era excelente para os sírios que o sanguinário Bashar al-Assad caísse. Mas, perante algumas das alternativas que ali estão a crescer, sírios, libaneses, turcos, palestinianos, israelitas e europeus ainda podem vir a ter saudades da tirania de al-Assad.

 

Resta-me por isso deixar um elogio ao governo português e ao seu ministro dos Negócios Estrangeiros, que se opôs a este disparate, que até os EUA têm evitado. Porque, como disse Paulo Portas, as armas podem acabar nas mãos de radicais e "é politicamente desajeitado que os europeus, quando está em preparação uma conferência de paz na Síria, em vez de se empenharem em ter um papel central na conferência, optem por relaxar um embargo de armamento".

 

Mais uma vez, a Europa foi incapaz de ter uma posição conjunta sobre a sua política externa. Não há, ao contrário do que diz Paulo Portas, uma "renacionalização" deste tipo de decisões. Já foi assim no Iraque (com o contributo do mesmo Portas), no Afeganistão e nos Balcãs. No último caso, a posição voluntarista e oportunista da Alemanha, ao reconhecer, antes de tempo, a independência da Croácia, foi determinante para a guerra mais sangrenta a que a Europa assistiu depois de 1945. A União Europeia, a quem foi dado, ninguém sabe bem porquê, um Prémio Nobel da Paz, nunca teve uma política externa comum pela mesma razão que não consegue vencer a sua crise interna: vale sempre a lei do mais forte. A União existe para todos e deixa de existir quando a França, o Reino Unido ou a Alemanha decidem que não lhes interessa. Se lhes interessa ter a sua própria política (externa, económica ou outra), cada um faz o que quer.

 

Publicado no Expresso Online

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